A saga de animação Toy Story contava, até ao momento, com três filmes bastante bem-sucedidos, parecendo não haver espaço ou necessidade para mais.

Da última vez que o grande público viu os heróis Woody e Buzz Lightyear, a parelha foi entregue a uma simpática menina chamada Bonnie, quando Andy é obrigado a dar os primeiros passos em direção à vida adulta. Parecia o encerrar perfeito de uma era, um virar de página, um derradeiro ponto final.

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Todavia, a Disney consegue repetir a difícil proeza de reinventar uma história já tão explorada, tornando-a cativante, tanto para o público jovem como para as camadas mais velhas. Desde exclamações de espanto, a gargalhadas incontroláveis, ao nervoso miudinho sentido quando as peripécias dos brinquedos os colocam “entre a espada e a parede”, só há uma única maneira de visualizar Toy Story 4: com um enorme sorriso nos lábios.

A nova produção de Josh Cooley transcende, de facto, o infinito e mais além, ao provar que merece melhor do que uma mera menção honrosa pela nostalgia. É com esta vontade de superar as expetativas que Toy Story 4 chega às salas de cinema portuguesas a 27 de junho.

Uma mescla de R. L. Stine, introspeção e punk rock

Toy Story 4 parte do quotidiano do clássico grupo de brinquedos, desta vez ao serviço da pequena Bonnie (Madeleine McGraw). Enquanto experienciam uma divertida vida dupla, a menina prepara-se para iniciar a sua jornada no infantário, transição que lhe provoca medo e inseguranças.

Woody (Tom Hanks) decide, então, acompanhá-la no seu primeiro dia e assiste à criação de Forky, um frágil garfo, embelezado com escassos materiais artísticos e outros resíduos. Forky (Tony Hale) é, sem dúvida, hilariante. O garfo não se revê nos brinquedos, identificando-se, apenas, como algo descartável, uma realidade, na sua opinião, muito mais “acolhedora”.

Toy Story 4

Fonte: IMDB

Bonnie fica apaixonada pelo companheiro de olhos esbugalhados, ao passo que Forky faz tudo ao seu alcance para retornar ao caixote do lixo mais próximo. Woody, focado no bem-estar da menina, esforça-se por impedir estas tentativas de fuga, embarcando numa série de aventuras, passadas entre a feira popular e uma melancólica loja de antiguidades.

Em Toy Story 4, os brinquedos habituais são colocados um pouco em segundo plano, decisão, à partida, algo questionável. No entanto, tal acaba por dar espaço ao desenvolvimento de novas personagens, que brilham tanto ou mais como as já conhecidas.

Toy Story 4

Fonte: IMDB

Os principais destaques residem, obviamente, em Forky, cada exclamação de “TRASH!”, emitida pelo utensílio, é um tiro humorístico certeiro; a dupla Ducky (Keegan-Michael Key) e Bunny (Jordan Peele) amorosa à primeira vista, afirma-se como personificação da ironia e comédia negra; e Duke Caboom (Keanu Reeves), o efusivo motociclista canadiano que encanta qualquer um com as suas poses.

Impossível de esquecer é, também, a antagonista Gabby Gabby (Christina Hendricks), uma boneca de porcelana assombrada pelo trauma de nunca ter servido uma criança, “o ato mais nobre que um brinquedo pode fazer”. Esta é precedida por uma armada de bonecos de ventríloquo, muito ao estilo de R. L. Stine, que compõem, facilmente, a parcela mais arrepiante do filme.

Toy Story 4

Fonte: IMDB

Na temática de antigas personagens, é mandatório abordar um aguardado retorno que a quarta parte de Toy Story proporciona: o regresso de Bo Peep (Annie Potts). É verdade, a pastorinha Bo Peep está de volta num inesperado formato punk rock, em que não presta contas a ninguém, assumindo e enaltecendo o rótulo de “boneco perdido”.

Esta maneira de viver, estranha ao propósito pré-formato de qualquer brinquedo, dá origem a um subtil debate sobre o que dá, verdadeiramente, sentido à vida e o que significa desafiar as expetativas de terceiros.

Toy Story 4

Fonte: Pixar/ Disney

Quem está verdadeiramente perdido? Bo Peep com o seu quotidiano excitante e liberdade total para explorar o mundo? Ou Woody que não olha a meios para proteger Bonnie, mapeando toda a sua existência em função da menina? Talvez ambos, talvez nenhum. Toy Story 4 glorifica, exatamente, todos os rumos de vida e ilustra a tão cobiçada “realização”, como algo que pode tomar diversas formas e feitios. Uma abordagem interessante e bastante madura, consonante com as reflexões a que Toy Story nos habitou no passado.

O improvável sucesso de verão

Se o enredo não falha, o mesmo pode ser dito dos restantes complementos. A banda sonora está a cargo de Randy Newman, compositor da casa e encarregado da sonoridade em Toy Story 1, 2 e 3.

O estatuto veterano de Newman na área é notório. A habilidade do músico para criar refrescantes canções e dinamizar qualquer momento, mediante uma simples melodia de fundo, não engana. The Ballad of The Lonesome Cowboy e I Can’t Let You Throw Yourself Away são, por exemplo, potentes hinos à amizade e companheirismo, introduzidos no projeto.

Randy Newman durante as gravações da banda sonora de ‘Toy Story 4’. Fonte: Deborah Coleman/ Pixar

A favorita You’ve Got a Friend in Me marca, também, presença, ao encabeçar os flashbacks iniciais, reforçando o regresso à infância para uns e o doce sabor da pequenez para outros. Toy Story 4 perpetua a tradição de enlaçar o sentimento com a musicalidade, algo quase indetetável, mas tão esmagador ao ponto de alterar por completo a perceção da narrativa.

A animação é, igualmente, um espetáculo delicioso, seguindo a linha mais sofisticada de Toy Story 3. Felizmente ou infelizmente, estamos muito longe da imagem primitiva característica dos primeiros Toy Story, em que o vilão Sid se afigurava como um verdadeiro pesadelo informático.

Sid em ‘Toy Story’ (1995). Fonte: IMDB

O realismo é, agora, a palavra de ordem. Talvez não tanto nos brinquedos, que continuam a conservar o seu toque de desenho animado, mas sim nos cenários e elementos naturais. As ruas chuvosas, as montanhas e jardins verdes envolvem as personagens de tal maneira que parecem viver as suas tropelias no mundo real. Até o jogo de luzes, associado aos vários cenários, ajuda a compor o ambiente, dotando os espaços de uma certa capacidade de antevisão do que ali se vai passar.

Por fim, há que referir a autêntica cereja no topo do bolo: a comédia. Em filmes considerados infantis, o humor não é tarefa fácil, pois o erro de cair no forçado é iminente.  Contudo, Toy Story 4 cumpre este requisito sem qualquer dificuldade. O comedic timing é excelente, prometendo arrancar inúmeras gargalhadas às mais heterogéneas audiências. Sejam trocadilhos engraçados, piadas construídas de forma progressiva ou estrambólicos cenários hipotéticos, Toy Story tem um pouco de tudo e, de facto, resulta!

Toy Story 4

Fonte: IMDB

Apontar falhas à última criação da Pixar constitui trabalho árduo. A proeza de criar uma quarta sequela, não só necessária, mas também com valor por si só, merece grande mérito, semeando o interesse por criações vindouras. O filme reivindica um público extremamente amplo, ao contrabalançar a tristeza do “adeus” com o entusiasmo de um novo “olá”.

Toy Story 4 converte-se, assim, num improvável sucesso de verão endereçado a toda a família.

 

Título original: Toy Story 4

Realização: Josh Cooley

Argumento:  Stephany Folsom, Andrew Stanton

Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Tony Hale, Annie Potts

Género: Animação, Aventura, Comédia

Duração: 100 minutos

‘Toy Story 4’: Como transcender o infinito e mais além
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