Fotografia: Divulgação

Eddie Vedder na Altice Arena: o Corpus Christi do grunge

Um ano depois de ter estado com os seus Pearl Jam em Portugal, Eddie Vedder encheu a Altice Arena num piscar de olhos. Mais que um concerto, foi uma noite de devoção ao grunge.

Naquela que foi a terceira vez a solo, o concerto de Vedder na maior sala de espetáculos do país coincidiu com a data de celebração católica do Corpo de Deus. Em ambos os casos, os motivos levam os seus crentes a manifestar a adoração para com as suas figuras messiânicas.

Quando o relógio marcava as sete da tarde, iniciou-se a procissão para entrar na Altice Arena, onde iria acontecer a liturgia presidida pelo vocalista dos Pearl Jam. O ambiente era tranquilo, mas o entusiasmo era palpável.

Dentro do pavilhão, a tranquilidade imperava mas notava-se um crescimento de nervosismo miudinho para que desse início à missa de celebração do espírito grunge.

O acólito irlandês

Com uma pontualidade britânica e ainda com muitas pessoas a entrar na sala, Glen Hansard — guitarrista dos irlandeses The Frames — subiu ao palco da Altice Arena. Para contextualizar, o irlandês partilha com Eddie Vedder uma história de amizade comovente, principiada pela morte trágica de um fã.

Com apenas uma guitarra e um piano à sua disposição, o músico atira-se ao seu repertório com uma veia emocional que poucos atingem, tendo em conta que estamos perante uma plateia de milhares. Em suma, é um caso de verdadeira excelência musical  em sentimentos.

Apesar de ser um contador de histórias, Glen Hansard prefere que seja a música a falar por si. O contacto com o público português é mínimo, resumindo-se apenas em agradecimentos na nossa língua.

Cerca de meia hora de atuação com direito a várias cordas partidas já no fim do seu alinhamento, prova cabal que a emoção falou mais alto.

O “pedido” de Eddie Vedder

Pouco tempo depois de Glen Hansard ter saído do palco, o ecrã gigante exibiu uma longa mensagem referente à proibição do uso de telemóveis para captação de imagens durante o concerto. O aviso é justificado pelo incómodo que o uso dos ditos aparelhos causa a alguns espetadores e pelo gosto de presenciar um concerto ao vivo pelos próprios olhos.

À medida que a mensagem estimula conversa de circunstância de grande parte do público, o palco é montado pela equipa do músico norte-americano, vestidos de batas brancas. Para além dos instrumentos, o cenário é composto por manequins femininos, ostentando penas de pavão, um projector de filmes de bobine e alguns candeeiros.

“Desculpem mas ainda não falo bem português”

Quando faltam 15 minutos para as 22 horas, as luzes apagam-se e entra em cena o Red Limo String Quartet. A secção de cordas, que acompanhará grande parte da atuação de Eddie Vedder, apanha o público desprevenido quando recriam a melodia de Alive, um dos hinos dos Pearl Jam.

É sob este clima, que Eduard Louis Severson III surge em palco sob um ovação impressionante de palmas, assobios e até vénias. O mote está dado e Far Behind, da banda sonora Into the Wild,  dá início à celebração, seguida pela balada Just Breathe que faz suspirar o público presente na Altice Arena.

Com as pessoas ainda a tentarem apanhar o fôlego, Eddie Vedder faz uso da sua cábula para falar português. Num claro esforço, o músico relembra ao público que é a 11ª vez que atua em solo nacional e relembra dos primeiros concertos no já extinto Pavilhão Dramático de Cascais em 1996. “Era uma sala bem pequena comparada com a de hoje, mas garanto-vos que a emoção é igual“, profere conseguindo uma reação efusiva.

Entre troca de sorrisos e até algumas gargalhadas, a liturgia de Eddie Vedder prossegue com ‘Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town’, ‘I am Mine’ e ‘Immortality’, que invoca o espírito grunge de outros tempos, mas, mesmo assim, as canções continuam a soar frescas em 2019.

Adoração dos fiéis

É inegável ficar impressionado com o magnetismo que Eddie Vedder possui. Em certos momentos do concerto desta noite, o norte-americano dirige-se a certas pessoas espalhadas nas filas mais próximas do palco. O músico atira palhetas e parece genuinamente interessar-se pelo seu público.

Depois de interpretar uma versão de ‘Trouble’ de Cat Stevens, o alinhamento prossegue com mais repertório dos Pearl Jam. ‘Wishlist’,Portugal’ — a música improvisada que se tornou num quase requisito obrigatório em concertos em solo nacional. Destaque para a harmónica em ‘Driftin” ,um B-side do vasto leque de canções do grupo norte-americano, que é dedicada aos amigos surfistas.

O alinhamento maioritariamente composto por temas da sua banda é interrompido para um momento especial. Eddie Vedder chama Glen Hansard a palco para tocar ‘Long Nights’. Antes de iniciar, o Eduard Louis Severson III retira da mala, uma garrafa de vinho para gaúdio dos presentes. Dá um gole diretamente do gargalo e partilha, de seguida, com o seu amigo irlandês.

Eddie Vedder dá um copo a uma fã da primeira fila. Ainda com Glen Hansard e também com o Red Limo Quartet, os músicos tocam Black que faz com que o público fique arrepiado. Durante o tema, o músico circula no palco apreciando a moldura humana que está presente na Altice Arena.

Comunhão familiar

Depois do coro em uníssono de ‘Black‘, o concerto prossegue com ‘Parting Ways’ e uma versão soberba de ‘Better Man‘. Nesta última, Eddie Vedder relembra a sua família que sofre por causa da sua ausência. “Sentimos muita falta deles [dos familiares] mas a vossa energia ajuda a compensar a dor”, afirma o músico.

O norte-americano repara que o cansaço de uma menina nas filas da frente. “Vou agora sussurar para não acordar aquela rapariga. Os próximos dois temas é para ver se consegues adormecer“, diz com um sorriso malandro. Escutam-se os temas mais enérgicos ‘Lukin’ ePorch’, dos discos No Code e Ten respetivamente. O músico depois apercebe-se que é o seu aniversário e canta os parabéns, juntamente com os mais 10 mil pessoas presentes no pavilhão.

Eddie Vedder faz um pequena pausa do concerto e encarrega o Red Limo Quartet fazer um pequeno interlúdio da atuação ao tocarem uma versão de ‘Jeremy’. O músico regressa e, a seu pedido, mete a Altice Arena iluminada com as laternas dos telemóveis, à medida que interpreta ‘Imagine’ de John Lennon.

Continuando o desejo por um mundo melhor, Glen Hansard também regressa a palco para interpretar ‘Song of Good Hope’. ‘Smile’ de No Code é desgustada e serve quase como carta de despedida. Seguem-se Society e Hard Sun, que põem os corações ao alto.

Antes do adeus final, Eddie Vedder volta mais uma vez, para tocar ‘Keep on Rocking in a Free World‘ de Neil Young. Duas horas depois, a missa termina e os fiéis estão de felizes com o que acabaram de assistir.

Com 54 anos, o vocalista dos Pearl Jam é das últimas vozes que ainda persistem do movimento grunge dos anos 1990, mas, mais do que isso, é um ídolo e salvador de muitas pessoas. Dou o exemplo do cartaz que foi mostrado no ecrã gigante, para justificar esta afirmação

A prova está também na lotação esgotada e da maior parte do público que respeitou o pedido do músico referente aos telemóveis. E assim foi o 11º. capítulo da história de amor entre Eddie Vedder e os portugueses.

 

 

 

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