Domino, que estreia a 25 de julho nos cinemas nacionais, nos Estados Unidos teve um arranque discreto e diretamente para o streaming, e na verdade… não é para menos. Desenha-se no ecrã com a patine de um clássico, mas é absolutamente vácuo de substância.

A tensão impressa em várias das cenas, que coloca o espectador num papel de total vulnerabilidade e impotência perante uma ação em que é sempre claro o drama e o terror que se seguirão, é um acertos iniciais do filme, mas também um dos raros momentos de competência. A banda sonora, um pastiche hitchcockiano da autoria de Pino Donaggio, parece aqui fazer sentido e suportar a ação. Mas, durante quase todo o filme, vai elevar-se demasiado e tornar ainda mais caricatas estas cenas de thriller que não empolga.

Fotografia: NOS Audiovisuais / Divulgação

É isso: a tensão promete, mas o clímax nunca chega. A concretização é frouxa, as personagens não as chegamos a conhecer, os plots cruzam-se mal e a história surge desconexa e inconsequente. E se a falta de orçamento pode ser responsável por uma parte grande da falta de brilho desta produção, provavelmente Domino não foi mais longe por falta de ideias.

Nikolaj Coster-Waldau (o Jaime Lannister de Game of Thrones) é Christian, um detetive dinamarquês cujo parceiro é morto por um alegado terrorista (Eriq Ebouaney) e que procura vingança. No entanto, esse alegado terrorista é na verdade um homem que procura vingança depois de ter tido o pai morto pelo ISIS. E, pelo meio, intromete-se a CIA, que quer usar a pulsão por vingança deste último criminoso para perseguir, capturar e torturar terroristas sem ter de lidar com esse incómodo maçador que é o respeito pela lei.

No entanto, se olhando à primeira vista, podemos encontrar sinais de que as duas histórias de vingança e o oportunismo da CIA poderiam entrelaçar-se de forma complexa, interessante e emotiva para o espectador, os argumentistas e o realizador deixam a oportunidade escapar.

Fotografia: NOS Audiovisuais / Divulgação

No elenco, os desempenhos são fracos. Nikolaj, que surgiu em Game of Thrones melhor a cada temporada, é pouco convincente como herói de ação e ainda menos no papel de amigo em sofrimento. A sua sidekick, também vinda do elenco da série da HBO, é Carice Van Houten, que representa Alex. A atriz apresenta uma performance errática, de uma personagem sem chama e cuja credibilidade é também prejudicada pela fraca coreografia das cenas de ação. A química dos dois enquanto dupla é equivalente à de água e azeite.

Joe (Guy Pearce), o agente da CIA, é um cliché andante. É enganador, matreiro, personificação do mau-caráter, rosto implacável do imperialismo. E contracena com o alegado terrorista, Ezra, cuja atuação é unicamente física, e sem relevo emocional. Como se, além da vingança e da força bruta, não tivesse nada dentro. Um desperdício, tendo em conta que a personagem em busca de justiça poderia ser fácil de empatizar. Culpa integral para os fracos diálogos e da forma pobre como a personagem é caraterizada. Os vilões, terroristas do ISIS, são caricaturais em tudo: nos diálogos, nas atitudes, nos sotaques. Iguais a tudo o que já vimos: ou são operacionais que sofreram uma lavagem cerebral ou são génios do mal que deturpam a mensagem do Corão para espalhar a morte pelo mundo. Sem camadas, sem profundidade.

Domino

Fotografia: NOS Audiovisuais / Divulgação

Brian De Palma, o mesmo que nos trouxe Missão: Impossível ou Scarface, não transportou com ele até à segunda década dos anos 2000 a mestria que demonstrou antes. Domino surge-nos sempre dessintonizado. Uma história sem moral e sem stamina, um drama policialesco que tem o ritmo de uma sessão de psicoterapia. Um filme de ação realizado sob o efeito de calmantes.

 

 

Domino: A crise de meia-idade pariu um filme de ação
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