O filme de Andrea Berloff, The Kitchen – Rainhas do Crime, chegou hoje (8) aos cinemas nacionais, mas apesar de inovar e ser um dos primeiros filmes a desenhar o retrato de uma máfia liderada por mulheres, a obra não conquista e deixa a desejar.

Estamos em 1970 e o crime corre pelas ruas de Hell’s Kitchen, em Nova Iorque. A máfia irlandesa controla o local e as autoridades vêem, no grupo de mafiosos, um grande quebra-cabeças. Kathy (Melissa McCarthy), Claire (Elisabeth Moss) e Ruby (Tiffany Haddish) são três mulheres casadas com os líderes da máfia, cujas opiniões são constantemente ignoradas. Quando os seus maridos são presos pela polícia, as três mulheres decidem agir.

Atualmente, o feminismo em Hollywood está a dar os seus primeiros passos. Depois da oficialização de uma mulher como Agente 007, eis que surge um filme que rompe com os estereótipos (pelo menos, era o que se pensava). Não é de agora que a máfia é um assunto retratado no cinema. Grandes clássicos já o fizeram por meios primorosos, como The Godfather ou Goodfellas, dois dos filmes mais aclamados da história do cinema.

Goodfellas (1990), filme de Martin Scorsese

Todavia, foi apenas com Andrea Berloff  (a argumentista de Straight Outta Compton e de World Trade Center) – que se estreou em The Kitchen como realizadora – que o investimento numa narrativa que flutuava em águas ainda não navegadas finalmente surgiu. Uma história de três mulheres que se cansaram de viver na sombra dos seus maridos e que decidem liderar um grupo de mafiosos.

O enredo foi o primeiro passo para aquilo que poderia resultar num filme brilhante. O elenco foi o segundo. Encabeçado por Melissa McCarthy, Elisabeth Moss e Tiffany Haddish, não havia nada que indicasse que todo o projeto podia ir por água abaixo, qualitativamente falando. Porém, ideias não são tudo. E The Kitchen, infelizmente, parece que resultou melhor no papel de rascunho.

Lê também: Crítica: ‘Ibiza’ não é uma praia, é um deserto de ideias

Apesar das triunfantes interpretações do elenco – especialmente de Melissa McCarthy e de Elisabeth Moss, ambas com personagens bastante envolventes – o cômputo geral é minimamente dececionante. Está longe de ser um terrível filme, até porque a inovação já lhe vale a mínima aclamação, mas a obra fica presa no ‘mais do mesmo’. A ideia de um filme de máfia encabeçado por três mulheres soava a algo diferente, portanto existiam várias perspetivas que podiam ter sido exploradas pela argumentista. Contudo, o produto final é demasiado simples. Preso no dilema ‘o que significa ser uma mulher num mundo de homens?’, o filme avança em várias direções, mas não chega a grandes destinos.

Claire (Elisabeth Moss)

O desenvolvimento das personagens é igualmente descuidado. Uma mulher frágil e sofrida, Claire, torna-se precipitadamente numa assassina com gosto pela matança. Uma mudança radical que não cai muito bem.

The Kitchen perde-se nas suas intrigas interiores e perde uma grande oportunidade. Podíamos estar perante uma obra que bebesse da fonte da genialidade de Martin Scorsese. Que triunfasse pelos enredos complexos, finais inesperados e personagens densas e sedutoras. Podíamos estar perante, ainda, uma realização Tarantinesca – arrojada, destemida e inesquecível – mas estamos perante uma obra cujo o veículo a motor respeitou as regras convencionais e não ultrapassou traços contínuos. E, precisamente por isso, é apenas mais um filme.

Título original: The Kitchen
Realização: Andrea Berloff
Argumento: Ollie Masters
Elenco: Melissa McCarthy, Elisabeth Moss, Tiffany Haddish, Domhnall Gleeson
Género: Ação, Crime, Drama
Duração: 102 minutos

Crítica: 'The Kitchen - Rainhas do Crime' é uma oportunidade perdida
5.5Valor Total
Votação do Leitor 0 Votos
0.0