Com casa cheia, os Scorpions apresentaram-se iguais a si próprios, na Altice Arena. No ano em que celebram meio século de carreira, os germânicos jogaram pelo seguro e propocionaram um serão repleto de êxitos.

Se há banda que é um sério caso de sucesso nacional, essa banda são os Scorpions. Desde a estreia na Praça de Touros em Cascais em 1993, o grupo propocionou mais de duas dezenas de concertos. Já atuaram em diversos festivais, no Convento do Beato ou até na Expofacic em Catanhede. Enfim, conseguem entender que os alemães já percorreram o nosso país de norte a sul e até já incluíram os Açores.

Para contextualizar ainda mais: o espetáculo de hoje, na Altice Arena, corresponde ao sétimo na última década e é o quarto em ano consecutivo.

Mesmo assim, o público parece não desvincular os laços amorosos que tem com os Scorpions e respondeu à chamada da banda com lotação esgotada.

Crescer ao som dos Scorpions

Quando as portas abriram, existia uma enorme moldura humana espalhada pelas redondezas da Altice Arena. O público é expressivamente mais veterano mas há também muitas crianças a acompanhá-los.

A presença de um espetadores mais jovens deve ser encarado como um ritual de celebração ao rock e, nesse aspeto, não há melhor banda para estas andanças que os Scorpions. As mais de 14 mil pessoas presentes na maior sala de espetáculos do país é literalmente dos 8 aos 80.

Por fim, a cortina que cobre parcialmente o palco e que ostenta o logótipo dos Scorpions cai e é recolhida por um roadie da banda. Nos ecrãs gigantes é exibido um vídeo, com objetivo de galvanizar a entrada dos alemães.

“A idade é um posto”

‘Going Out With a Bang’ é o tema que dá início ao serão desta noite, mas a acústica da Altice Arena não consegue acompanhar a atitude rock n’ roll que o grupo emana em palco. O som está de tão forma “embrulhado” que não torna alguns temas do repertório irreconhecíveis.

Apesar dos seus 71 anos, Klaus Meine ainda faz um esforço monumental para dar o melhor de si. Por um outro lado, os guitarristas Rudolf Schenker e Matthias Jab transparecem vivacidade e parecem provar que os anos não passam por eles.

‘Make it Real’, ‘Is There Anybody There?’ e ‘The Zoo’ é a sequência de canções que fazem deliciar os fãs mais antigos. Durante estes temas, os Scorpions já exibem a bandeira portuguesa, tal é a necessidade de mostrar a afinidade com o público.

Segue-se uma interpretação algo arrastada do instrumental ‘Coast to Coast’ com Rudolf Schenker a tentar destacar-se mas o momento parece não cativar a maioria do público. Há tempo para recordar os primórdios do grupo com um medley que inclui trechos de canções como ‘Top of The Bill’ e ‘Catch Your Train’.

As baladas é que mais ordenam

Depois de uma tentativa pouco conseguida de Klaus Meine em ter o público a cantar ‘We Built This House’, mesmo com a letra da canção a ser mostrada no ecrãs, Matthias Jabs tem o seu momento para solar em ‘Delicate Dance’. Neste tema contou com o músico Ingo Powitzer também na guitarra, enquanto Klaus Meine e Rudolf Schencker saem por momentos do palco.

A banda aproxima-se do seu público no corredor central e propociona o inevitável momento acústico. Escutam-se ‘Follow Your Heart’ e ‘Eye of the Storm’, mas é no êxito ‘Send Me An Angel’ do álbum Crazy World (1990) que põe os telemóveis no ar enquanto se canta em plenos pulmões.

No mesmo registo, ouve-se ‘Wind of Change’, com o mítico assobio a conseguir arrepiar os milhares que se ajuntaram na Altice Arena.

De volta ao Rock and roll

O rock volta a imperar no alinhamento com ‘Bad Boys Running Wild’ e ‘Tease Me Please Me’. Mikkey Dee, antigo baterista dos Motörhead, é elevado às alturas para o seu solo. ‘Blackout’ e ‘Big City Nights’ encerram a noite e os Scorpions vão para os bastidores.

No entanto, o público sabe que isto faz parte do espetáculo, porque falta ouvir dois dos maiores temas do repertório da banda: ‘Still Loving You’ e ‘Rock You Like a Hurricane’. Com lava a brotar nos ecrãs, a inevitável balada é ouvida e faz suspirar corações, fazendo recordar outros tempos da maioria dos espetadores.

Mas é o ADN de rock que encerra o serão. Mais de uma hora e meia depois, Scorpions mostram sinais de velhice em certas ocasiões mas o amor que os portugueses nutrem pelos alemães parecem não se importar com isso. O alinhamento escolhido é praticamente igual, tendo em conta o concerto do ano passado no Estádio Municipal de Oeiras. Os Scorpions jogaram pelo seguro e provaram que estão em piloto automático.