A 23.ª edição do Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer aproxima-se a passos largos, prometendo conquistar a capital de 20 a 28 de setembro. A premissa do evento permanece, mais uma vez, igual: glorificar um lado mais inclusivo da indústria cinematográfica, em que a comunidade LGBTI+ é protagonista. Este ano, o festival foi alvo de algumas inovações, incluindo novas rubricas e debates alusivos à história do cinema queer e independente.

O filme de abertura da edição lisboeta é particularmente cru e inspirador ao contar a história de Indianara Siqueira, ativista transgénero de origens brasileiras. Indianara (2019), documentário realizado por Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa, reflete um importante mote político ao alertar para os perigos do retrocesso ideológico no Brasil e como tal prejudica a luta pela igualdade.

Para complementar a temática, os novos populismos serão alvo de debate, em parceria com a marcha do orgulho LGBTI+ de Lisboa. A marcha estará, também, encarregada de uma exposição ilustrativa da sua evolução, ao longo de duas décadas, na vanguarda dos direitos queer em Portugal.

Ativista brasileira e transgénero Indianara Siqueira. Fonte: Futura

As principais novidades relativas a secções residem no ciclo retrospetivo no âmbito do Panorama do Festival Internacional de Cinema de Berlim, que celebra 40 de existência. Intitulado Berlinale Panorama 40, o segmento presta homenagem aos filmes mais irreverentes que passaram pela consagrada matiné alemã, sempre com tópicos feministas, políticos e queer.

Por outro lado, foi instaurada a vertente Queer Focus que retrata a “ecosexualidade como nova identidade sexual e a Natureza como amante em vez de mãe”. O intuito da revolucionária abordagem centra-se nas várias perspetivas da fusão entre o ambientalismo e sexualidade. As sessões serão encabeçadas por dois documentários: Water Makes Us Wet: an Ecosexual Adventure (2018), por Beth Stephens e Annie Sprinkle, e Ecosex, a User’s Manual (2018), da autoria de Isabelle Carlier.

No entanto, a maior a alegria para o queer festival foi, de facto, as parcerias, mais satisfatórias do que em qualquer edição anterior. Rosa Monteiro, secretária de estado para a cidadania e igualdade, destaca-se ao marcar presença numa discussão sobre o conceito de intersexualidade, algo quase inaudito no grande ecrã. A ação pretende desmistificar muitas conceções sociais e clínicas, contrariando o estigma comum inerente ao tema.

Annie Sprinkle e Beth Stephens em ‘Water Makes Us Wet’. Fonte: Filmmaker Magazine

Por fim, não poderia faltar uma homenagem ao cinema LGBTI+ a nível nacional, com a antestreia de Golpe de Sol de Vicente Alves do Ó. A longa-metragem narra as peripécias de quatro amigos, numa intensa jornada de autodescoberta e intriga amorosa. O elenco é composto por Ricardo Pereira, Oceana Basílio, Nuno Pardal e Ricardo Barbosa, nomes sonantes da televisão e cinema português.

Os espetáculos a decorrer no Queer Lisboa contam com um orçamento de 140.000 euros e, até ao momento, com cerca de 100 filmes confirmados, após a análise de 1000 submissões. Prevê-se que a programação completa seja revelada a 10 de setembro.

Informações relativas ao Queer Porto, a decorrer de 16 a 20 de outubro, terão lugar mais tarde. O alinhamento de ambas as metrópoles está longe do equivalente, dando, assim, a conhecer dois formatos distintos da representatividade LGBTI+ na sétima arte.

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