Por detrás da rotina em que vivemos, somos todos um pouco frágeis. Pode custar admitir, mas é a mais pura das verdades. A mais recente série ‘Frágil’ do RTP Lab prova-nos isso mesmo — por detrás de uma vida aparentemente pacata está a mais pura das fragilidades. E não há mal nenhum nisso.

Foi no passado mês de maio que a série da RTP, em colaboração com a produtora ‘Comicalate’, estreou na plataforma Youtube e RTP PLAY e começou a gerar furor. A série, exclusivamente dedicada e emitida em formato online, rapidamente chamou a atenção de muitos. Realizada por Filipa Amaro, ‘Frágil’ é uma série sobre três raparigas que vivem em Lisboa num pequeno apartamento e que aparentam ter uma vida absolutamente normal.

Maria Miguel (Catarina Secca Cruz), Francisca (Rita Rocha Silva) e Sofia (Matilde Jalles) têm muitos sonhos por realizar, mas por detrás desses sonhos escondem-se os monstros que as assombram. No auge dos seus 20 e poucos anos, questionam-se se já era suposto ter atingido algo mais nas suas vidas e mergulham diariamente na frustração. Esta é uma série que dá a solução para todos os que não sabem o que fazer com os seus pequenos dilemas: o melhor remédio é sempre rir. Com uma banda sonora que presta homenagem a muito do que é nacional, ‘Frágil’ é passagem obrigatória para todos nós.

“O meu medo é morrer um talento desperdiçado”

É assim que Maria Miguel se apresenta, dizendo em voz alta o que todos nós já pensámos em algum momento da nossa vida. Maria ou “M&M para os amigos mais próximos”, tem 26 anos e sonha ser atriz. A sua vida é feita de casting em casting, numa luta constante entre o que esperam dela e as expectativas a que Maria se propõe. Farta de um mundo onde as atrizes são lentamente substituídas por modelos, luta para que a formação que teve aliada à paixão pelo teatro lhe sirvam de rampa de lançamento.

 

Esta é uma dura crítica que a série faz ao meio artístico, aquele no qual uma atriz boa (por muito magra ou bonita que seja) é facilmente rejeitada por não ser modelo, conhecida ou “parecida a uma ex-mulher”. A vida de Maria Miguel muda, no entanto, quando conhece Pedro (Pedro Ferreira) através de um outro ator (interpretado por Mauro Hermínio). Ele, comediante, ensina-a a relativizar um pouco o que a rodeia, retirando-lhe um pouco do cepticismo que a luta pela profissão lhe deu.

“Os psicodélicos são para a mente humana o que o telescópio foi para o espaço”

Francisca vive entre a euforia e a depressão. É uma rapariga cheia de talento com inúmeros quadros pintados espalhados pelas paredes e pelo chão da sua pequena casa lisboeta. É doce, mas ao mesmo tempo completamente caótica e imprevisível. Como qualquer génio artístico, vive no limiar do abismo com um fascínio imenso por ele.

Droga é para Francisca o que o absinto era para Fernando Pessoa. Já teve algumas experiências com substâncias ilícitas o que a levaram a carregar consigo muitos fantasmas do passado. Nestes fantasmas entra Alba (Filipa Amaro), a amiga com quem Francisca passou muitas noites sem dormir e que a certo momento também se junta ao grupo.

Não consegue pintar sem aquele copo de vinho ou outra coisa que lhe permita um pouco de auto-destruição. Esta personagem é uma montanha-russa de emoções à qual nos afeiçoamos facilmente apesar da loucura (ou do namorado de 45 anos, também bastante imprevisível, Fernando).

“Nós fomos felizes não fomos?”

Sofia admite com todas as letras que não quer morrer sozinha. Até chegar a Lisboa, vivia a vida perfeita — era estudante em Coimbra, tirou o mestrado em Marketing e tinha um namorado com quem sonhava casar. Isto tudo até descobrir que ele a estava a trair e decidir fugir para Lisboa acabando na casa da prima, Maria Miguel. A sua vida levou uma autêntica volta de 360 graus. Para além da vida amorosa fracassada, Sofia já não quer seguir marketing: quer ser escritora. Mas a angústia profissional não é o que mais a preocupa — Sofia tem dinheiro e não pagar as contas não lhe tira o sono. O que lhe tira o sono é o medo da solidão.

 

O ponto tabú da vida de qualquer pessoa solteira: a solidão. Sofia namorou sete anos com o rapaz com quem julgava vir a casar. Uma das cenas  mais marcantes da série é a última discussão entre a personagem e o seu companheiro. Nesta discussão cada argumento funciona como um murro literal, sendo que no fim cada um termina com marcas de sangue bem visíveis. Sofia teme que o seu grande amor já tenha passado, que os “melhores anos das suas mamas” tenham sido desperdiçados num amor que resultou em nada e a deixou com mais incertezas do que autoconfiança. A angústia da solidão é o seu principal fantasma e aquele que a persegue seja em Coimbra ou em Lisboa (e perseguirá até conseguir encontrar um novo caminho).

Ser frágil é assim tão mau?

Não, ser ‘Frágil’ não é mau. Ser frágil é viver mesmo que todos à nossa volta nos digam “não”. Ser frágil é acordar e tentar encontrar um significado no meio da nossa minúscula existência. É acreditar que existe um louco algures na outra ponta do mundo que pensa como nós e que talvez o consigamos encontrar. Mas é também uma enorme e constante incógnita. É não saber se amanhã temos trabalho. É não saber se temos que voltar para casa dos nossos pais. É ter pavor da rejeição e agir de forma impulsiva. E ainda assim, acreditar que ser ‘Frágil’ é a única forma de sobreviver nos nossos loucos anos vinte.

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