Numa altura em que filmes de super-heróis e remakes de histórias infantis são os capitães das bilheteiras, o mais recente filme de Quentin Tarantino quebrou o panorama e, nos Estados Unidos, já é o seu filme com maior abertura na semana de estreia. Porém, apesar de uma das frentes ter sido conquistada, a batalha está meio perdida. Era Uma Vez… Em Hollywood não é nenhuma obra prima.

A premissa tem tudo para dar certo. Um elogio a Hollywood, passado durante a época de ouro do cinema, numa altura em que a inocência rimava com a sociedade e a América ainda não tinha sido despertada para um mundo de crimes e violência. Uma sociedade utópica que, para o bem e para o mal, parece existir apenas na cabeça de Tarantino. Segundo o mesmo, o retrato da época não é fiel, mas sim uma construção daquilo que era Hollywood na sua cabeça – quando era jovem – tal como Roma é para Alfonso Cuarón. A discórdia entre ambas as obras é, no entanto, só uma: Era Uma Vez é um esboço e Roma é uma estampa caprichada.

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Quentin Tarantino já se encontra num patamar onde a impecabilidade já não é só algo que se espera, mas também que se pede. Depois de realizar obras como Reservoir Dogs, Pulp Fiction ou o perfeito Inglorious Basterds, a mediocridade já não é uma palavra que tenha representação no Dicionário de Tarantino. A fasquia ergue-se acima da excelência e tudo o que está abaixo é apenas mau. Era Uma Vez não está abaixo, mas está no limbo, encarcerado entre a dúvida e a confusão, duas das sensações com que nos deixa.

No filme, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator com problemas de entono, pois passou toda a sua carreira a interpretar vilões em séries western que são constantemente derrotados, anos após anos, por heróis mais jovens que lhe roubam o protagonismo. Quando encarado com a realidade, Rick Dalton apercebe-se que toda a sua carreira depende do seu próximo passo. E, juntamente com o seu amigo e duplo de cenas, Cliff Booth (Brad Pitt), tentam recuperar a notoriedade que Rick Dalton antes conhecia.

Apesar de a história não ser propriamente cativante, o ambiente compensa. Tarantino é conhecido pela suas construções detalhadas e pelas conjunturas perfeitas onde se desenham as narrativas. Pulp Fiction é o expoente máximo desse exemplo, com a banda sonora inesquecível a balançar as linhas da história. Era Uma Vez não é exceção.

Os espaços cénicos, o guarda-roupa ou até os carros são apenas alguns dos exemplos onde Era Uma Vez se expande para lá da perfeição. O retrato de Hollywood nos seus anos 60 é concluído com mestria, sendo o auge desse retrato a personagem de Margot Robbie, Sharon Tate, que apesar de não ter uma participação saliente, é inolvidável o suficiente para sustentar o corpo do monumento arquitetado por Quentin Tarantino.

Margot Robbie interpreta Sharon Tate

Apesar de não se destacar em termos narrativos, a escrita de Tarantino continua a ser um dos seus pontos fortes. A perspicácia camuflada no humor negro dá ao guião características notáveis, que não só o enriquecem, como colocam Tarantino no pedestal a que já está habituado. Porém, em comparação com obras passadas, é um pedestal que desce de nível.

Era Uma Vez… Em Hollywood não é o típico filme de Quentin Tarantino. Mantém parte da sua essência, como os diálogos rebuscados, os ambientes nostálgicos e a cinematografia que já fazem parte da assinatura. Porém, Once Upon a Time… In Hollywood – o seu título original – é mais uma carta de amor ao mundo do cinema do que propriamente uma carta de amor ao mundo do crime. O típico filme sanguinário de Quentin Tarantino ficou em Os Oito Odiados (The Hateful Eight), e essa é uma marca que ainda não estávamos prontos para deixar no passado. É um filme mais contemplativo e desligado do passado do realizador, ao mesmo tempo que este abraça a indústria que o recebeu.

Longe de ser o melhor filme da carreira de Quentin Tarantino, Era Uma Vez… Em Hollywood é eficaz enquanto obra e reúne um elenco que se manteve o tempo suficiente afastado dos ecrãs para deixar saudades. Não é tudo aquilo que esperávamos, mas é a prenda que Hollywood já merecia.

Título original: Once Upon a Time… In Hollywood
Realização: Quentin Tarantino
Argumento: Quentin Tarantino
Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Al Pacino
Género: Comédia, Drama
Duração: 161 minutos

Crítica: 'Era Uma Vez... Em Hollywood' visita a glória, mas não é glorioso
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