Se existe destino, então o de Martim Alvarez é partilhar. O jovem criativo sempre ambicionou partilhar histórias, experiências e memórias. Partilhar visões, devaneios e intenções. Quando esse desejo crescente já não cabia mais dentro dele, colocou-o numa revista.

A sua maior ambição é fazer o outro refletir sobre algo que nunca sequer havia sido pensado. Por isso é que se alegra quando, através da revista de moda VEXO, consegue dar a conhecer ao leitor um projeto inédito ou pô-lo a matutar sobre uma ideia que lhe fora estranha até aí. E é também por isso que Martim se delicia perante um membro da equipa um fotógrafo, ilustrador, designer gráfico, maquilhador ou assistente que finalmente tem a oportunidade de fazer algo que sempre quisera fazer, mas nunca pudera.

«Fico mega satisfeito [com essas situações] porque, na realidade, o meu trabalho é partilhar. Sempre foi, desde pequeno.»

Quando era novo, passava tardes a fazer caramelos para depois os vender. O interesse em partilhar era grande e a curiosidade em saber como os outros recebiam aquilo que ele criava ainda maior. «É claro que, quando eu era só uma criança a fazer caramelos, isso acontecia de forma super ingénua», confessa.

Contudo, só na década seguinte Martim conseguiu ver os frutos que esse interesse pela partilha poderia trazer. Foi no número 00 da VEXO, publicado em maio de 2018, que o diretor criativo se lançou com toda a sua pujança para o mundo das revistas de moda. E embora se possa considerar um protótipo — era uma revista de moda que promovia modelos de uma agência —, Martim adorou ver as suas visões artísticas impressas no papel e expostas à interpretação de qualquer um. Nesse momento, testemunhou o verdadeiro poder que poderia ter sobre este mundo: «Gostei imenso de ver o produto final e de — lá está aquela coisa outra vez — poder partilhá-lo com as pessoas.»

Para o fundador, a melhor parte de ter uma revista como a VEXO nem é poder eternizar as suas ideias em papel ou ganhar popularidade entre os aficionados da moda e da arte. Ao invés, «a melhor parte da VEXO é partilhar o trabalho», confia. Ela é uma plataforma para a partilha de experiências e esta edição, uma autêntica viagem pelo património, não fica aquém desse objetivo. Nela, é o património nacional que é partilhado: memórias da nossa vida, da vida dos outros, da vida de um país.

A fim de construir este número, todos os membros da equipa e colaboradores da revista sondaram os confins das suas mentes (e corações) em busca de momentos do passado, sobretudo daqueles que vieram de Portugal. No caso de Martim, mesmo que este tenha revisitado as suas raízes nacionais para inspirar esta edição, o criativo não se considera especialmente patriótico. Ou se o é, é-o de forma irrefletida. A sua afeição ao país de origem nunca foi cogitada, simplesmente cresceu e cresceu de forma inconsciente, quase pueril, a partir de um enamoramento constante pelas pequenas coisas do dia a dia. Um amor assim um bocadinho à Alberto Caeiro.

Na idade da inocência, apaixonou-se pelas coisas simples e belas de Sabugo. Dessa aldeia no concelho de Sintra onde viveu a sua infância, recorda as festas das Lavadeiras e as idas a um campo de tiro perto de sua casa. «O meu contacto com o património e com as tradições esteve sempre bastante presente», conta.   

Da mesma forma se enamorou pelas tesouros escondidos de Lisboa, a metrópole frenética onde completou o ensino secundário e onde se manteve até ir para a faculdade —  à exceção de um ano em que foi viver para casa da mãe, em Oeiras. É da capital que Martim também retira grande parte das suas inspirações. A partir de uma simples viagem de autocarro, de uma ida até à Baixa ou de um olhar sobre uma pessoa vestida de determinada forma pode criar-se um mundo. «Estes são conjuntos de momentos que eu criei em Lisboa e que conseguem ajudar a criar um editorial ou uma ideia de styling», explica o jovem de 20 anos.

Todavia, Martim não se ficou pela cidade das sete colinas. Ainda morreu de amores por Castelo Branco, a urbe não-tão-urbana para a qual foi tirar o curso de Design de Moda e Têxtil da Escola Superior de Artes Aplicadas (ESART), no Instituto Politécnico. «Lembro-me da primeira coisa que disse aos meus pais quando cheguei: “Estou a gostar imenso, voltei às raízes.”» Não demorou a tirar partido do meio mais pequeno: «Comecei a ficar entusiasmado com o curso, que é ótimo, e fui-me refugiando nas coisas boas da cidade.» A província despertou nele, de um modo que o próprio nem sabe bem explicar, uma maior estima pelo país. «Não consigo dizer porque senti isso em relação a Castelo Branco, mas fez-me valorizar mais as coisas a nível nacional, tanto o passado como o presente.» Meses depois, a cidade passa a ocupar um espaço privilegiado na mais recente publicação da VEXO. martim vexo mag património

Em todos estes lugares, encontram-se heranças que foram deixadas não só a Martim, mas a muitos outros. Tudo isto é património, esta coisa de bens herdados ao longo do tempo por parte de um alguém individual ou coletivo. E são estas coisas, que lá estiveram sempre, mas que nos esquecemos de apreciar, que Martim procura que sejam valorizadas. «Saber que consegui despertar uma memória ou criar uma pesquisa em relação àquilo que foi o passado é belo», observa.

Ficarias contente se as pessoas te dissessem que esta edição as fez, de algum modo, voltar às origens?

Claro, quantas mais recordações e memórias a VEXO conseguir trazer aos outros com este issue, melhor. É sinal de que conseguimos atuar nos outros de forma positiva, levando-os a pensar em alguma coisa do seu passado, algo que não aconteceria se não tivessem tido contacto com a revista. Por exemplo, já é bom saber que a Filipa (fotógrafa do editorial “Ave”) conseguiu pensar que, quando era pequena, via o rio Ave das cores da moda por causa da poluição, e que ela se lembrou disso a partir do momento em que eu disse que queria fazer uma sessão com um aquário.

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O editor da revista ainda nota que também os restantes membros da equipa foram confrontados com realidades que lhes eram desconhecidas: «Houve sempre uma visão muito livre que os levava a fazer coisas que não eram pensadas», diz. Assim, nesta edição, a espontaneidade e a irreflexão o domínio não das coisas pensadas, mas sentidas — foram os motores do processo de criação. «Há uma coisa que defendo e sempre defenderei: a melhor fotografia é feita a partir de momentos dos quais não estávamos à espera», ressalta. Destes improvisos acabaram por ser concebidos editoriais inteiros que resgatam a ideia de património, espécies de odes visuais às memórias individuais e coletivas.

E mesmo que o desafio fosse entusiasmante, o editor-chefe da VEXO nunca encarou a tarefa de remodelar (e revalorizar) elementos patrimoniais portugueses levianamente. Estando a trabalhar com tradições, acredita que «existe a responsabilidade de apresentar [o património] de forma cuidada» e, deste modo, para que o trabalho de reformulação não caísse no domínio da sátira, tratou-o com seriedade. “Tive sempre cuidado para que este fosse entendido como forma de respeito”, assegura.

Mas isso não impediu Martim de, na sua exploração pelas várias configurações do património, pôr à prova os limites da temática. «O objetivo foi também esticá-la ao máximo, perceber até onde é que ela pode ir», admite. Em relação à moda, o raciocínio é o mesmo. Quando era pequeno, nunca conseguiu canalizar todo o seu amor para a área, até porque outros interesses, como as ciências e as línguas, dificultavam o processo. «Quando era criança, lembro-me de querer ser imensas coisas diferentes. Passava tardes a ir à procura de insetos ou a fazer caramelos para depois os vender», recorda.

Entretanto, anos passaram e ao ingressar no campo das artes ainda em adolescente começou a desempoeirar os vários caminhos que a moda lhe ia revelando. Ganhou bases nos domínios da fotografia, styling, direção criativa e media e hoje faz o seu próprio caminho.

«Há uma certa distância que mantenho da moda, mas é porque eu quero. Se eu quisesse, estava a fazer editoriais para outra entidade e não a criá-los, a criar uma estética e um universo. Porque, na realidade, é isso que eu quero: um universo único», confessa.

A verdade é que Martim não se revê na moda de moldes predifinidos. Assim, esticando ao máximo os limites da indústria, decidiu criar o seu próprio universo: o universo VEXO. Daqui em diante, continuará a trilhar o seu próprio caminho e, pelo menos por agora, espera que este se faça ao lado da revista que fez nascer.