Foto: Ricardo Rodrigues/Teatro Experimental de Cascais

‘O Sonho’: ser louco ou infeliz, eis a questão

Quando August Strindberg escreveu O Sonho, em 1901, estava longe de imaginar que este seria sonhado por muitos mais num modesto auditório no Estoril, em 2019. A experiência de ver a trama do dramaturgo em palco assemelhou-se ao título da mesma: um sonho, do qual não desejamos acordar rapidamente. O Espalha-Factos conta-te como foi a experiência.

No ano em que Carlos Avilez celebra 63 anos de carreira no teatro e é homenageado pelo 36.º Festival Internacional de Almada, o encenador assume que esta peça é o sonho que um dia sonhou. Do início ao fim é nesse universo paralelo que viajamos, sem sair do mesmo lugar. De cenário apoteótico para outro a história desenrola-se, inicialmente, sem fio condutor aparente – deixando o espetador a missão de apanhar as migalhas do caminho. 

O cenário apresenta-se como uma tela branca pronta a ser preenchida, com algumas plataformas desniveladas e um par de escadas que parece não levar a lado nenhum nem ter início em parte alguma. Se por momentos ficamos confusos ou curiosos, relembramo- nos: é um sonho, nada tem que fazer sentido. O espelho ao fundo, apesar da sua localização recuada parece querer quebrar a quarta parede que separa o palco da plateia. De imediato sentimos que fazemos parte de um sonho que irá ser sonhado em conjunto, mesmo que ainda não o saibamos. 

Uma tela pronta a ser pintada

Agnes é filha do deus Indra e decide um dia que gostaria de ir até à Terra ver como vivem os humanos. O pai (interpretado por Ruy de Carvalho) avisa-a de que esta deve ter cuidado na sua viagem, mas incentiva-a a ir descobrir por si do que são feitos os humanos – e esta segue caminho. É na descida à Terra que Agnes se vai cruzar com inúmeros tipos de seres humanos, cada um representando diferentes lados da existência humana. É na Terra que vai viver o amor, a agonia da rotina, a pobreza ou até a crueldade de outros até sentir que “são dignos de lástima”.

A tela branca começa então a ser tingida de cores, muitas cores e formas variadas que aumentam constantemente à medida que a trama se intensifica. Apesar de longos, os momentos entre cenas assemelham-se a quadros pintados cuidadosamente para que todas as peças se encaixem. Neste Sonho, nada tem que fazer sentido mas nada é deixado ao acaso. 

Diz a História que Strindberg escreveu O Sonho após o seu divórcio, descrevendo este seu drama como “a minha peça mais querida, filha da minha melhor dor”. Strinberg era um forte crente de muitas filosofias orientais que dizem que o mundo é apenas uma ilusão. Era também um ávido sonhador e esta obra é ainda considerada uma das mais relevantes na escola do expressionismo dramático e do surrealismo teatral. Cada quadro que Carlos Avilez nos apresenta traz a palco este surrealismo quase louco e nonsense que obriga o espetador a pensar para além de sonhar. 

Só sei que nada sei

O Sonho é uma peça que põe em causa todas as pequenas dúvidas da existência humana e nos faz repensar pormenores que nem sabemos que vivemos no nosso dia-a-dia mundano. Desde o amor, que nasce fogoso e depois esmorece, à angústia do sofrimento, até ao sufoco do conformismo – tudo caraterísticas inseparáveis da vida entre seres humanos, mas sobre as quais se calhar nunca nos debruçamos. Até o conhecimento científico é posto em causa. Tudo o que o Homem julga estar certo e inquebrável em meia dúzia de palavras é colocado em dúvida, numa clara crítica ao conhecimento instaurado e controlador. 

Um Louco poeta e um Oficial apaixonado colocam a questão: ser louco ou infeliz? Porque para sonhar, ser-se feliz e “sentir tudo de todas as maneiras” talvez seja necessário ser louco, amarrado a um colete de forças que nos oprime ou agarrado à ideia de que por detrás de qualquer porta estará sempre algo melhor, por descobrir.

Carlos Avilez consegue juntar aquilo que parece ser uma multidão num palco e fazer com que este sonho não nos sufoque, muito pelo contrário. Cada passo não é dado em falso, cada cruz não é carregada em vão, cada pormenor é essencial para que o sonho faça sentido (ou não, porque assim não tem que o ser). Assistir a O Sonho é, de facto, sonhar acordado – tudo aquilo que uma ida ao teatro deveria ser.

Um elenco de força

O coletivo deste espetáculo conta com atores profissionais do TEC, de uma companhia com quase 54 anos de existência, e ainda com a interpretação do pretigiado ator Ruy de Carvalho. Luiz Rizo, Renato Pino, Sérgio Silva, Teresa Côrte-Real e Miguel Amorim (que se destaca com uma interpretação brilhante de um Oficial apaixonado) são outros dos nomes do elenco profissional. Este junta-se assim a 39 alunos não-finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais (EPTC), cujo objetivo passa por integrar a formação com a produção teatral que o Teatro Experimental de Cascais (TEC) prossegue há 15 anos. Entre eles estão Mariana Castro, Catarina Chora, Beatriz Beja, João Fialho, Sofia Ramos, Francisco Lopes, e todos juntos e em uníssono trazem a palco um conjunto de talentos, quer mais maduros quer mais jovens, num sonho que se quer vasto. A dramaturgia ficou a cargo de Graça P. Corrêa e a coreografia é de Natasha Tchitcherova.

O encenador, Carlos Avilez, estreou-se em 1956. Em 1965 fundou o TEC e a EPTC, que dirige.

Ainda podes ver

O Sonho esteve em cena, até dia 18, integrado no 36.º Festival de Almada, mas ainda pode ser visto até dia 31 de julho. As sessões acontecem de terça-feira a sábado, a partir das 21h00, e domingos às 16h00. Na próxima segunda-feira (29) há também, excecionalmente, espetáculo às 21h00.

Foto: divulgação

Os lugares no Teatro Mirita Casimiro, no Monte Estoril, precisam de ser previamente reservados através dos seguintes contactos: [email protected] | 214 670 320. Para outras informações podes consultar o evento disponível no Facebook.

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