Martim Alvarez: Na cultura portuguesa nada se cria, nada se perde, tudo se transforma

Hoje, Martim Alvarez, o editor-chefe da revista de moda VEXO, pode orgulhar-se de ter lançado uma edição exclusivamente dedicada às coisas que vamos herdando ao longo do caminho. Com Património, Martim mostra-nos como é que os bens legados pela cultura portuguesa podem ser desconstruídos e, sob o olhar fresco de criativos nacionais, reformulados para gerar algo totalmente novo, tanto na moda como na arte.martim vexo

Até se pode dizer que esta edição é uma certa partilha de experiências patrimoniais, não?

Ou momentos. Momentos da história, da minha vida, da vida dos outros. É isso que acontece. E acho que é exatamente isso que vai acontecer ao observador da VEXO: o novo issue trará várias memórias. Haverá uma valorização gigante do património, espero eu.

O número 02 da VEXO leva-nos de volta às raízes: através de cinco editoriais de moda, nascem várias  interpretações daquilo que é o património, nas suas formas material e imaterial. Mas de que se faz o património nesta publicação? De momentos da história nacional, mas também de momentos da vida de cada um. Ler esta edição é, pois, como ler uma biografia, de outros e de nós próprios. Nesta medida, forma-se algo muito intimista entre o património e quem o trabalha, tanto nos momentos de criação para a equipa como nos momentos de consumo final para o leitor. «Este issue relaciona-se com o património, mas olha para um lado muito íntimo e pessoal do mesmo», revela Martim.

Para ele, é importante esta partilha de experiências interiores e exteriores, tanto por parte do público como por parte de todos aqueles que colaboram em cada edição da revista. É, igualmente, através desta sinergia entre jovens designers nacionais e internacionais e uma equipa criativa portuguesa, cada um trazendo as suas particularidades para os diversos projetos, que se pode  atualizar aquilo que é tradicional. Esta edição é «uma visão fresca aplicada àquilo que acontece em Portugal», conclui.

martim vexo mag património
Antigos cartões de visita de várias cidades e momentos do dia a dia em Castelo Branco foram algumas das inspirações para a publicação.

Para o criativo, os lusitanos são um povo que guarda a sua história muito perto do coração: «Nós, portugueses, temos um cuidado muito grande com aquilo que sentimos e com as nossas recordações». Para os jovens designers nacionais cujos trabalhos são inspirados nas suas raízes e memórias está reservado um lugar especial: aos olhos de Martim, são eles que podem dar a conhecer diferentes visões sobre a recuperação da cultura tradicional na moda portuguesa.

LÊ TAMBÉM: MODALISBOA LEVA A PARIS MARCAS NACIONAIS PARA UM SHOWCASE INTERNACIONAL

Como temos visto, a modernização daquilo que é tradicional não é um conceito novo e já nas últimas edições do maior evento da moda nacional a ModaLisboa tem mostrado o seu poder nas passarelles: falamos, por exemplo, da reinterpretação de Constança Entrudo do Bordado Madeira, que foi adaptado a novas cores, padrões, materiais e técnicas; das homenagens de Filipe Augusto aos “fatos domingueiros” que nos lembram das suas origens reguenses; dos vestidos e saias românticos com que Rita Carvalho nos contou histórias de vida; ou das criações de Alexandra Moura inspiradas nas suas recordações da casa dos avós em Trás-os-Montes.

REGRESSAR AO PASSADO PARA CRIAR O PRESENTE

A verdade é que o amor pelo património nacional, para Martim, é um amor criado lentamente, como quem escreve uma biografia página a página. E o mais recente número da VEXO é exatamente isso: um livro de memórias, memórias essas que se deslocam da mente e do coração dos criadores para obras de arte futuras. Haverá aqui uma certa reciclagem? A VEXO não seria VEXO sem reformular a identidade de diversos assuntos e objetos e é por isso que, como esclarece o diretor criativo, também no número 02 «houve um assunto-base que foi pensado, desconstruído e reformulado». É curioso como forçar um olhar mais demorado sobre as influências que vimos adquirindo com o passar do tempo pode levar-nos a construir novas experiências estéticas que, eventualmente, se tornarão também património. Mas não será a moda isso mesmo? A constante renovação?

E porque acredita que a cultura portuguesa também se reestrutura sem cessar, Martim descarta a ideia de que, mesmo num mundo cada vez mais globalizado, a mesma se está a perder.

«Criam-se novas formas de criar e pensar a toda a hora, mas as tradições estarão sempre muito presentes. Não concordo nada com a história de se estar a perder o que quer que seja. Vais ter sempre alguém para te relembrar…nem que seja só uma pessoa.»

Nesta medida, na cultura portuguesa as coisas funcionam um bocadinho como a lei da conservação das massas de Lavoisier: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. E enquanto cá estivermos, assim será para sempre.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Catarina Furtado
Catarina Furtado procura histórias inspiradoras em novo programa da RTP