Desta vez, para refrescar o verão dos seus utilizadores, a Netflix apostou no desenvolvimento de uma série que retratasse a realidade nas favelas de São Paulo. Estreada em agosto, Sintonia foi criada por KondZilla, Felipe Braga e Guilherme Moraes Quintella. Será que se trata de uma aposta vencedora?

As três personagens principais de Sintonia, Doni, Nando e Rita, simbolizam, respetivamente, três constantes paulistas: música, droga e religião. Foi com base na incorporação destes temas no elenco que os produtores escolheram evidenciar os mundos divergentes que coexistem na cidade mais populosa de toda a América do Sul.

É Jottapê Carvalho quem dá vida a Donizete, um adolescente, que, independentemente do meio que o rodeia, sonha chegar aos holofotes como cantor de funk. Mantém-se longe dos maus caminhos, algo que Nando (Christian Malheiros), por sua vez, não consegue. Este vê-se desde cedo encurralado no monopólio de drogas que, no fundo, manipula todos os habitantes da favela. Rita, interpretada por Bruna Mascarenhas, consegue dar a volta e fugir a esse mundo, encontrando na religião as respostas que procurava.

Sintonia

Nando, Rita e Doni, as três personagens principais (Fotografia: Netflix/Divulgação)

Sintonia pode parecer o estereótipo do Brasil por se focar nos temas que, aos olhos de muitos, caracterizam o país. No entanto, fá-lo de uma forma crítica e real. Notamos isso logo ao início, quando damos por nós a repensar aquilo que foi dito. Ainda que toda a série seja em português, a pronúncia é tão carregada que talvez só os amantes de telenovelas brasileiras consigam descodificar tudo à primeira. As imagens das favelas são de suster a respiração, pois, no nosso quotidiano, facilmente nos esquecemos de que se tratam, de facto, de modos de vida; que existem pessoas a nascer, crescer e morrer em condições que parecem inimagináveis.

É um aperto constante no coração causado pela ânsia de que, de um momento para o outro, comece um tiroteio que ceife a vida a uma das personagens com a qual desde o primeiro episódio nos começamos a preocupar. Uma palavra em falso, um humor mais suscetível e parece que já conseguimos ouvir o disparo. Nesse aspeto, os produtores estão de parabéns, conseguem retratar o dia a dia na favela e o receio constante de quem o vive. Citando uma das falas da série, “Em um segundo, toda a sua vida pode mudar.”

O funk que ouvimos ao longo de toda a série faz-nos esquecer esporadicamente os dramas vividos durante os seis episódios da primeira temporada. Ainda que sejam poucos e que cada um tenha menos de uma hora de duração, são os suficientes para nos fazerem desejar uma segunda temporada. Isto porque, em meia dúzia de episódios, são abordados temas como o vício nas drogas, racismo, autoridades corruptas, gravidez precoce, fanatismo religioso e violência doméstica. O trailer mostra a trama de uma forma superficial, não a tornando particularmente aliciante:

Numa altura em que quando ligamos a rádio ouvimos aquelas batidas “irritantemente” cativantes, não é de espantar que este género de música, nascido precisamente nas favelas, seja a banda sonora. Dois membros do elenco são, inclusivamente, cantores de funk fora do ecrã: MC Jottapê e MC M10. O diretor da série é Kondzilla, o fundador da produtora que deu a conhecer grandes nomes do funk atual.

Mesmo tratando-se de um pólo económico, cultural e administrativo, São Paulo tem a maior concentração de favelas do Brasil. Estas disparidades evidentes levam a que os moradores da favela sintam que a ascensão social não passa de uma utopia. O tráfico de droga torna-se apelativo, parecendo muitas vezes o caminho que é necessário percorrer para contornar a inevitável miséria. Também as personagens da série o trilham, apesar de este os conduzir a becos aparentemente sem saída.

A realidade nas favelas é um tema sensível, mas que deve ser explorado. Fazê-lo através da Netflix é a maneira inteligente de abrir os olhos a quem tende a esquecer-se de que o mundo não é um conto de fadas. Com cenários realistas, diálogos pertinentes e personagens complexas, Sintonia revela desde cedo o seu potencial ao contar histórias ignoradas.

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