As delicadas harmonias dos primeiros segundos de “Graceless” hipnotizam e os acordes de guitarra que se sucedem estendem o encanto. A faixa de abertura do EP Some Kinds é a porta de entrada do ouvinte para o mundo, criado por Tanaya Harper, de melodias enternecedoras e letras brutalmente honestas sobre a experiência de viver com ansiedade e bipolaridade. É da simplicidade e transparência que nasce a grandeza do primeiro projeto a solo da cantora. 

Natural de Perth, Austrália, Tanaya Harper é a mais recente adição a uma já longa lista de notáveis cantautoras australianas, que inclui Julia Jacklin, Emma Louise e a própria antiga companheira de banda (Bells Rapids) de Harper, Stella Donnelly. Em entrevista ao Espalha-Factos, Tanaya Harper recorda os seus primeiros passos na música e salienta a importância de expor a temática da saúde mental através da música.

Como é que a música se inseriu na tua vida enquanto crescias? 

Cresci a ouvir música constantemente em casa. Tínhamos um rádio com leitor de CD, onde podíamos inserir até 25 CDs diferentes, por isso estava sempre repleto de pop e rock dos anos 90: Nirvana, PJ Harvey, The Prodigy, Alanis Morissette, 4 Non Blondes, Spice Girls, etc. Nem a minha mãe, nem o meu pai tocam instrumentos, logo todo o contacto que tive com música durante a minha infância foi através dos artistas que admirava. 

Quando é que começaste a fazer música? 

Sempre fui alguém que começava a aprender a tocar um instrumento e depois desistia simplesmente. Faltava-me confiança porque eu sentia que cantar era a única coisa que sabia fazer. Por isso, só comecei a escrever e compor no meu último ano do secundário, numa altura em que era obrigatório para os estudantes de música escrever, gravar e atuar uma canção. Gostei imenso da experiência, então decidi continuar a estudar música depois do secundário.

Já fizeste parte de uma banda. O que te motivou a lançar música a solo? 

Estive numa banda chamada Bells Rapids antes de lançar o Some Kinds. Nós as quatro decidimos fazer uma pausa, o que me deu tempo para voltar a escrever a solo. Eu tinha algumas músicas que nunca tinha tocado com a banda, então depois de escrever mais algumas decidi que finalmente queria lançar o meu primeiro EP. O timing foi muito natural e senti que realmente estava pronta para tal.

Qual o significado do nome do EP? 

Bem, parte do processo de escolher as músicas que iriam constituir o EP foi adicionar umas e tirar outras, porque queria que houvesse consistência no som, ao invés de uma mistura de géneros e “sentimentos”. As cinco músicas selecionadas são “alguns” [some] dos “tipos” [kinds] de músicas que escrevi. 

Qual foi o maior desafio da criação do Some Kinds? 

Sinceramente, já nem me lembro. Talvez não deixar o projeto de lado, não desistir por medo ou o que quer que fosse. É tão assustador gravar a tua primeira música, ou o teu primeiro EP ou álbum. Portanto, estou só muito feliz de ter seguido o meu coração e ter continuado, mesmo nos dias em que só queria desistir. Assim, o maior desafio foi talvez a minha insegurança? 

A cantora australiana visitou a Invicta em Maio de 2019

A saúde mental parece ser a temática principal das letras do EP. Como correu o processo de escrever as músicas e como foi partilhar aquilo que parecem ser histórias e sentimentos muito pessoais? 

Normalmente escrevo quando preciso mesmo de escrever. Quando a minha ansiedade é tão intensa que me faz tremer e eu sinto-me prestes a explodir. É nesses momentos que pego na guitarra e começo a tentar comunicar comigo mesma: “Porque é que me estou a sentir assim? O que aconteceu? O que estou a pensar? Preciso tentar resolver algo? Está tudo na minha cabeça?” 

Relativamente à segunda parte da pergunta, eu gosto imenso de partilhar este tipo de momentos pessoais – porque quando estava a escrever provavelmente sentia-me sozinha, mas agora sei por experiência que há sempre alguém que se identifica com aquilo por que passaste.

A saúde mental ainda está envolvida em estigma nos dias de hoje. Durante o processo criativo do EP, abordares este assunto foi algo intencional ou apenas algo que aconteceu espontaneamente?

Houve uma altura em que tive de decidir se iria (ou não) ser honesta quanto às minhas letras serem sobre ser bipolar e ter ansiedade. Foi algo assustador para mim, mas acho que a honestidade é o mais importante na arte. Quando descubro factos sobre álbuns ou músicas que falam abertamente sobre saúde mental, que alguma experiência horrível serviu de inspiração, isso torna-os muito mais especiais para mim. Porque o artista escolheu partilhar algo tão pessoal, que poderá ajudar muitos ouvintes. Por isso, sim, discutir este assunto na minha música foi uma decisão minha. 

Quão importante achas que é falar-se abertamente sobre problemas de saúde mental? 

É bastante importante abordar o tópico da saúde mental sem rodeios porque todos os dias pessoas morrem, muitas das quais provavelmente sentiam que não conseguiam lidar ou mesmo perceber o que lhes estava a acontecer. Quando tenho uma conversa com um amigo que me diz “sim, eu entendo, também já senti isso”, eu sinto-me menos sozinha. Imagina ter esquizofrenia e não ter ninguém com quem partilhar o que sentes. Isso seria tão assustador e solitário. Saber que não és anormal, estranho ou menos digno do que qualquer outra pessoa (só porque o teu cérebro não é sempre o teu melhor amigo) é fundamental no processo de seguir em frente e viver uma vida melhor.

Tanaya Harper espera um dia poder atuar em Portugal

Que artistas influenciam a tua música? 

Vou tentar ao máximo não ficar aqui para sempre. Aqui vai: Thom Yorke (a solo) e Radiohead, Amy Winehouse, Jeff Buckley, Billie Holiday, Emily Haines and the Soft Skeleton, PJ Harvey, Mitski e Chet Baker. Vou parar por aqui. Todas estas pessoas influenciam-me por razões semelhantes, geralmente as suas vozes, letras, melodias e energia. 

Com quem gostarias mais de colaborar? E, porquê? 

Thom Yorke. Eu adorava escrever uma música com ele. Sinto-me atraída para o tipo música que ele escreve e com a qual a minha voz combina. Sinceramente, eu cantaria o que quer que ele me dissesse para cantar [risos].   

Para quando podemos esperar nova música?  

Há um segundo EP em desenvolvimento e desta vez com uma banda a acompanhar-me! Mal posso esperar para começar a planear o lançamento, mas nada ainda foi decidido. Imagino que seja um EP do outono de 2019 (primavera, aqui na Austrália). Estou muito entusiasmada com o que está para vir!

Some Kinds, com participação especial de Stella Donnelly na guitarra, está disponível no Spotify e para compra no Bandcamp. 

Texto de Tatiana Carvalho e fotografias de Luís Pereira.