Mais um mês de junho, novamente altura para celebrar, em todo o mundo, o Pride Month. Uma vez mais, celebra-se o orgulho LGBTI. Em Portugal, assinala-se o Arraial Lisboa Pride, a 22 de junho, no Terreiro do Paço, e, na semana seguinte, acontece a 20ª edição da Marcha do Orgulho LGBTI de Lisboa, a 29 de junho.

O Espalha-Factos aproveita a oportunidade para destacar algumas das grandes e célebres obras cinematográficas que tocam a temática – em Hollywood e além do cinema norte-americano. Aqui ficam, sem ordem definida, 15 filmes para assinalar o Pride Month em 2019.

1 – 120 BATIMENTOS POR MINUTO (2017)

Fonte: UCL Film and TV Society

120 Batimentos por Minuto arrasou Cannes em 2017, arrebatando o Grande Prémio do Júri no Festival. É, sem dúvida, uma obra inegável no que à consciência LGBTI diz respeito. Um filme cru, sincero, tocante e capaz de chocar sem nunca se tornar gratuito.

A obra francesa situa-se em Paris, em 1990, e dá-nos um olhar privilegiado sobre aquela que foi a avassaladora propagação do vírus do HIV. Sem escolher cor, raça, idade ou orientação sexual, o vírus dizimou e chegou sem aviso. A narrativa coloca-nos no centro de um grupo activista, o ACT UP – dedicado à prevenção da doença e à promoção de campanhas que fossem capazes de tornar o acesso a tratamentos mais generalizado e informado, numa altura em que a desinformação reinava.

A história é narrada a partir da perspectiva de Nathan, um membro da ACT Up, não infectado com o vírus, que se apaixona por Sean, um jovem seropositivo. O filme é uma viagem alucinante, que mereceu todos os (muitos) louvores que recebeu. Inesquecível, apaixonante e ainda assim realista. Talvez o filme mais “importante” desta lista.

 

2 – CHAMA-ME PELO TEU NOME (2017)

Fonte: Distribuição/Big Picture Films

Também em 2017, surgiu-nos um outro clássico contemporâneo (e instantâneo) que podemos associar à temática LGBTI. Chama-me pelo Teu Nome, da autoria de Luca Guadagnino, apresentou-nos uma irreprensível adaptação do romance de André Aciman.

Uma obra apaixonante e apaixonada, pachorrenta e que inverte a lógica de constantes antagonismos que se encontra no cinema de género. Há quem diga que Call Me by Your Name, no original, não é tão pouco um filme com temática gay, por tentar desprender-se de condicionantes externas e de julgamentos de valor face a este romance. Contudo, há uma ameaça do outro e da sociedade sempre presente, que não deixa de conferir a este belo romance de verão um certo gosto agridoce. Por isso, o filme não podia nunca deixar de figurar nesta lista.

Uma enorme sensação de internet, Chama-me Pelo teu Nome viajou pelos quatro cantos do globo, com uma rota de festivais impressionante no seu currículo. Embora modesto, também não se saiu mal no circuito comercial, e apresentou-nos o arrebatador jovem protagonista Timothée Chalamet, nomeado ao Oscar da Academia pelo papel. Tão cedo não nos esqueceremos do setting, do pequeno pedaço de paraíso “algures no norte de Itália” ou tão pouco deste maravilhoso e promissor início de carreira.

 

3 -MILK (2008)

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O filme de Gus Van Sant merece um lugar nesta lista devido ao seu carácter seminal. Milk é um romance histórico protagonizado por Sean Penn, Josh Brolin e Emile Hirsch.  A obra destacou-se pelas suas fortes prestações, e sóbria (qb) reconstrução histórica. A “biografia”, se assim a podemos chamar, de Harvey Milk é em igual parte educacional e tocante, e surgiu numa altura diferente, na qual a aceitação da causa LGBTI era ainda embrionária nos Estados Unidos.

O filme foi, sem dúvida, um dos grandes trunfos do ano cinematográfico, tendo sido galardoado com o Oscar de Melhor Ator para Sean Penn e Melhor Argumento Original. Entre as muitas outras nomeações, destaque para Melhor Filme, Realização e Melhor Actor Secundário. As ferramentas narrativas foram bastante clássicas – flashbacks, imagens de arquivo, reminiscências do passado sempre válidas. Estamos no final dos anos 70, e vemos um político abertamente gay a desbravar caminho, pela primeira vez, numa São Francisco que se torna o palco para esta história sobre libertação.

4 – GOD’S OWN COUNTRY (2017)

Fonte: Picturehouse Entertainment

Muitos filmes de 2017 parecem figurar nesta lista, e com boa razão. Se a temática LGBTI era recebida com reticência e burburinho no início da década de 10 do século XXI, o mesmo não se pode dizer em relação ao final deste período. O tema generalizou-se, multiplicou-se e permitiu que obras diversas tivessem a oportunidade de brilhar em simultâneo, sem se ofuscarem. É na sequência desta movimentação que nos surge God’s Own Country.

Com uma estreia comercial discreta, o filme não passou contudo despercebido no circuito de festival. Por terras portuguesas, teve direito a uma exibição única, antes, duas, no âmbito do Queer Lisboa. Foi com antecipação que abriu a sua 21ª edição, em setembro de 2017.

Estreado em Sundance e distingido na Berlinale, God’s Own Country é um filme britânico que bebe directamente, e de forma inequívoca da herança de o Segredo de Brokeback Mountain, filme que será, como é evidente, mencionado no âmbito desta lista.  Narra-se a história de Johny Saxby, um habitante do condado rural de Yorkshire. A chegada de um trabalhador romeno, Gheorghe, vai colocar em causa emoções até então reprimidas.

5 – BREAKFAST ON PLUTO (2005)

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Cillian Murphy encarna, em Breakfast On Pluto, Patrick “Kitten” Braden, uma mulher transexual, num papel que lhe valeu uma nomeação aos Globo de Ouro. Localizado nos anos 70, na Irlanda, o filme dispõe de dois grandes trunfos. É, logicamente, uma história sobre aceitação e todas as dificuldades que advêm da sua impossibilidade, mas é também um retrato histórico de um período de transição e de tumulto.

O IRA, ou Exército Republicano Irlandês, grupo separatista, com forte representação na época, está no centro da narrativa e a identidade de género vai aliar-se à busca pela libertação de uma nação. Um filme que, embora não tenha sido alvo de grande destaque internacional, triunfou no seu país de origem, a Irlanda. O talentoso Cillian Murphy (Inception, Peaky Blinders) está irrefutável no papel de Kitten, dissolvendo-se totalmente.

 

6 – O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (2005)

 

Fonte: IMDB

Também em 2005, chegou-nos uma outra narrativa LGBTI no panorama do cinema comercial em língua saxónica, de muito mais elevada importância. Não é particularmente ousado afirmar que, no que diz respeito à temática gay, existe um antes e um depois de Brokeback Mountain no cinema norte-americano.

Foi este, sem dúvida, o filme do ano em 2005, que criminosamente não venceu o principal galardão da noite da Academia de Hollywood. Talvez fosse cedo demais, no que a ousadia diz respeito. Contudo, levou sim os Oscars para Melhor Argumento Adaptado e Melhor Banda Sonora, bem como o de Melhor Realizador para Ang Lee. Aqui, um outro marco foi alcançado – Lee tornou-se o primeiro asiático a vencer nesta categoria. O elenco principal (Health Ledger, Jake Gyllenhaal e Michelle Williams) foi também distinguido com nomeações.

Em O Segredo de Brokeback Mountain tudo resulta: a narrativa, a banda-sonora, a apaixonante paisagem ou a quietude romântica que parece medir cada fala, cada passo, cada interacção fadada entre os dois homens. Um testemunho a tudo o que Health Ledger prometia ser, um fixar de imagens que ficarão para sempre nos cânones do cinema de Hollywood. Uma actualizada infinita que inunda esta paixão avassaladora e impossível.

7 – DISOBEDIENCE (2017)

Fonte: IMDB

Voltamos à colheita de 2017 com Disobedience. À semelhança de outros títulos na lista, o primeiro filme em língua inglesa de Sebástian Lelio, vencedor do Oscar por Uma Mulher Fantástica, passou como uma leve brisa no cinema comercial. Contudo, foi uma presença forte no circuito de festival.

A obra protagonizada por Rachel McAdams e Rachel Weisz não viu a luz do dia nas salas comerciais em território luso, mas teve a oportunidade de ser projectada na última edição do festival Queer, como um dos principais destaques de programação.

Embora possa ser acusado de alguma moleza e falta de ritmo, Disobedience triunfa em diversos campos. O trabalho feito sobre a tensão, é, provavelmente, o que de mais notável se retira. Na narrativa, uma mulher regressa à sua comunidade judaica, fechada e opressiva, para um funeral. Aqui, retoma o contacto com a sua antiga melhor amiga, que sempre fora um pouco mais do que isso. Um filme sobre fé, proibição, traição, pecado e os limites das paixões. Um mundo claustrofóbico abate-se sobre o espectador. Vale, antes de tudo, por esta dinâmica ligada à religião e pelas duas impecáveis prestações por parte de McAdams e Weisz.

8 – A VIDA DE ADÈLE: CAPÍTULOS 1 E 2 (2013)

La Vie D'Adele

A Palma de Ouro de 2013 foi também um game changer. A obra de Abdellatif Kechiche deu que falar por esse mundo fora, inclusive tendo beneficiado de uma significativa promoção nos Estados Unidos, sob o título de Blue is the Warmest Color. Sem dúvida um filme longe de perfeito, com alguns problemas óbvios identificados por muitos, como a visão heteronormativa do sexo entre mulheres, presente no filme.

Apesar de possíveis pecados identificáveis, La Vie D’Adèle é, no mínimo, poderoso. As suas três horas transportam-nos numa jornada, uma que nos faz crer que as personagens Emma e Adèle são, de facto, de carne e osso. Na minha perspectiva, é tudo o que podemos exigir de um bom e sólido romance.

No papel de Adèle, Adèle Exarchopoulos, uma força da natureza, comanda o ecrã. Tanto esta como Léa Seydoux foram recompensadas pelas suas prestações com a Palma para Representação. Assinalou-se a primeira vez que o prémio foi atribuído a dois intérpretes no mesmo filme. Pouco discutível, este mérito.

Quando conhecemos Adèle, esta é ainda uma jovem estudante de secundário. Quanto conhece a rebelde Emma, tudo muda na sua vida. Começa o seu coming of age tale, e a sua descoberta sexual e romântica. A história dilata-se ao longo do tempo, até a um ponto onde conhecemos uma outra Adèle e Emma, mais adultas, mas igualmente intrigantes.

 

9 – TRANSAMERICA (2005)

 

Fonte: IMDB

Surpreendentemente, descobrimos com esta lista que 2005 não foi nada um ano de se deitar fora, no que a temática LGBTI no cinema diz respeito, pelo menos. Felicity Huffman ficou conhecida mundialmente através do seu papel central na série televisiva Donas de Casa Desesperadas (2004) . Contudo, foi a sua prestação em Transamerica que lhe permitiu conquistar o verdadeiro reconhecimento crítico e um sem fim de nomeações a premiações de relevo, entre elas o Oscar da Academia.

Transamerica é um objeto cinematográfico bastante inofensivo. Não num sentido pejorativo, é apenas uma história simples, mas que o pedia para ser contada. Um conto de laços familiares, uma road trip de descoberta pessoal. Conhecemos Bree Osbourne, uma transexual que finalmente viu o seu pedido de operação de mudança de sexo aprovada, para corporizar finalmente a mulher que sempre sentiu ser. Uma semana antes da operação, conhece um filho adolescente que não sabia ter. As suas vidas ficam inevitavelmente ligadas. Embora não seja um dos títulos mais fortes da lista, marca, acima de tudo, por Huffman.

 

10 – MOONLIGHT (2017)

Moonlight

 

O vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2018 é mais um daqueles casos de uma obra que pode, ou não, enquadrar-se no âmbito desta lista. Neste caso, tudo depende do ângulo de quem vê. Ao fim de contas, não é um filme de temática. É a história de Chiron. Muito mais do que uma história sobre uma sua orientação sexual, é antes uma sobre identidade: identidade familiar, identidade racial, sócio-económica, e , por extensão, sexual.

Moonlight é senão uma epopeia, uma viagem ao longo de uma vida. Acompanhamos Chiron até à idade adulta, e até ao momento em que começa a conseguir localizar-se no mundo. Uma tarefa árdua, um pedaço de vida honrado com uma merecida avalanche de prémios e reconhecimentos diversos.

11 – CAROL (2015)

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Carol é uma história de amor e um relato sobre preconceito. É uma narrativa que nunca pretende exacerbar os sentimentos que exprime, e que na sua quietude os consegue expressar de forma sublime, delicada, cuidada. Como se olhássemos o mundo através de uma pintura imaculada.

Todd Haynes, realizador de Longe do Paraíso (2002), cria aqui a sua obra-prima, cujas subtilezas conseguirão resistir ao teste do tempo. Talvez um exagero entusiasta, a verdade é que Carol, um drama romântico situado nos anos 50, conseguiu agradar a gregos e troianos. 

Neste passado pouco longínquo, somos confrontados com várias camadas de “escândalo”. A infidelidade de uma mulher casada, a relação amorosa entre duas mulheres e ainda a diferença de idades existente entre este par de amantes.

Carol, uma espantosa Cate Blanchett, está presa num casamento de conveniência. Eis que conhece Therese Belivet (Rooney Mara), uma jovem que trabalha numa loja de roupa em Manhattan. A conexão é instantânea, mas também o são os antagonismos múltiplos, que colocam em causa família e amizades. O filme de Haynes é inebriante e protagonizado por dois pesos pesados da representação em Hollywood.

12 – PARIS IS BURNING (1990)

Fonte: IMDB

O único filme que aqui deixo no formato documental, e também o que mais recua em termos de décadas, é senão um objeto de culto que assinala uma herança inegável. Paris is Burning, atualmente uma referência comum, e um filme disponível, inclusive, no catálogo da plataforma de streaming Netflix, desempenhou em tempos uma função muito diferente.

E que função era essa? A de ilustrar um mundo completamente distinto, de outcasts. Antes de RuPaul Charles e da parada infinita das suas “Rugirls”, existia já a cultura drag das ruas de Nova Iorque, que deu origem a todo esse universo fascinante.

Em Paris is Burning somos introduzidos à cena drag dos anos 80, os famosos “balls”, o famoso estilo de “voguing” e aos sonhos e ambições daqueles que povoavam este mundo. Conhecemos um mundo que parece inserir-se numa outra atmosfera, um mundo fascinante que muita metamorfose sofreu ao longo das últimas décadas.

13 – TANGERINE (2015)

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Sean Baker já mostrou ser muito mais do que uma promessa no circuito indie norte-americano. A sua consagração solidificou-se com The Florida Project (2017), mas foi com este Tangerine que se afirmou no panorama.

É um marcante retrato da falência do sonho norte-americano. Acompanhamos, na narrativa, uma prostituta transgénero que procura o seu namorado, em Hollywood, na véspera de natal. Marcando pelo forte contexto sócio-económico, pelas temáticas fortes, a obra de Sean Baker destacou-se ainda através da sua inovação tecnológica. O filme foi gravado recorrendo única e exclusivamente a Iphone’s 5s. O seu orçamento ficou abaixo dos 100,000 euros, mas não é por isso que não se apresenta como um marco no cinema independente.

 

14 – OS RAPAZES NÃO CHORAM (1999)

Fonte: Searchlight Pictures

Em 2000, Hillary Swank venceu o seu primeiro Oscar para Melhor Actriz ao encarnar o papel de Brandon Teena, um transexual do Nebraska, nascido Teena Brandon. A sua vida é bastante satisfatória, até ao momento em que o seu segredo é revelado.

Boys Don’t Cry, no original, é, infelizmente, a narração de uma história verídica, que termina com o nosso protagonista a ser espancado e morto num acto de homofobia. Torna-se, assim, um objeto pertinente para o mês do orgulho gay. Argumentável é o facto e que uma mulher cisgénero e heterossexual protagonize esta obra, mas, ao fim de contas, um ator é um veículo para contar uma história, e Swank é um veículo para lá de eficaz.

 

15 – UMA MULHER FANTÁSTICA (2017)

Fonte: Sony Pictures Classics

Fechamos com o quarto filme do belo ano de 2017. A obra chilena Uma Mulher Fantástica venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018, depois de estrear em Berlim e encantar meio mundo.

Encabeçado pela transexual Daniela Vega, o filme traz-nos a história de Marina, uma mulher transexual que trabalha como empregada de mesa de dia, e cantora de bar de strip à noite. A sua vida é abalada pela morte do antigo namorado.

Num ano que se mostrou fortíssimo no que à temática LGBTI diz respeito, nos Oscars de 2018, Vega foi a primeira pessoa transexual a apresentar em toda a história da cerimónia. Coube-lhe a honra coincidente de introduzir a atuação de Sufjan Stevens, com Mystery of Love, de Call Me by Your Name, música indicada na categoria de Melhor Música Original.