A mais recente adaptação do romance de Nicola Yoon, O Sol Também É Uma Estrela, chegou aos cinemas a 4 de julho. E se algo se perde sempre que um livro é adaptado ao grande ecrã, algumas das diferenças são, no entanto, substanciais – e podem alterar as personagens ou a história que conhecemos. Aqui ficam as maiores diferenças entre o filme que estreia agora nos cinemas portugueses e o livro, lançado em 2016 (e atenção que este artigo contém spoilers!).

Imagem: Divulgação – NOS Audiovisuais

Sem outras perspectivas

Um dos aspetos mais interessantes de O Sol Também É Uma Estrela é o intercalar da história principal passada em 24 horas, com outras perspetivas, que põe o tema principal – o destino – em evidência. No filme não contamos com a história da segurança, nem do advogado, nem chegamos a ter uma visão mais aprofundada sobre Charlie, o rude e idiota irmão de Daniel. E estas histórias, apesar de tangentes da história, eram ingredientes que tornavam a história diferente, e a levavam para lá de um simples romance.

A história e a relação com o pai

Talvez para descomplicar, talvez devido ao clima político nos Estados Unidos, a verdade é que a história do pai de Natasha é bem mais complexa no livro que no filme – aliás, levamos mais de metade do livro a perceber as motivações do pai quando finalmente temos direito a um capítulo flashback na voz do próprio.

No livro, ele é um ator frustrado, tornado amargo pelo facto de ser realmente bom – como Natasha nos conta num dos seus capítulos. É a sua amargura, e a sua felicidade após se apresentar após vários anos no palco, que o leva a ser apanhado ao volante embriagado, razão pela qual é deportado. Mas esta história foi escrita noutro tempo, menos complicado: o filme sentiu a necessidade, devido a um público mais alargado, talvez a tentar facilitar a nossa sensação de empatia com Natasha, de simplificar e minimizar toda a questão paterna da história, e é uma rusga aleatória ao restaurante onde trabalha que leva a família à deportação.

Além disso, os sentimentos de raiva de Natasha parecem mais dirigidos à situação em geral do que ao pai, tema que ocupa grande parte do livro. Neste caso, sendo a história diferente, não havia justificação para essa raiva, que foi portanto eliminada do filme.

Imagem: Divulgação – NOS Audiovisuais

A vida sentimental do advogado

Outra alteração que parece ter sido feita para simplificar não só a história de O Sol Também É Uma Estrela como a nossa perceção das personagens, a trama pessoal do advogado é simplesmente eliminada até ao epílogo. Durante as 24 horas em que acompanhamos Natasha e Daniel no livro, descobrimos que o dia também tem sido complicado para o advogado, quando após o acidente pondera deixar a mulher pela secretária (no livro, mais nova que no filme) com quem tem um caso. E são vários os momentos em que esta trama secundária interfere na principal. Mas talvez por tornar o advogado menos simpatético, esta trama é completamente eliminada, e o advogado passa a ser um prestável latino-americano.

Imagem: Divulgação – NOS Audiovisuais

Um epílogo mais… conclusivo

O epílogo será talvez a segunda maior alteração após as motivações e a vida do pai. Após um final agridoce – que soa mais verossímil -, o epílogo traz uma conclusão à história. Mas apesar de passar a mesma informação, o que acontece no final é substancialmente diferente, de forma que altera o tom da história. É estabelecido, como no livro, que ambos mantiveram contacto, e depois foram lentamente perdendo-o, não intencionalmente, mas porque continuaram a viver as suas vidas, ambos tendo encontrado felicidade no caminho que, após aquele dia, percorreram. Apesar disso, sabemos que não se esqueceram um do outro. Mas é o acaso que, novamente, os faz encontrarem-se: no livro, é num avião que Daniel, e não Natasha, a avista por acaso. No filme, ela ativamente procura-o fazendo uso de algumas horas que tem em Nova Iorque antes de partir, e encontra-o, por acaso, no café onde tiveram a primeira conversa após Daniel a salvar de ser atropelada. O tom é mais romântico, mas foge ao tema do destino que percorre todo o livro.

No final, surge um filme leve, romântico, com uma mensagem óbvia, mas que perde na adaptação o tom inteligente com que Yoon escreve os seus livros, os diferentes pontos-de-vista e o peso que estas traziam à trama principal, e a forma como histórias diferentes e tangenciais se cruzam casualmente ao longo da história e provam a força do destino que Daniel tanto quer provar que existe a Natasha, mas com o tom cínico e cru que esta traz à narrativa, também um pouco perdido na versão cinematográfica.