Era agosto de 1969 e aproximadamente meio milhão de jovens juntaram-se numa quinta, no Estado de Nova Iorque, para assistirem a concertos ao ar livre. 50 anos depois surge um documentário sobre o festival.

A verdade é que Woodstock não representava apenas o agrupamento de um conjunto de indivíduos que partilhavam um amor incondicional pela música, mas muito mais do que isso. Era um fenómeno profundamente simbólico, em todas as suas fibras constituintes, uma reflexão de um movimento contracultura, que já se encontrava relativamente consolidado.

O filme realizado por Barak Goodman, em 2019, aborda o conceito de Woodstock numa perspetiva que extravasa o seu entendimento enquanto um simples festival de música, para alocar o seu foco no quadro moral subjacente e na efervescente fricção intergeracional, que atingiu, naquele tempo, um dos seus picos máximos.

Três dias que definiram uma geração

Os jovens questionavam o status-quo que lhes fora imposto, assumiam vividas posições anti-establishment, rejeitavam a guerra do Vietname, declaravam-se pacifistas, possuíam uma grande sensibilidade para questões ambientais, criticavam o capitalismo – assim como o papel da autoridade – e defendiam os direitos civis.

Filhos da geração que combateu na Segunda Guerra Mundial, sentiam um forte impulso interno para subverter os paradigmas anteriormente fixados. Nas palavras de Bob Dylan, “Your sons and your daughters/Are beyond your command/Your old road is rapidly aging”.

Enquanto documentário, Woodstock apresenta-nos algo novo, pois desvia a sua atenção dos concertos e do panorama musical em si, apesar de mostrar verdadeiras gemas de artistas como Jimi Hendrix, Joan Baez ou The Who. Aborda o festival, não apenas nas suas vertentes técnicas e logísticas, mas também como acontecimento social, sendo esse o seu melhor trunfo. O filme leva até ao espectador a realidade crua sobre Woodstock e não a sua versão mais adornada, apesar de que mesmo a verdade tenha em si algo mais surreal do que a própria ficção.

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Para aquilo que inicialmente era um empreendimento privado com fins lucrativos, os quatro dias de Woodstock acabaram por ser parcialmente gratuitos, tudo devido a falhas no planeamento. Ninguém sabia quantos bilhetes tinham sido vendidos ao certo, as vedações não tinham sido construídas a tempo. Havia falta de comida, uma grande insuficiência de cuidados médicos e, devido às condições atmosféricas que se faziam sentir, um grande risco de uma eletrocussão massificada.

Tudo isto fez do festival algo ainda mais surreal, pois apesar de todos os evidentes contratempos e perigos associados à sua realização, a solução emergiu dos sentimentos de união e de humanidade que se faziam sentir: quatro dias de vida comunitária, baseada em trabalho voluntário e num grande espírito de entreajuda e empatia. As pessoas sentiam-se no lado certo do debate, no sítio onde deveriam estar. Mais do que música, muita da peregrinação quase espiritual que imbuiu Woodstock revela-se pela procura de compatibilidade e, até mesmo, da própria identidade.

Woodstock parou os relógios de toda a gente. Só quem esteve presente é que sabe ao certo o que experienciou. Talvez o tempo tenha verdadeiramente parado, talvez tudo aquilo se tenha passado numa outra dimensão, ou até, quem sabe, talvez tudo tenha sido um efeito colateral do excesso de alucinógenos.

O documentário Woodstock está agora disponível na RTP Play.