O amor é provavelmente o tema mais retratado em filmes, séries de televisão ou outros média, mesmo quando não é o seu tema principal. Assim aparece a nova produção de horário nobre da RTP, que gira em torno dos amores e desamores de uma romântica sem sorte para os contos de fadas – e, talvez, para a vida em geral.

Solteira e Boa Rapariga foi criada por Vicente Alves do Ó e tem Lúcia Moniz no papel principal. A cantora e atriz interpreta Carla, uma tradutora de 40 anos que está sozinha há dez, desde que o seu noivo a traiu. Depois disso, nunca casou nem teve um namorado. Vive com os seus dois gatos (Pablo e Mimi) num apartamento em Campo de Ourique, Lisboa, que herdou da avó.

De personalidade alegre e tímida por natureza, Carla nunca teve muita sorte na vida, mas a verdade é que não faz muito por isso: a sua rotina é aborrecida e raramente sai para se divertir, jantar fora ou viajar, exceto para visitar uma psicóloga que pouco ou nada a ajuda. E raramente acredita que algo na sua vida vá mudar, até que tudo muda.

No dia em que faz 40 anos, a mãe (Helena Isabel) oferece-lhe um vale para uma consulta com uma vidente e é aqui que decide que está na hora de voltar aos encontros – desta vez, com a ajuda das redes sociais (já aí vamos) e do seu melhor amigo Jaime (Carlos Oliveira).

Em cada episódio, Carla conhece um novo pretendente. Ao todo, serão 26 episódios de encontros em que conhece uma nova pessoa e percebe se a sorte está, ou não, do seu lado. Entre os nomes que interpretam os pares da solteira e boa rapariga estão os atores Jorge Corrula, Almeno Gonçalves, Graciano Dias, Philippe Leroux, Pedro Giestas, Nuno Pardal, Miguel Damião e Hugo Van Der Ding, bem como o conhecido ator brasileiro Rodrigo Santoro.

Divertida, mas não totalmente brilhante

A comédia da Ukbar Filmes, que estreou no final de julho, não é de todo genial ou algo nunca antes visto. Apesar da obra cinematográfica de Vicente Alves do Ó ser largamente aclamada (com filmes como FlorbelaAl Berto na sua filmografia), a estreia do cineasta no panorama das séries portuguesas em horário nobre é relativamente morna, mas não totalmente ao lado.

Aliás, de certo modo, cumpre o objetivo a que se propõe. É uma série leve e descontraída, com vários momentos divertidos que conseguem arrancar um sorriso e, analisando bem o enredo e o seu mote, é isso que Solteira e Boa Rapariga ambiciona ser e alcança com relativo sucesso.

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Em cada episódio de ‘Solteira e Boa Rapariga’, Carla conhece um novo pretendente. (Fotografia: RTP)

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Desde o primeiro episódio que o tom irrealista e algo aleatório está presente, conferindo à série um tom caricato e menos cliché do que a maioria das produções que revolvem em torno dos temas amorosos; há cenas em que um homem semi-nu fala para Carla através de um televisor, sonhos numa igreja ou a própria vidente.

É, por exemplo, um tom bastante diferente do de Love Actually (ou O Amor Acontece, em português), filme britânico de 2003 em que Lúcia Moniz dá vida à portuguesa Aurélia. Mesmo assim, não ultrapassa limites e consegue que a história tenha um senso de realidade, com alguns elementos saídos da imaginação à mistura, como se tivéssemos acesso aos pensamentos e sonhos mais ou menos lúcidos desta mulher.

A interpretação de Moniz, apesar de não ser intrinsecamente trabalhada para ter um timing comédico impressionante, acaba por funcionar e ser certeira para o formato. Esta é a estreia da atriz no género e consegue apresentar uma personificação desastrada e cabeça-no-ar de Carla, mas sem exagero ao retratar alguém tão peculiar como esta personagem.

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Os cenários vintage da série misturam-se com elementos mais modernos. (Fotografia: RTP)

O ambiente e cenários da série têm uma mescla de referências, nuns pontos a tocar o vintage que agora se considera hipster-chic e elementos mais modernos, como a presença das redes sociais e das aplicações de namoros. Este pode ser um ponto a favor da produção, que se aproxima de espectadores de várias gerações, aproximando-os de diferentes realidades. Acaba por ser uma prova de que existem progressos na forma de fazer televisão em Portugal.

Solteira e… Appaixonada?

No entanto, Solteira e Boa Rapariga peca por um motivo principal. Para quem segue as produções da RTP à risca, certamente terá dado por si a pensar onde já viu algo parecido com esta nova série. E, bem, a resposta é simples: numa outra série da RTP.

No ano passado, estreava através do projeto RTP Lab o original Appaixonados. Essencialmente, esta é uma série sobre Ana, uma mulher solteira que, desesperada, decide inscrever-se numa aplicação de encontros para encontrar a sua cara metade. Em cada episódio, a protagonista conhece um novo pretendente, homem ou mulher.

Apesar de existirem diferenças na execução (esta última tinha um lado interativo através das redes), a ideia base é a mesma – e até existem elementos semelhantes. Talvez o maior problema face a esta questão seja o facto de não ser uma adaptação ou uma série oficialmente baseada no original do RTP Lab, um espaço criativo que pretende desenvolver conteúdos de ficção exclusivamente digitais e com distribuição em várias plataformas realizados por novos criadores.

Solteira, boa rapariga ou appaixonada, as aventuras de Carla passam de segunda a sexta na RTP1, pelas 21h30, e podem ser vistas na íntegra na RTP Play. No total, serão 25 as tentativas de encontrar o amor desta tradutora desastrada, mas com muito amor para dar. E, brilhantemente original ou não, vale a pena espreitar para um serão bem-disposto.

 

Solteira e Boa Rapariga
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