A terceira temporada de Stranger Things chegou à Netflix repleta de novos mistérios, novas personagens e, principalmente, novos dramas para resolver sobre o Upside World. No entanto, no cômputo geral, a nova temporada da série não apresenta nada de novo.

Quando apareceu, em pleno verão de 2016, a série que rapidamente se tornou um dos maiores fenómenos da plataforma de streaming, trazia consigo o sentimento de nostalgia dos anos 80, mas apoiava-se na sua frescura e peculiaridade que caracterizaram os oito episódios que constituíram o primeiro ano da produção. Contudo, a nova temporada sabe a mais do mesmo. Apesar de se manter fiel a si mesma, Stranger Things é, neste momento, só mais uma série. E, se a Netflix se aventurar como se aventurou com Orange is the New Black, então é só mais uma série que arrisca prolongar-se por mais temporadas do que aquelas que precisa.

Os novos episódios de Stranger Things mantêm a essência que já todos conhecemos da série. Desde o humor, os problemas da adolescência, aos mistérios clássicos dos filmes que caracterizaram as décadas de setenta e oitenta… porém, há uma certa sensação de “Eu já vi isto antes” enquanto partimos na aventura da descoberta do novo mistério da temporada.

A grande maioria das séries de televisão – sejam provenientes de uma plataforma de streaming ou de um canal de televisão clássico – assentam numa fórmula que se repete ao longo das temporadas e, em alguns casos, ao longo dos vários episódios. Grey’s Anatomy é o tipo de série cuja fórmula é repetida todos os episódios. How To Get Away with Murder é, por outro lado, o tipo de série cuja fórmula se vai repetindo ao longo das temporadas, afinal o grupo principal acaba sempre por se deparar com um assassinato. Stranger Things, infelizmente, parece estar a cair para dentro do grupo do qual a série protagonizada por Viola Davis também faz parte. E qual é o problema disso? É simples: é repetitivo.

Não, a nova fase da história de Eleven não é má. Antes pelo contrário, supera a temporada anterior em grande escala, mas já não apaixona como apaixonava. Stranger Things constrói-se em cima da nostalgia (as músicas, os videojogos, a moda dos anos 80; etc) e esquece-se de construir a sua própria identidade, preferindo o caminho Pouco Original.

Ainda assim, a história criada por Matt e Ross Duffer continua a ser deliciosa de acompanhar. E a terceira temporada, apesar de repetitiva, não foi exceção.

Os pontos positivos:

1. Billy Hargrove

Apesar de já ser uma personagem com destaque na temporada anterior, Billy Hargrove (Dacre Montgomery) foi um dos pontos fulcrais dos novos episódios. Ao dar corpo ao vilão da história, Billy torna-se uma das personagens mais assustadoras de toda a série. Sim, porque se há coisa em que Stranger Things é boa, é a manter os momentos-chave sobre como manter o hype sobre determinados assuntos, neste caso, os vilões.

Montgomery aparenta ter conquistado o coração dos fãs pela internet fora, embora a personagem – em termos qualitativos – não seja nada do outro mundo. As possessões não são propriamente novidade dentro do mundo das séries. Ainda assim, foi sem dúvida um dos pontos mais altos desta terceira temporada.

2. As novas personagens

Algumas não são novas mas colocaram-se sob o holofote pela primeira vez, dando vários bons momentos à história. Erica (Praiah Ferguson) – irmã de Lucas (Caleb McLaughlin) – foi uma das surpresas. Apesar de já ter marcado presença em temporadas passadas, Erica foi a protagonista dos momentos mais engraçados e caricatos neste terceiro ano. Ficou a cargo dos momentos mais leves e surpreendeu e muito pela positiva.

Erica (Praiah Ferguson)

Para além de Erica, Robin (Maya Hawke) foi também uma das surpresas da temporada. Apesar dos embates iniciais com Steve (Joe Keery), Robin rapidamente se tornou numa das personagens que mais gosto deu ver no ecrã.

3. Jopper (Hopper e Joyce)

Stranger ThingsA química é inegável. São as personagens mais cativantes no universo de Stranger Things e é impossível não ficar a torcer por uma hipotética relação entre as personagens. Winona Ryder apresenta, como sempre, uma atuação brilhante. Stranger Things foi o ponto de viragem na sua carreira e a atriz está mais ativa do que nunca, num papel que claramente lhe enche as medidas. É difícil imaginar qualquer outra atriz no papel de Joyce. E é igualmente difícil imaginar o papel devidamente bem interpretado por outra atriz.

David Harbour (Jim Hopper, na série) entrega também uma boa atuação, embora seja fácil ser “engolido” pelo talento de Ryder. Ainda assim, Hopper é das personagens mais acarinhadas pelos fãs da série e… O fim da temporada deixa demasiado em aberto sobre o seu futuro. O que terá acontecido com Hopper?

Os pontos negativos:

1. Os dramas adolescentes

Sim, os adolescentes são uma parte fundamental da série. Talvez o núcleo principal, até. Porém, embora seja delicioso acompanhar as personagens a crescer (e os atores, por simbiose), não é assim tão agradável viver os dramas adolescentes que tornam a produção demasiado teen (algo que poderia ser produzido pela The CW, por outras palavras).

São plots necessários para o desenvolvimento das personagens – sem dúvida – mas nesta temporada específica, houve um claro exagero da temática. Espera-se uma série mais madura.

2. Os mesmos monstros

A repetição da temática é o maior problema. A aparição das mesmas criaturas monstruosas foi o destaque negativo. Fica-se com a sensação de que todo o enredo se cria à volta da mesma raiz, o que automaticamente se torna frustrante para quem pretende ser surpreendido.

Há estagnação em relação às criaturas que assombram Hawkins, pois os escritores parecem não saber como trabalhar o universo que criaram. Apesar de a temporada ter começado muito boa de se assistir, a verdade é que se chega ao fim com a sensação de desconhecimento em relação ao universo que se acompanha. Passadas três temporadas, ainda não há nenhuma informação sobre o Upside World e os motivos da sua existência, assim como não há motivos para o Mind Flayer querer dominar o mundo.

O enredo podia tornar-se mais forte se as criaturas fossem para além do estranho ou assustador. É pouco racional que algo tão perturbador tenha tão pouco impacto na história e que as personagens quase nunca saiam sacrificadas. Os vilões precisam de justificações, de motivos. Após três temporadas não chega dizer “Lá vamos nós visitar o Upside World” novamente. Simplesmente já não é aceitável.

Em suma, a nova temporada de Stranger Things é melhor que o ano anterior da série, mas é mais cansativo. A história repete-se e não há inovação para além das novas personagens. Vale a pena continuar a acompanhar, isso é certo, mas há que acender e uma velinha e rezar que a quarta temporada seja a última. A fórmula ainda funciona, mas a data de validade está mais visível que nunca.

Stranger Things: o regresso da fórmula que ainda resulta
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