O calendário marca julho de 2019. Regressamos ao Alentejo, em particular a Évora, para descobrir, pelas palavras de Luís Garcia, a terceira edição do Festival Artes à Rua. Évora, que a cada verão tem feito dos lugares esquecidos o palco vivo da música, dos encontros e das artes performativas. O próprio Património deixa de ser apenas paisagem e transforma-se no espaço cénico que, de julho a setembro, acolhe o teatro, a dança, a música, o cinema, a fotografia, a escultura. A calma e o silêncio estão prestes a cessar, para dar lugar ao Festival, já a partir de 13 de julho.

Artes à Rua: um festival com um ADN muito próprio

Acontece este ano a 3.ª edição de um festival que não é de fácil definição, dada a sua amplitude temporal, mas também o largo espetro de artes e géneros que abarca. Apresenta-se ao público como um “festival de todas as artes”, dura cerca de um mês e meio, e reúne quase cem espetáculos, com mais de 300 participantes, com mais de 12 origens diferentes. Qual o seu fator único? “Há uma parte que resulta de um desafio a criadores e nós respeitamos tudo o que vem. Esse é o elemento distintivo, ter uma parte substancial da programação que é feita por criadores locais e resulta de um desafio à criação”, conta Luís Garcia, assessor cultural da Câmara Municipal de Évora, em entrevista ao Espalha-Factos. E acrescenta, “isso também alarga muito o espetro de artes presentes no festival”.

Programação: uma mão cheia de ciclos e novas criações

O concerto que marca a abertura desta edição do festival, Omiri, pertence ao ciclo Novas Criações e resulta de um desafio à construção de uma paisagem sonora do Alentejo. Vasco Ribeiro Casais, autor do projeto, dedicou-se nos últimos meses a recolher um registo sonoro, com um cunho principalmente eborense, e que será apresentado não só por si, mas também pelos encontros que resultaram desse desafio. Algumas intervenções serão feitas in loco, como é o caso dos Cantares de Évora, enquanto que para outras será usado um formato audiovisual. O espetáculo acontece já este sábado, 13 de julho, pelas 22h, na Praça do Sertório e integra também a programação do festival Womex, na Finlândia.

Ainda dentro das Novas Criações estão projetos como Mulheres de Palavra, que reúne as vozes de Uxia, Mynda Guevara, Mara, Emmy Curl e Vozes do Imaginário naquele que será também um concerto de homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen, invocando alguns dos seus poemas, no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento. Vão marcar presença na Praça do Giraldo, pelas 22h, no próximo dia 19 de julho. Ou ainda Geraldo e Samira, uma ópera que conta a história de amor entre os dois, e que, à semelhança da edição anterior, dá à população local a oportunidade de participar no espetáculo.

Outro ciclo de destaque é O Bairro, um ciclo de hip-hop que este ano traz nomes como Dealema, Papillon, Chullage e Allen Halloween e projetos locais como Dj É-Me e Faz-me um Beat Big Band.

Allen Halloween

Inspirado no tema Foi por Ela, de Fausto, surge o ciclo É por Elas que recebe artistas como Sharon Shannon, Madeleine Peyroux, Ana Alcaide ou Martirio e Chano Dominguez.

Não fosse este um festival também com uma forte componente internacional, apresenta um ciclo de músicas do mundo, Confluências, que se desdobra no Confluências I e Confluências II. Podemos, por isso, vê-lo como construtor da própria identidade do Artes à Rua, afirmando Luís Garcia que “este festival não é um lugar de consumos culturais só, é um lugar de promoção de conhecimento e o conhecimento de outras culturas dos povos do mundo”. Recebe, assim, nomes como Moonlight Benjamin, do Haiti, o compositor cigano de música flamenca Dorantes, Fanfarre Ciocarlia, da Roménia, Funk Off, projeto italiano, o brasileiro Chico César ou até Barmer Boys, da Índia. Inclui ainda um desafio à criação local, no qual o músico de jazz Carlos Martins e a sua formação habitual vão abordar, com os Cantares de Évora, o cante alentejano, através de novos temas de José Luís Peixoto.

Cantares de Évora

É o poema de Luís Pastor que dá nome a um outro ciclo, Qué fué de los cantautores,e que traz com ele a voz de Manel Cruz ao palco principal, na Praça do Giraldo, a 7 de agosto, pelas 22h. Mas também o projeto de homenagem a Zeca Afonso, Em cada esquina um amigo, que reúne Allen Halloween, B Fachada, Benjamim, Éme, Filipe Sambado, Jorge Barata e Primeira Dama num concerto que, além das canções de Zeca, pretende dar a conhecer os novos temas dos cantautores de hoje. Em comum, têm a ideia de que “a partir da canção, quer da música quer da poesia, se contribui também para despertar a consciência das pessoas para os problemas do mundo de hoje”.

Página oficial da Produções Incêncio no Facebook

Além do teatro, das sessões de cinema ao ar livre e dos workshops no domínio das artes plásticas e da escultura, este ano há também uma maior aposta na programação para os mais novos. O espetáculo Canções de Roda recebe, a 14 de julho, pelas 22h na Praça do Giraldo, Ana Bacalhau, Jorge Benvinda, Sérgio Godinho e Vitorino. que revisitam e reiventam o universo da música popular infantil. Mas também o Há Passarulhos no Parque, pela PimTai Associação Cultural, O Pequeno Grande Polegar, pelo Teatro Acert ou o Circo de Bola.

Vitorino, Jorge Benvinda, Ana Bacalhau e Sérgio Godinho em Canções de Roda

Podes encontrar a programação completa aqui.

Apesar do evento apelar à descoberta dos lugares que habita (e simultaneamente o habitam), é possível traçar o roteiro desse encontro entre Património e Arte. Assim, os principais palcos estarão na Praça do Giraldo (palco principal), na Praça do Sertório, no Largo de Álvaro Velho, em frente à Sé, no Largo do Chão das Covas, no Parque Infantil do Jardim Público e até no Alto de S. Bento.

Em Setembro, o festival discute-se a si próprio

Está marcada para 3 de setembro uma discussão pública do festival, pelas 18h, na Igreja de São Vicente. Serão convidados todos os criadores, público e população em geral que queira discutir o Artes à Rua, os palcos, os lugares, a programação. Esta iniciativa tem não só como objetivo a integração de todos no evento, mas também uma maior aproximação e envolvimento da população nele, tendo já em vista a candidatura a Capital Europeia da Cultura em 2027, da qual o festival é uma peça estratégica.

Uma relação simbiótica entre Arte e Património

Todos os lugares são pensados em função do objeto artístico que os vai ocupar, não fosse um dos grandes propósitos do festival mediar, através da Arte, a relação entre as pessoas e o Património. Por isso, “é importante que algumas coisas aconteçam em sítios pouco usados e vividos pelas pessoas. Um festival deve contribuir para devolver a cidade às pessoas e por isso há sitios onde as pessoas não param, não se encontram, e que a partir de um objeto artístico, passam a encontrar e essa é a função do festival. Vai haver muitas pequenas coisas em sítios imprevisíveis”, diz-nos Luís Garcia. E arremata, “a cidade no final do Festival não será seguramente a mesma”.

Acompanha todo o evento cultural através do Facebook e do Instagram.

LÊ TAMBÉM: 36.º FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA: ESTES SÃO OS ESPETÁCULOS QUE NÃO DEVES PERDER