O dia mais calmo desta edição do NOS Alive teve como cabeça de cartaz os Vampire Weekend. O calor e o sol também eles eram mais tímidos durante o dia de sexta-feira, apesar de muitos ali estarem para o regresso de Ezra Koenig e companhia. Talvez o dia mais eclético, teve hip-hop com fartura no Clubbing e um alinhamento improvável no Sagres.

Fim de tarde tímido e um Johnny Marr a segurar o público

O Palco NOS esteve despido até à hora dos nova-iorquinos do indie-rock alternativo, sendo que o fim de tarde se viu mais animado pelas bandas do Palco NOS Clubbing com Trace Nova. O rapper norte-americano não poupou a entrada em palco com o seu guitarrista a fazer rockeiros roerem-se de inveja. Apresentou o disco novo e mais tarde trouxe o amigo de longa data Mishlawi para o acompanhar em dois temas. Também RY X se estreou no nosso país com o seu folk rock e uma voz que extravasava o Palco Sagres.

Os Primal Scream faziam as delícias dos fãs, no Palco NOS, enquanto que, no Palco Sagres, Johnny Marr dava um dos melhores concertos do dia. O ex-The Smiths veio apresentar Call The Comet, o seu mais recente disco. A carreira a solo do guitarrista britânico disparou astronomicamente nos últimos anos, no entanto alguns clássicos dos The Smiths como How Soon Is Now? levaram a tenda ao ponto de ebulição.

Os Greta Van Fleet eram os próximos a tentar impressionar no palco principal com a sua estreia em Portugal. Bandas a tentar aproximar o seu estilo ao dos anos 70 com roupas excêntricas e penteados extravagantes já não se fazem hoje em dia, contudo eles souberam dominar um público e impressionar pela presença em palco com a tenra idade. A alternativa, àquela hora, era a multi-instrumentalista nata, Tash Sultana. Não precisou de muito para preencher plenamente um palco que parecia grande para ela – pelo contrário, ela foi grande para o palco.

A noite foi da rainha Grace Jones

Finalmente chegou a hora de Vampire Weekend e a massa de jovens adultos concentrada no palco principal dizia tudo. Crescemos com as guitarras sonantes e simpáticas, com a voz dócil de Ezra e especialmente com a obra de arte que é o disco homónimo. Contudo, Father Of The Bride teve um parto difícil e chegou apenas seis anos depois do último concerto deles em Portugal. Foi um concerto sólido, gratificante e onde a energia do público compensou a falta de consistência da setlist. Os êxitos Oxford Comma, A-Punk ou Cousins fizeram parte e aqueceram a alma de todos, mas faltou ali a especiaria e a pitada de sal.

À meia-noite em ponto, Lisboa não estava pronta para testemunhar aquele que seria o concerto mais marcante (e certamente intrigante) dos que espreitavam o palco secundário. A atração tinha como nome Grace Jones e aos 71 anos (que duvidamos que os tenha) ia oferecer mais de 1h de puro prazer, excentricidade e perplexidade. Não há formas de expressão humana possíveis ou imaginárias que façam jus ao que Jones representa. É o mito, a lenda e a estrutura facial que conhecemos de fotos apenas, não realmente carne e osso dançante e com pulso para segurar um espectáculo daquela imponência.

Trocou de roupa vezes sem conta e sempre que regressava ao palco todos ansiávamos ver a indumentária sempre mais arrojada que ela apresentava. Máscaras pomposas, pinturas corporais e atitudes exibicionistas tornavam toda a experiência cada vez menos terrestre e mais surreal. Todos se aproximavam mais e mais da tenda até uma multidão se formar nos seus arredores, pois era difícil resistir à intriga que era o concerto. Crinas na cabeça de Grace Jones, um strap-on e um dançarino pintado da cabeça aos pés que rodopiava sem fim num varão. Há várias tentativas de descrição do momento prolongado que houve em Algés, mas apenas os olhos de quem vivenciou podem contar tudo o que Grace Jones é. Irreverente, desconcertante, um princípio e fim ao mesmo tempo.

A noite termina com o aguardado regresso de Gossip, que vieram celebrar os 10 anos do disco Music For Men. Beth Ditto sempre irreverente e um concerto que parecia uma TED Talk, com muitas paragens para discursos e menos música. Já os mais audazes esperaram por Saint Jhn e pelas condições reunidas para que o concerto começasse. Depois de um começo problemático, o rapper foi para o meio do público e aí abriu uma roda onde cantou a primeira música com os sobreviventes do dia. Agitado, enérgico e a dar tudo até à última gota de suor.

Fotografias de Tomás Almeida.