A 16ª edição do EDP Cool Jazz arrancou com alguns precalços mas The Roots foram reis e senhores da noite e propocionaram um concerto memorável.

Ao final da tarde, já dentro do Parque Marechal Carmona, o ambiente era sereno, mas, ao mesmo tempo, sentia-se o entusiasmo das pessoas ao entrar no espaço. Com as temperaturas de verão a fazerem-se sentir durante o dia, o vasto jardim, agora transformado em recinto de um festival de música, acolhia milhares de espectadores que aproveitavam para petiscar ou refrescar-se.

Entre dezenas de stands de comida, os Palheta Jazz Trio serviam “sobremesas musicais” para os ouvidos das pessoas. A subtileza da música exemplifica, em pleno, o sentimento “cool” que o festival transparece

HMB sem (literalmente) energia

Já no relvado do Hipódromo Manuel Possolo, os HMB estavam encarregues de fazer a primeira parte antes dos norte-americanos The Roots. Depois de terem sido apresentados por Sofia Morais, locutora da rádio Smooth FM, a banda portuguesa sobe ao palco, quando instantes depois, o som vai abaixo, apanhando a plateia desprevenida.

O mesmo acontece por mais duas vezes, sendo que na última, o coletivo tenta tocar o êxito ‘Feeling’, numa tentativa de ter o apoio do público, mas nem à terceira foi de vez. A atuação da banda acaba por ser cancelada. A organização emitiu um comunicado a pedir desculpas pelo sucedido, alegando problemas técnicos do sistema de som do festival. Pouco tempo depois, os HMB também reagiram ao sucedido nas redes sociais.

The Roots ao salvamento!

Depois de uma chuva de apupos, a mudança para o material dos The Roots era encarado com algum cepticismo pelo público. Só havia um pensamento no ar: será que os problemas técnicos iriam persistir durante o concerto da banda norte-americana.

Jeremy Ellis foi o primeiro a subir a palco. Usou a sua perícia em invocar samples para preparar os espetadores do concerto que estavam prestes a presenciar. Os restantes dez músicos juntam-se a palco, formando assim a locomotiva que se dá pelo nome de The Roots. Originários de Filadéfia, a banda norte-americana aterra em solo nacional pela terceira vez. A última aconteceu há sete anos no festival Sudoeste.

Com mais de 30 anos de carreira, os The Roots foram formados pelo rapper Black Thought e pelo icónico baterista Questlove. Depois de terem ganho notoriedade dentro o espectro do hip-hop norte-americano, o grupo alcançou, em 2009, um novo patamar ao tornar-se a banda residente do talk-show do comediante Jimmy Fallon.

A viagem neste comboio da “velha escola” do hip-hop começou com incursões ao virtuosismo dos músicos em palco. Ouve-se solos de baixo de Mark Kelly e do saxofone de Ian Hendrickson-Smith, dois dos instrumentos que são a base das raízes musicais que o grupo toca: o R’n’B e o jazz.

“Recordar é viver”

Com um som cristalino, The Roots passam por revista alguns dos temas do seu repertório. Mas mais de uma simples atuação, o coletivo apresenta uma celebração da herança musical do seu país. A dada altura, Black Thought atira ao público que para olhar para o presente e para o futuro, é indispensável não descartar o passado.

Dito isto, segue-se um “desfile” de temas de hip-hop da velha guarda. Excertos de canções dos A Tribe Called Quest, Outkast, Gang Starr e 50 Cent são alguns exemplos, que fazem deliciar os fãs mais antigos deste género musical.

É de notar que durante todo o concerto, há apenas uma paragem notório da banda. De resto há sempre, pelo menos, um elemento que toca o seu instrumento, fazendo com os The Roots estejam constantemente a satisfazer os espetadores no recinto. É de louvar o compromisso e a musicalidade a que as pessoas estão a assistir.

Há outro momento de genialidade, quando o guitarrista “Capitão” Kirk Douglas começa a solar, enquanto faz scat singin’. O músico circula, de forma endiabrada em palco, faz poses que emanam uma vertente rock n’ roll.

A secção de metais, composta por um saxofone, um trompete e uma tuba, entra em “confronto directo” com a secção de sintetizadores e samplers.

“Soul Power” e “Power to the People” são as palavras de ordem que Black Thought vai gritando nesta reta final do concerto. ‘The Seed (2.0)’, um dos maiores êxitos da banda é recebido a braços abertos. Mas são as versões de ‘Move on Up’ e ‘Apache (Jump on It)’ que encerram o concerto.

Duas horas depois, a banda despede-se do público ao distribuir cumprimentos nas primeiras filas, autógrafos e também palhetas. A locomotiva chamada The Roots dá assim por teminada a viagem ao hip-hop que levou o público português. Uma viagem em classe executiva, que só teve turbulência em HMB.

FOTOGRAFIAS DE CAROLINA GALVÃO