'Enter The Anime' é um olhar superficial sobre o mundo Otaku
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“Todos os títulos mencionados neste documentário estão disponíveis para streaming na Netflix.”

É com esta mensagem que acaba Enter The Anime, o novo documentário produzido pela Netflix que explora a cultura em redor de Anime e Manga.

O filme segue o ponto de vista da realizadora Alex Burunova (Lonely Planet, Pale Blue) à medida que entrevista realizadores, escritores e artistas nos principais estúdios de animação, tanto em Tóquio como em Los Angeles.

Como o nome indica, Enter The Anime propõe ser um ponto de entrada para esta subcultura extremamente intimidante. É destinado a quem, tal como Alex, nunca tinha tido contacto com este mundo mas tem curiosidade e não sabe por onde começar.

Assim, o filme tem dois objetivos: introduzir os milhões de subscritores da Netflix no ocidente ao mundo Otaku e, em última instância, incentivá-los a percorrer o catálogo cada vez maior de séries e filmes Anime na Netflix.

Infelizmente, a agenda comercial da Netflix projeta uma sombra constante ao longo de Enter The Anime, que acaba por se assemelhar a um anúncio de 50 minutos.

Vários animes na Netflix

Imagem: Netflix

Para além disso, a atitude de Alex Burunova perante o género que pretende explorar parece condescendente. É uma mistura de “Anime é estranho lol” e “wow, que violento” que sabe sempre a desonesto.

Ainda assim, o filme cumpre o seu objetivo de cultivar interesse no meio e dar algumas pistas sobre por onde começar. Algumas das entrevistas são especialmente interessantes, mas de um modo geral, não há aqui muito para vocês se já são fãs de Anime.

Rumo à Ásia

Tóquio em Enter The Anime

Imagem: Netflix

O filme adota um estilo narrativo algures entre um episódio de Anthony Bourdain e um Vlog de viagem. Seguimos diretamente a viagem de Alex à medida que tenta “perceber” o mundo de Anime e a contra-cultura Japonesa subjacente.

Começando em Los Angeles, a sua missão leva-a a Adi Shankar, criador da série Castlevania, uma das apostas de Anime “ocidental” da Netflix.

Adi Shankar em Enter The Anime

Imagem: Netflix

Há que dizer que Shankar é uma personalidade interessante por si só, mas esta sequência vem apenas revelar o quão superficial o documentário vai ser daí para a frente.

Alex viaja até Tóquio, onde se depara com a incongruência entre a cultura japonesa de harmonia e anonimato e a extravagância que domina a subcultura de Anime.

Na capital nipónica, a realizadora visita estúdios como o lendário TOEI Animation, responsável por clássicos como DragonBall Z e Ultraman (cujo remake, convenientemente, é produzido pela Netflix).

Behind-The-Scenes em Enter The Anime, da Netflix

Imagem: Netflix

É nesta parte que encontramos as melhores entrevistas, que exploram tanto o lado criativo como o impacto da chegada do CGI à industria de animação tradicional.

Alex explora também outras subculturas, desde KawaiiDeath Metal, e as formas como se intersectam com Anime, como é o caso na série Aggretsuko, uma história irreverente da produtora de Hello Kitty, Sanrio.

Informação em falta

Algo crucial que Enter The Anime nunca explica é a dicotomia entre séries “para rapazes” (Shonen) e “para raparigas” (Shoujo), e a forma como estas designações têm impacto na concepção e produção das séries.

Em vários momentos, os entrevistados, tanto criadores como fãs, referem-se a estes termos, mas a sua importância nunca é transmitida ao espectador.

Fãs de Metal Japonesas em Enter The Anime

Imagem: Netflix

Este exemplo acaba por servir como amostra para todo o filme. As verdadeiras intenções por detrás da sua produção acabam por se tornar demasiado evidentes face ao valor informativo ou até de entretenimento. Tornar Anime mais acessível é um conceito com potencial, mas Enter The Anime fica apenas pela superfície.

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