No ano de 2006, Luís Ferreira teve uma ideia brilhante e certamente, na cabeça de muitos, descabida. A ideia era fechar a aldeia de Cem Soldos durante uns dias e nela fazer um festival exclusivamente de música portuguesa. Treze anos depois e na 10.ª edição, o Bons Sons sobrevive e leva Portugal a viver o interior.

Um brinde ao interior

Todas as aldeias do interior tivessem o privilégio de ter as ruas cheias, as tascas esgotadas e a cultura que se respira aqui durante quatro dias por ano. O festival vive dos seus voluntários e da generosidade dos residentes e outros amantes do acontecimento. Durante dias a fio, a aldeia recebe centenas de pessoas que montam as infraestruturas e preparam tudo para que ali se vivam os melhores dias do verão.

Há crianças por todo o lado, famílias reunidas, (muitos) cães e idosos que rejuvenescem com os visitantes de Cem Soldos. A aldeia é mágica e vive da boa vontade e sustentabilidade, ambos cruciais para a manutenção do festival. Nestes dias, foram várias as barraquinhas de produtos naturais e cruelty-free espalhadas pelas ruas.

Adega Poças: o que faz falta é animar a malta

Bem no centro da aldeia, uma casa abandonada transformou-se no centro de operações da Adega Poças. Em colaboração com a ilustradora Mariana, a Miserável, um mural foi erguido em honra das pessoas que fazem o Bons Sons. À conversa com a artista (e uns copos de vinho depois), ela fala-nos do que é ter a experiência de ver o festival ser construído de raiz. “No fundo, o mural deixa de ser meu e passa a ser da comunidade“, confessou a ilustradora acerca do processo criativo na criação do mural. Baseou a peça na lagartixa – símbolo do festival – e nas pessoas porque “este festival é produzido por pessoas para pessoas“, sendo que alguns voluntários a ajudaram na execução.

Além de adega, esse espaço transformou-se no epicentro do festival devido à chamada “poesia à desgarrada“, onde dentro duma sala éramos convidados a ler poesia sempre bem abastecidos do vinho branco ou tinto.

Aos amigos e desconhecidos que se tornaram a nossa casa

Os pés começam a dar sinais de cansaço e o corpo pede mais umas horas de sono, mas a aldeia chama por nós. “Das 10h às 15h” ou pelo menos é o que diz o horário das atividades e concertos a decorrer todos os dias em Cem Soldos. Performances, leituras, dança, concertos surpresa e tudo isto antes dos grandes concertos da noite. A comunhão na aldeia mágica é real e para quem visita a primeira vez, passa a ser assíduo.

Um brinde aos amigos que nos mostraram o “charolimão” e o “mouchão” que nos fizeram aguentar o sol; um brinde aos desconhecidos que, sem aparente razão, foram ombro amigo também e nos fizeram sentir em casa. Porque quem vai ao Bons Sons uma vez não volta o mesmo.

Porque o Bons Sons não é só música e reencontros, também ele é um sinal de que o interior ainda bombeia sangue em Portugal. O Bons Sons existe pela cidadania, pela coletividade, pelo rejuvenescimento e pela comunhão entre a contemporaneidade e o campo. Um projeto desta dimensão, com o manifesto na proa do barco, tem tudo para correr bem. E são os residentes e as centenas de voluntários que todos os anos tornam tudo isto possível.

Bons Sons, voltaremos a dançar contigo em Cem Soldos.