Variações
Fotografia: Divulgação

‘Variações’: A procura pelos sonhos perdidos

Após a crescente onda de popularidade que envolveu as mais recentes biopics hollywoodescas, chega às salas de cinema portuguesas a história do cantor António Variações, produzida por João Maia.

A antecipação que rodeia Variações, com estreia marcada para 22 de agosto, é palpável. Afinal, será possível falhar com este tema em mãos? António afirma-se como marco incontornável da música nacional, cuja excentricidade e carisma falam por si. Seria apenas necessário deixar as melodias brilhar e explorar a essência do homem por detrás da obra.

Variações cumpre, de certo modo, a missão que lhe está predestinada. Mostra um humilde rapazinho natural de Fiscal, no distrito de Braga, que parece ter as asas cortadas logo à partida. É confinado à fábrica do pai e envolvido por um austero ambiente religioso, que parece destinado a integrar até ao fim dos seus dias.

Fonte: IMDB

Contra todas as expectativas, António liberta-se das amarras e tenta singrar na capital, sem nada mais do que carinho pela música. Entre peripécias, romances e dilemas, Variações é uma peça de época, que retrata a vibrante Lisboa, nos primórdios dos anos 80, disposta a avançar, mas ainda presa ao preconceito.

Talvez o defeito do projeto seja a premente presença de reticências. Há a sensação de que ficam partes por aprofundar, coisas por dizer. António Variações é demasiado grande para caber num espaço de duas horas. Todavia, o magnetismo da sua biografia apela à vontade de revisitar Variações, um poderoso hino ao amor, à diferença e a todos os sonhos, à primeira vista, perdidos.

Esse lugar que acerte bem contigo

Com tónica idêntica ao livro António Variações: Entre Braga e Nova Iorque por Manuela Gonzaga, Variações reaviva a memória do compositor, 75 anos após o seu nascimento. A narrativa começa por apresentar Toninho, um simples rapaz da província que ouve avidamente Amália Rodrigues, sonhando, um dia, atuar no mesmo palco que a fadista. Ainda que desencorajado a ambicionar o inalcançável, o menino cresce e torna-se António Ribeiro (Sérgio Praia), barbeiro na (quase) cosmopolita Lisboa, músico nos tempos livres.

O descontentamento perante a capital motiva a partida para Amesterdão, onde a sua arte permanece incompreendida, apesar da modernidade característica do país. Tudo muda com a chegada de Luís Vitta (Augusto Madeira), jornalista na Rádio Renascença, que promete ao cantor um contrato discográfico em Portugal. António não pensa duas vezes – “Eu pela minha música vou até ao fim do mundo” – e embarca numa intensa jornada rumo à fama.

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Fonte: IMDB

A pouco e pouco, a luz passa a incidir sobre o processo criativo do artista. As primitivas gravações na sua casa de banho, sem qualquer suporte instrumental, refletem o nascer gradual de um visionário, sem grandes conhecimentos técnicos, mas com enorme talento e paixão: o nascimento de António Variações. O melancólico mote “não nasci para ser feliz” dá, por fim, lugar à realização pessoal.

De facto, as passagens alusivas a gravações e concertos tocam no coração de uma maneira muito especial ao refletir a exata essência do espólio musical de Variações. A atuação de António na discoteca Trumps ou o primeiro espetáculo na sua terra natal constituem momentos que envolvem o público na totalidade, como se cada um estivesse a aplaudir na primeira fila.

Fonte: GQ Portugal

Desde as notas sentimentais de Sempre Ausente às melodias frenéticas de Toma o Comprimido, a banda sonora nunca desaponta, incutindo o desejo de trautear o repertório híbrido de Rock, Pop, Blues e Fado, durante semanas.

No entanto, o que seria deste conjunto mágico de sons sem intérprete para lhes dar forma? Sérgio Praia integra Variações com a lição bem estudada. Já antes tinha interpretado António no monólogo Variações, de António, produção teatral que recorda o percurso do compositor. Desta feita, não desilude ao encarnar a personalidade até aos mais ínfimos maneirismos, sendo auxiliado por uma incrível caracterização. Como o próprio músico referiu em vida, o nome artístico Variações sugere “elasticidade e liberdade”, características que Praia traz à mesa ao pintar António em pleno processo de autodescoberta, com uma versatilidade próxima do camaleónico.

O amor é o momento

Paralelamente à música, o amor surge como elemento chave na vida de Variações, tema explorado de forma tripartida. O principal alvo desta temática é Fernando Ataíde (Filipe Duarte), proprietário de Trumps e amante de longa data que António reencontra. A química entre os dois é notória, embora Fernando, já casado, tente seguir com a sua vida.

Ataíde mais do que uma paixão é um amigo. O apoio que oferece é incondicional, desde ajuda monetária, à esperança depositada na carreira do companheiro. O amor proibido floresce e desabrocha num comovente romance, que culmina na morte do artista, à qual se segue o falecimento de Fernando, um ano depois. A relação de ambos preenche o enredo e fornece um ângulo intimista do cantor, conferindo-lhe densidade emocional.

Fonte: IMDB

Por outro lado, surge Deolinda de Jesus, mãe de Toninho, que mantém com o filho uma relação dicotómica. António ama profundamente Deolinda, sentimento bastante explícito nas criações musicais do mesmo. Porém, o medo de desiludir e de se expor paira entre os dois como uma guilhotina. O permanente jogo de expectativas obriga o compositor a esconder uma parte de si, algo preponderante na negação posterior da sua sexualidade por parte da família. Deolinda é imortalizada como “a mãe mais amiga”, aquela que “sempre me soube aceitar”, mas Variações mostra que a aceitação tinha somente por base aquilo que o filho deixava transparecer.

Fonte: GQ Portugal

Amália Rodrigues, a perene musa, representa o último tipo de amor: o apreço pelo singular, pelas origens e pela musicalidade. A fadista impõe-se como estandarte permanente na vida de António. Foram as primeiras notas de Povo que lavas no rio, melodia integrada no álbum Anjo da Guarda (1982), que semearam o desejo de transcender a pacata vida bucólica em Fiscal. Amália é a personificação da esperança, constituindo o principal motivo que leva o pequeno Toninho a pegar numa vulgar caixa de ritmos e a transformar-se em António Variações.

Fantasias que o cinema projetou no meu olhar

Apesar do mérito que merece, Variações acaba por não ser um filme perfeito, se é que tal existe. Por vezes, o desempenho dos atores encontra-se demasiado próximo do teatral, excedendo o apropriado a uma produção cinematográfica. A transição dos palcos para o grande ecrã afigura-se como tarefa difícil para o elenco, fator que não surpreende, face ao subdesenvolvimento do cinema português e ao historial em teatro que a maioria detém.

Contudo, a maior falha é a omissão. Omissão tanto de certas temáticas, como de essência. A forma como o guião retrata António é quase irreal: sempre seguro de si, sempre com uma frase poética à mão que remata cada momento. Será esta a substância do artista? Falta alguma humanidade, que é preenchida por liberdade criativa.

Fonte: IMDB

A seleção de acontecimentos representados consegue, também, roçar o duvidoso de quando em vez. É óbvio que a produção de um filme pressupõe o corte de determinados detalhes ou episódios. No entanto, Variações consegue mencionar ocorrências sem importância, esquecendo-se, em simultâneo, de marcos com grande valor. A morte do cantor, a ligação da doença ao vírus HIV e o legado que este deixa para trás são aspetos mitigados ou mesmo nunca abordados, o que empobrece a narrativa. Os positivos suplantam, em geral, os negativos, o que não invalida a necessidade de um mergulho mais profundo no âmago do tema em causa.

Variações
Fonte: Arquivo / Jornal de Notícias

António Variações emana vitalidade e vontade de viver. É uma força da natureza, que deu tanto a Portugal com o seu talento e amor pela música. Apenas podemos ter a esperança de, algum dia, conseguir retribuir devidamente. Projetos relevantes como Variações exercem a sua quota-parte, alargando o património cultural do músico a um diverso leque de gerações.

À semelhança de António, a magia do cinema espelha a fantasia no olhar do coletivo. A colisão que o filme proporciona destes dois imaginários parece, então, adequada à memória do eterno poeta, ainda tão relevante hoje, como há 35 anos atrás.

 

Título original: Variações

Realização: João Maia

Argumento: João Maia

Elenco: Sérgio Praia, Filipe Duarte, Augusto Madeira, Victória Guerra

Género: Biografia, Drama

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