O Passeio Marítimo de Algés voltou a ganhar vida (e um tapete de relva artificial) para receber o NOS Alive. A 13.ª edição do mítico festival não trouxe muitas novidades, mas teve a hegemonia britânica no cartaz do primeiro dia. “Música para todos os ouvidos” foi o lema do dia e a jornada fez-se de regressos inesperados, fan favorites e nostalgia (não é, Ornatos?).

Regressos calorosos e nostalgia num dia solarengo

Debaixo do sol ardente, os palcos do festival começavam a estar repletos das suas personagens de sempre. O Palco Sagres teve o melhor desempenho, o Clubbing deu que falar com aqueles prestes a rebentar na música e o NOS foi o mesmo de sempre.

Os HONNE lançaram o groove aos corajosos da tarde e o R&B foi o ponto de partida do dia que se adivinhava longo. Para os que vinham direitinhos ao Palco NOS (sem vontade de sair dali), os repetentes Linda Martini preencheram a tarde dos amantes do rock. Sharon Van Etten fez vibrar com o novo disco Remind Me Tomorrow com as melodias mais obscuras e onde o folk se perde para um rock mais clássico.

Samm Henshaw foi uma das surpresas do dia. Um rapaz britânico discreto sobe ao palco com a sua banda de apoio e rapidamente nos lembramos de Pharrell Williams. Os fins de tarde deviam ser todos assim em comunhão com o soul e com o sol.

Os idos anos 90 rapidamente se fizeram sentir com Weezer e a discografia para quem está num fim de tarde em 2004 na Califórnia. O pior de tudo é que o som voltou a ser o vilão do festival e nem uma versão de Africa, dos Toto, salvou. Contudo, Ornatos Violeta foi a força maior de muita gente que encheu o recinto. A comemoração do 20.º aniversário de O Monstro Precisa de Amigos começou no NOS Alive e as emoções estavam à flor da pele. Manel Cruz resistiu poucos minutos sem a camisola e a euforia do público notou-se com as memórias a navegar a mente de todos os que estavam presentes. Chaga, Ouvi Dizer, Dia Mau Capitão Romance fizeram as delícias dos que viveram a sua vida com os Ornatos no coração e nos ouvidos.

Jorja Smith e Loyle Carner: a realeza britânica afinal está viva

Jorja Smith chegou brilhante, numa entrada impetuosa, para abençoar a noite. O Palco Sagres nunca tinha visto tanta efusividade, sendo que o calor humano preenchia os pequenos espaços que nele restavam. Lost & Found foi o motivo da vinda da artista e o tema homónimo foi o ponto de partida daquele que seria o melhor concerto da noite. Teenage Fantasy agitou as águas, mas o som terrível do palco não nos permitia perceber sequer o que era cantado. Where Did I Go? foi um dos pontos altos até chegarmos, claro, a Blue Lights e aí percebemos que Jorja transcendeu o tamanho daquela tenda. Se a realeza britânica ainda existe, então está viva em Jorja Smith.

A figura franzina de Loyle Carner impressiona-nos pelo seu à vontade com o palco a enfrentar um público totalmente desconhecido. Not Waving, But Drowning é o mais recente disco que ele apresentou em Portugal. Ice Water inicia o motor, Damselfly atinge a velocidade máxima e nunca chegamos a travar durante todo o concerto. Entretanto, um fã ao fundo da tenda e envergando uma t-shirt de Eric Cantona é levado às costas dum amigo até ao palco, com Carner sempre entusiasmado e pedindo que ele suba. A velocidade cruzeiro de Loyle Carner é, por fim, atingida quando ele pergunta se pode chamar uma amiga… e assim surge Jorja Smith ao seu lado. Loose Ends, a música que têm juntos, mantém-os abraçados e a cantar como se o tempo tivesse parado. E assim temos mais uma noite feita.

Os The Cure apresentam-se como reis e senhores dum festival onde sempre foram felizes. Mais de 2h de concerto não chegam para o público português se satisfazer com a banda lendária que torna a impressionar, sempre com um repertório já conhecido. Não há discos novos para apresentar então entram os clássicos que são entoados e ouvidos a quilómetros do recinto. Friday I’m In Love, Boys Don’t Cry e Just Like Heaven fizeram até os mais desinteressados correrem para perto do palco e presenciarem uma das últimas grandes bandas de post-punk. E assim os The Cure voltam a ter uma presença arrebatadora em Lisboa.

A noite termina com Stereossauro, no Clubbing, e Robyn, no Sagres. As decisões estavam difíceis neste fim de noite e ambos convenceram, mas a estreia absoluta da sueca roubou o nosso coração (e os pés do chão). Calor, suor, eurodance e energia que sobrou do dia foram suficientes para que Robyn nos desse as certezas de que o seu legado está vivo e bem.

Fotografias de Tomás Almeida.