A Madame X, novo disco de Madonna, é também o seu alter-ego. Foi buscar inspiração a Portugal e à música latina, mas continua fixa às suas origens. Está a partir desta sexta (14) disponível em todas as plataformas digitais, mas será que estamos prontos para esta Madame X?

É provável que já tenhas tido um contacto com a misteriosa Madame X, em noticias ou vídeos espalhados por notícias. Este é o alter-ego que Madonna deu a conhecer há dois meses atrás, num pequeno vídeo de introdução no seu canal de YouTube. Mas parecia que, de um outro lado das redes sociais, se misturavam notícias sobre o pedido de ter um cavalo dentro do Ramalhete. Mas o que seria uma Madonna sem uma pequena provocação pelo meio?

Como tem sido habitual na sua carreira, Madame X é um alter-ego de Madonna com novas camadas. Pode dizer-se que é um encontro entre a extravagante Dita Parlo, do álbum Erotica, com uma Madonna politizada e exigente em American Life ou mesmo com a entertainer de Confessions on a Dancefloor. Madame X é uma junção das melhores características da carreira da “Rainha da Pop“: é uma onda de liberdade, de experimentação e uma lutadora.

Com uma carreira conhecida na defesa pela liberdade, em todos os tipos de comunidades, esta Madame X é tudo o que quisermos ser. É uma agente secreta a viajar pelo mundo, em constante mudança de identidades, a lutar pela liberdade e a trazer luz para lugares obscuros. Mas o que significa isto? Há pessoas interessadas por mensagens políticas misturadas em músicas pop? A quererem passar da crítica superficial nos comentários do Facebook?

Uma verdadeira obra (de arte, de música, seja o que for) é capaz de transportar qualquer pessoa, num caminho turbulento ou facilitado, para o seu objetivo final. Esta Madame X é uma personagem de Madonna, como tantas criadas ao longo de 40 anos de carreira, com mensagens camufladas nas músicas. O objetivo é levar luz para lugares obscuros, criados cada vez mais pelas pessoas não só no universo digital, mas também no mundo real. Medellín, com o colombiano Maluma, é o início desse caminho e, no fim de se ouvir todo o álbum, chega-se à conclusão de que não é para ser levado tão a sério.

Com uma letra tão cheia de lugares comuns, mesmo confusa em alguns momentos, ‘Medellín’ semeou a dúvida na profundidade desta Madame X. O que trazia uma música, cheio de ritmo latino e autotune, para esta agente secreta? Sem um contexto foi difícil entender que este é apenas um aperitivo leve para uma jornada recheada de mensagens e chamadas de atenção. Que com esta canção queria colocar os ouvintes num ritmo de dança, antes de chamar a atenção nas músicas seguintes: ‘Dark Ballet’ e ‘God Control‘.

‘Dark Ballet‘ foi retrabalhada desde a apresentação do Met Gala 2018. Nesse momento, a avaliar pela letra, podia ver-se que era uma crítica à sociedade. No entanto, foi retrabalhada com novos elementos e utilizada como uma crítica à instituição Igreja Católica. Para conseguir expressar a sua mensagem trouxe o rapper Mykki Blanco, um artista negro, transgénero e ativista, e retratou-o nos últimos momentos de Joan d’Arc. Graças ao vídeo lançado na semana anterior ao lançamento do disco, a Madame X mostrou um pouco mais as cartas da sua manga.

De seguida é apresentada ‘God Control‘. Este é provavelmente um dos pontos mais fortes deste novo disco de Madonna. Uma música com mais de seis minutos e que traz um pouco de tudo: um inicio amordaçado, dada a ferocidade da letra (Everybody knows they don’t have a chance/To get a decent job, to have a normal life/When they talk reforms, it makes me laugh/They pretend to help, it makes me laugh), que dá ideia de uma pessoa presa e dá lugar a um instrumental disco, preparando para pôr qualquer um para dançar. É uma forma de distração? Pelo contrário, esta é uma forte chamada de atenção. (This is your wake call!) para a situação política nos Estados Unidos da América. Este é só o vislumbre da politizada Madame X. Está espalhada pelas 15 canções do álbum, em elementos-chave para as pessoas mais atentas.

Future‘, já apresentada e com a participação de Quavo, dá um relance de reggae pelas mãos de Diplo, mas é no momento seguinte que surge uma das canções mais interessantes desta Madame X: ‘Batuka‘. As primeiras influências de World Music são conseguidas com batucadeiras de Cabo Verde, um grupo descoberto por Madonna (e que provavelmente vão acompanhá-la nas várias paragens da Madame X Tour). Com ‘Killers Who Are Partying‘, Madame X toca na verdadeira ferida, espalhada pelo planeta, dando a conhecer várias das pessoas marginalizadas ao longo da história da humanidade: gays, africanos, indianos e mesmo as mulheres. E é também no refrão desta música que o idioma português é dado a conhecer (“O mundo é selvagem/ o caminho é solitário”).

Crave‘, com a participação de Swae Lee, relembra algumas das canções de Bedtime Stories (a sonoridade de ‘Secret‘ ou mesmo ‘Survival‘) mas com um toque mais atual. ‘Crazy‘ faz também uso do português e ‘Come Alive‘ relembra alguns dos momentos mais tranquilos de ‘Rebel Heart‘ (‘Body Shop‘ e mesmo ‘Inside Out‘). Com estas músicas, Madame X prepara o terreno para uma faceta mais mexida e, de certa forma, divertida do álbum. Depois de uma confissão com ‘Extreme Occident‘ (‘Life is a circle‘), provavelmente o melhor dueto do disco entra em cena.

Dado o sucesso de ‘Faz Gostoso‘ no ano passado em Portugal, Madonna decidiu gravá-la e convidar Anitta. Uma infusão de funk e homenagem ao Brasil numa das músicas mais fortes deste Madame X e com capacidade para tornar-se uma das músicas mais ouvidas do ano (só falta ter a publicidade realizada, claro). É interessante ver Madonna arriscar-se num estilo que nunca esteve presente na carreira e, no momento seguinte, tornar este disco mais latino com uma nova ajuda de Maluma em ‘Bitch I’m Loca‘.

De uma sonoridade latina, Madame X vai a seguir buscar a persona de Confessions on a Dancefloor com ‘I Don’t Search I Find‘. Esta é provavelmente a música mais comercial de um disco experimental, facilmente colocada nas pistas de dança. Da exaltação de sentidos e de mensagens políticas, resta a Madame X libertar-se com ‘I Rise‘. Numa mistura com a realidade, Madame X liberta-se de todos os que continuam a importar-se mais com a sua idade ou mesmo com os seus pedidos extravagantes.

Mas será que estamos preparados para esta Madame X? Num mundo cada vez mais sugado pelos fundamentalismos do Catolicismo, da política ou mesmo nas caixas de comentários do Facebook, Madonna continua a insurgir-se, a quebrar limites e barreiras. Com noção das fórmulas de sucesso na sua música, Madame X atreveu-se a colocar os seus saltos altos em território desconhecido. Incorporou o contacto com diferentes estilos musicais neste novo disco e o resultado é não podia ser mais satisfatório.

Com espectadores que não gostam de perder tempo e preferem, na sua maioria, escutar o que é mais cliché e fácil, resta saber se há disposição para esta Madame X (especialmente entre os mais jovens). Também há desses momentos ao longo do álbum, mas há algo que apaixona verdadeiramente: uma mulher que se atreve a arriscar e a não jogar pelo seguro, mesmo quando o seu lugar na indústria musical está mais do que assegurado.

Resta, neste momento, ver o que está a preparar para esta Madame X Tour.