Escrita por George Harrison, o beatle calado, ‘Here Comes The Sun’ tornar-se-ia na sétima faixa de Abbey Road (1969), o último álbum antes do sol fugir de vez do grupo britânico.

Estamos em 1969. George Harrison e Eric Clapton juntam-se no jardim do segundo com guitarras acústicas. Segundo Clapton, no seu documentário “The Material World“, ideia do beatle. Negócios e contabilidade são uma questão nas mãos da banda desde que Brian Epstein, o seu manager, faleceu em 1967. A isso juntam-se os invernos longos de Inglaterra. Ali, numa manhã solarenga de abril e após dias preenchidos por reuniões, nasce ‘Here Comes The Sun’.

Mas o sol não ficou por muito tempo

Durante a existência d’Os Beatles, foram lançadas oficialmente mais de 200 músicas. Da autoria de George Harrison, 22. A Paul McCartney associamos 73 e a John Lennon 84.

Apesar do número diminuto, os fãs começaram gradualmente a respeitar as composições de Harrison. O mesmo se sucedeu dentro da banda. Durante os dez anos de atividade dos fab4, várias foram as canções de Harrison que foram ignoradas pelos restantes membros. Não eram consideradas boas o suficiente para integrar material oficial. Mas a prática leva à perfeição: o músico provou-o nos últimos álbuns de estúdio do grupo.

‘While My Guitar Gently Weeps é capaz de ser a primeira música em que pensamos quando nos lembramos de George Harrison. Gravada na segunda metade de 1968 e incluída no álbum The Beatles, a balada gentil que nos traz é uma das músicas mais tocantes do legado dos quatro britânicos. A guitarra solo é tocada por Eric Clapton e a voz é maioritariamente de Harrison.

É neste álbum que se começam a sentir as divergências entre os artistas – McCartney, anos depois, referiu-se ao mesmo não como O Álbum Branco (a sua outra denominação) mas como O Álbum Tenso.

No ano seguinte, ‘Something‘ e ‘Here Comes The Sun’ são a segunda e sétima faixas de Abbey Road. Este viria a ser o 11.º e último álbum gravado pela banda de Liverpool, o penúltimo a ser lançado. Let It Be, gravado antes, seria lançado em 1970 e fecharia a loja dos quatro britânicos. Deixariam de posar em passadeiras e de frequentar a rua onde essa emblemática fotografia foi capturada.

Abbey Road e Let It Be, The Beatles (album covers)

Abbey Road (1969) e Let It Be (1970)

Here Comes The Sun

Abril de 1969. George Harrison decide não aparecer numa reunião de negócios e visita Eric Clapton, na sua residência em Surrey, a cerca de meia hora de distância de si.

Em julho de 1969, a banda começa as gravações para o seu (decidido) último álbum em estúdio, Abbey Road (o penúltimo lançado). No dia 7 de julho, Harrison apresenta ‘Here Comes The Sun, a sua segunda contribuição.

Estavam presentes Harrison, McCartney e Starr; Lennon ausente em recuperação de um acidente de automóvel. Apesar do pouco reconhecimento por parte dos outros membros, George está orgulhoso das suas contribuições e foca-se em melhorá-las.

Considera-se a possibilidade da influência de John Lennon, subconscientemente. Cantava pelo estúdio as palavras “here comes the sun” enquanto desenvolvia uma música de sua autoria. Quanto às mudanças radicais no tempo da música, associam-se à (na altura) recente paixão de Harrison: música indiana.

Here Comes The Sun é, aparentemente, uma música simples. A olho nu, destaca-se apenas uma guitarra e a voz de um beatle. Pormenorizadamente, é uma combinação de instrumentos pelos três beatles presentes, overdubbing, sintetizadores, a voz de Harrison e backing vocals de McCartney.

Foi uma das primeiras músicas pop a utilizar um sintetizador Moog, adquirido por Harrison meses antes. “Era enorme, tinha imensos jackplugs e dois teclados. (…) Não havia um manual de instruções, e mesmo que houvesse, teria milhares de páginas.” (Na imagem de destaque, Paul, George e o sintetizador.)

E ainda – o solo perdido de Harrison que não chegou a ser utilizado na versão final:

A letra apresenta-se gentil e direta. Metaforizá-la é uma opção que não consta das intenções de Harrison, que canta apenas sobre o alívio que é um pouco de sol após um inverno tipicamente inglês.

Tem em conta que aquele é o último trabalho oficial da banda. Quer deixar uma boa impressão e consegue-o: 50 anos depois, os beatlemaníacos continuam a afirmá-lo.

O segundo e o quinto beatle

John Lennon foi o membro fundador da banda, no início de 1957. Meses depois, juntar-se-ia Paul McCartney e, em 1958, George Harrison. Só teríamos Ringo Starr na bateria em 1960 (oficialmente, 1962).

A cronologia deixa de ter relevância quando chegamos ao quinto beatle. É o termo frequentemente usado para designar membros provisórios, parceiros musicais, relações públicas da banda, o seu agente Brian Epstein ou até o produtor George Martin.

Para alguns fanáticos, até Yoko Ono foi um quinto beatle. Lennon discordou com qualquer um dos nomeados. “Eu não sou os Beatles. (…) Paul não é os Beatles. Brian Epstein não era os Beatles, nem Dick James. Os Beatles eram os Beatles.”, disse.

Para McCartney, se não Brian Epstein, como dito por si em 1977, foi George Martin o quinto beatle. George Martin foi o grande produtor por trás da obra dos Beatles. E pelo histórico dos últimos anos de atividade, somos forçados a concordar com o beatle.

Anos antes, Lennon ter-se-ia dirigido a Martin com a exigência de um álbum honesto, sem edição ou overdubbing. Martin confessou, em The Beatles – A Biografia (Bob Spitz), achar que todos os álbuns da banda foram honestos.

Ironicamente, para conseguir essa naturalidade, os ensaios demoravam mais horas do que o habitual e tornaram-se tão aborrecidos que, eventualmente, o produtor deixou de ter vontade de aparecer. A banda em si esqueceu-se do propósito de ali estar, à excepção de Paul.

É consensual que foi o segundo beatle quem tentou endireitar o caminho tortuoso d’Os Beatles a partir de 1966. Para os outros membros, isso não passou de uma tentativa ofensiva de dominar por completo o rumo da banda.

Isso justifica-se pelo profundo sentimento individualista que atacara Lennon, McCartney e Harrison desde The Beatles. Brevemente, caprichos de cada um dos quatro membros acabariam por marcar as sessões conjuntas em estúdio, até ao último álbum lançado.

Para o produtor, George Martin, McCartney não tinha outra opção que não mandar os outros trabalhar, para que se mantivessem juntos.

O outro George em cena mostrava visivelmente o seu descontentamento para com os dois membros permanentemente na spotlight: John e Paul. Desde imagens do Let It Be que revelam um Harrison passivo-agressivo perante as ordens de McCartney, às palpáveis tensões entre Harrison e Lennon.

Com a participação especial de Yoko Ono, companheira de John Lennon que Harrison sentia ter mais poder decisivo sobre assuntos da banda do que ele, chegamos à declaração de saída da banda (janeiro de 1969).

Tal como ele, Starr já anunciara a sua saída da banda em 1968. Foram saídas temporárias.

Em setembro de 1969, na altura do lançamento de Abbey Road, John Lennon apresenta o seu “divórcio” d’os Beatles, apanhando todos de surpresa – inclusive Yoko Ono, que normalmente se encontrava em sincronização com ele, muitas vezes até comunicando por ele.

Não restavam dúvidas ao optimista Paul de que não havia mais nada a fazer: a 10 de abril de 1970, McCartney anunciou publicamente a dissolução.

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E se os Beatles não tivessem existido?

Quanto à Apple Records (Apple Corps), gravadora em que os quatro haviam investido para promoção cultural e artística, revelava-se também um fiasco. Nem mesmo os Beatles eram, propriamente, artistas da mesma. E enquanto diretores, apenas McCartney tinha conhecimentos de economia e estava disposto a controlar a companhia, contra a vontade dos outros três. Até 1975, foi marcada por caos financeiro e foi considerada a possibilidade de dissolução quando o mesmo sucedeu com a banda.

And… there goes the sun

O elenco de motivos para o desaparecimento de uma das melhores bandas de rock do último século está dado: a morte do seu agente, o individualismo exacerbado dos membros, Yoko Ono.

Aquando do anúncio do fim da banda, as especulações sobre o que cada membro faria após a separação eram diversas mas todas apontavam para continuação de trabalhos a solo. Todos os membros estavam já envolvidos em projetos próprios no ano de 1970, embora questionado frequentemente o sucesso dos mesmos.

Para a maioria, não haviam dúvidas do destaque de John Lennon e de Paul McCartney, que haviam já sido as duas grandes estrelas n’os Beatles. Quanto a Ringo Starr, a opinião pública era de que a sua carreira musical não se prolongaria muito mais.

Aguardava-se por George Harrison, acreditando-se que o beatle calado teria várias composições, previamente rejeitadas pela banda, que lançaria ao público.

Um dos momentos que a Beatlemania recorda com mais carinho é o último concerto dado pelos quatro, com Billy Preston (quinto beatle e sexto stone). Foi o Rooftop Concert, a 30 de janeiro de 1969, o primeiro desde 1966 e último.

“Little darling, the smiles returning to the faces
Little darling, it seems like years since it’s been here”

As divergências foram colocadas de parte: sorrisos trocados espontaneamente entre McCartney e Lennon, e a sintonia musical dos The Beatles, pela última vez.