Mindhunter regressou na sexta-feira (16) para a segunda temporada. A série inspirada nas histórias reais do FBI prometeu e cumpriu. A Netflix provou que uma série de crime não necessita de imagens gráficas para chocar.

Mindhunter é inspirada no livro Mind Hunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit da autoria de John E. Douglas e Mark Olshaker. A série retrata como os agentes do FBI Holden Ford e Bill Tench  revolucionaram a psicologia criminal através de entrevistas a alguns dos assassinos mais assustadores da história. Acompanhados da psiquiatra Wendy Carr, investigaram a mente de serial killers como Ed Kemper, Charles Manson, entre muitos outros.

O texto que se segue pode conter spoilers
Mindhunter segunda temporada

‘Mindhunter’ (Netflix)

Na primeira temporada assistimos ao desenvolvimento de métodos de análise, ao início da conquista de credibilidade e da aplicação dos conhecimentos em investigações a decorrer. A segunda não difere neste aspeto, mas eleva a qualidade ao adicionar outros elementos à história.

Da nova temporada, o primeiro episódio é, possivelmente, o pior. Após o limbo em que a primeira temporada terminou, esperava-se que David Fincher conduzisse o início da segunda de forma menos lenta e mais esclarecedora. Tal acabou por não acontecer.

A história começa com Ford no internamento após o esgotamento psicológico que atingiu o auge no final da primeira temporada, em frente a Ed Kemper. Bill e Nancy vêem as suas vidas darem uma volta de 360° e novas personagens surgem, por exemplo, na vida de Carr. A BSU muda-se para a cave. E o projeto começa a ganhar forma, graças ao novo diretor do FBI Ted Gunn.

Contudo, o aumento de qualidade apenas acontece realmente quando começam as investigações aos assassinatos de crianças em Atlanta. Os agentes do FBI são convidados a ajudar a encontrar o assassino, mas os seus métodos não são muito bem vistos. E é partir daqui que série volta a ser o que se esperava depois a primeira temporada (ou até mais).

À segunda é de vez!

Inicialmente, as vidas pessoais dos membros da BSU estão praticamente no segredo dos deuses. Fincher apenas revelou informações sobre Ford, todas as outras personagens aparecem, apenas, no âmbito profissional. Ao longo da segunda temporada, no entanto, tudo muda. A série deixa de se focar apenas nas dificuldades das entrevistas e das investigações e passa a focar também “a realidade”. A vida de Tench sofre reviravoltas e o passado de Carr é contado de uma forma mais detalhada e mais envolvente.

Uma das mudanças mais discutíveis é, no entanto, o switch de personagem principal. Nos primeiros episódios, os problemas de Ford são um dos focos principais. No entanto, a determinada altura, a série passa a focar-se muito mais em Tench e no seu próprio drama. Ford acaba por ser “renegado”  à sua contribuição para a investigação e a ser mostrado como a personagem perseverante e ligeiramente entorpecida, focado apenas em ver o caso resolvido.

Se esta foi a decisão acertada? É impossível saber! Cada personagem é demasiado única para todas as histórias satisfazerem todos os espectadores. Para além disso, as investigações de Atlanta acabam por disfarçar as pequenas falhas. O facto de a investigação atravessar toda a temporada dá um novo ritmo e um novo propósito a cada informação que é adquirida nas conversas na prisão.

Lê Também ’13 REASONS WHY’. QUEM MATOU BRYCE WALKER?
Mindhunter

Os investigadores (Netflix)

Tendo isto em conta, estamos perante uma série interessante, mas perto do normal. Contudo, Mindhunter tem mais cartas na manga. O apogeu da produção continua a ser a forma como envolve o espectador sem, no entanto, lhe retirar o afastamento necessário para ver cada crime e cada situação de forma objetiva. As personagens tornam-se mais densas, com histórias mais reais e preocupações sérias, mas os crimes continuam distantes. Apenas é contado como os factos decorreram, ao invés de mostrá-los, o que confere à série um sabor diferente.

Mindhunter também é capaz de causar medo, mas um diferente do habitual. Não o medo do crime que vai ocorrer (como em produções do género), mas o medo decorrente de sabermos que as mortes contadas efetivamente ocorreram no mundo real, sabermos a forma como decorreram e como são encaradas por quem as perpetuou.

A série acaba por criar, também, um suspense diferente. A certa altura damos por nós a abrir a Wikipédia para saber o que vai acontecer, como é que os homicídios foram, quando, como. As entrevistas são conduzidas de uma forma que nos tira o sentimento de horror e nos adiciona uma curiosidade enorme. A ideia de que tudo o que vemos já se passou, de que estamos perante um pedaço de história acaba por ser motivadora e dar um alento diferente para continuar a ver.

Nem tudo é a preto e branco, mas quase…

Tal como na primeira temporada, os cenários continuam a ser frios. O cinzento continua a ser cor dominante. Contudo, se na primeira temporada isto era capaz de afetar o interesse do espectador, nesta tem exatamente o efeito contrário.

Os tons neutros provocam um distanciamento proveitoso, quer das personagens, quer da história. Para além disso, são mais um elemento a conduzir-nos à análise objetiva do que os nossos olhos vêem. A certa ponto, apercebemo-nos que também nós estamos a tentar compreender melhor a forma como funciona a mente de cada um dos entrevistados.

Acredito que poucos serão aqueles que não ficaram intrigados sobre o que conduziu o BTK a matar ou como é que Manson conseguiu atrair uns quantos jovens e convencê-los a cometer os crimes que planeara. Mindhunter é a série que nos permite responder a estas questões.

MINDHUNTER

Jonathan Groff é Holden Ford. (Netflix)

Para além dos cenários, nesta segunda temporada, a banda sonora também continua em destaque. O passado do crime continua a ser mostrado de forma perturbadora, mas inócua. O ambiente do século XX, carregado de tabaco e de discriminação, é bastante bem retratado.

A psiquiatra que aceita a sua orientação sexual, mas que não a vê aceite pela sociedade machista, o assassinato que ocorre num bairro familiar, Atlanta e as suas ideias racistas. A cada episódio vemo-nos perante um novo problema moral ou político, ao mesmo tempo que continuamos a tentar decifrar quem vai ganhar o xadrez mental que são as entrevistas.

Crítica: 'Mindhunter' continua a brincar com o medo com delicadeza
8Valor Total
Votação do Leitor 1 Voto
8.0