A quinta temporada de Black Mirror estreou esta semana, na Netflix. As histórias perturbadoras sobre os perigos da tecnologia estão de volta para provocar reflexões sobre o nosso futuro…e não só.

Pela primeira vez desde que foi adquirida pela companhia de streaming, a série regressa à estrutura original de três episódios. Charlie Brooker escreveu todas as narrativas totalmente a solo, algo que também ainda não tinha acontecido desde a mudança para a Netflix.

Espalha-Factos propõe-te uma viagem pela nova temporada. Já que cada capítulo é uma história isolada e com um estilo particular, vamos analisar cada um individualmente.

No final, tentaremos concluir o que há de melhor e de pior e quais as semelhanças e diferenças entre cada episódio.  Chegou a altura de mergulhar, mais uma vez, no(s) universo(s) de Black Mirror.

O artigo pode conter spoilers

Episódio um: Striking Vipers

Danny (Anthony Mackie) tem uma vida típica de homem casado com a sua mulher Theo (Nicole Beharie) e o filho de ambos, Tyler. Karl (Yahya Abdul-Mateen II), um amigo antigo do casal, aparece no aniversário de Danny com uma oferta: Striking Vipers X, um jogo de luta de realidade virtual.

Para celebrar os bons tempos, Danny e Karl testam o jogo nessa noite. A meio da sessão, um acontecimento inesperado vai colocar o casamento de Danny e Theo em risco.

Lê também: THE GOOD PLACE: QUARTA TEMPORADA VAI SER A ÚLTIMA

Striking Vipers é o episódio típico de Black Mirror. Uma tecnologia usada numa situação chocante, mas, simultaneamente, plausível, que impõe desafios morais às personagens. O melhor da narrativa é mesmo o duelo psicológico de Danny entre o amor por Theo e os efeitos viciantes das sessões de jogo com Karl.

Black Mirror

Fonte: Netflix

A tecnologia de realidade virtual apresentada na história não é muito futurista. Aliás, o elemento mais assustador do episódio é a proximidade que o nosso mundo tem com este cenário. Daqui a uma década, poderemos muito bem chegar lá.

Quando é que a ficção começa a ser demasiado real? É uma das questões mais pertinentes de Striking Vipers, enquanto também reflete sobre a viabilidade do casamento e a tentadora obsessão pela escapatória de uma vida virtual superior à verdadeira.

Todos os atores são excelentes, em particular Mackie e Abdul-Mateen II. O dilema de Danny e a solidão desesperada de Karl agarram o espetador e criam interesse para um desfecho incerto.

Por falar em desfechos, esses costumam ser dos pormenores mais fracos de Black Mirror. O primeiro episódio conclui de uma forma provocadora, se bem que demasiado ideal para o que a série nos habituou. Não é mau nem totalmente satisfatório, ficando-se por um meio termo respeitável e que deixa mais perguntas do que resposta, o que neste caso é positivo.

Nota: 8/10

Black Mirror

Fonte: Netflix

Episódio dois: Smithereens

A segunda parte da quinta temporada passa-se no nosso tempo. Sem elementos futuristas, a única diferença desta realidade é que a Uber chama-se Hitcher, o Facebook é o Persona e em vez do Twitter temos o Smithereens.

Os paralelos estabelecidos são propositados, visto a história ser uma crítica aguda às aplicações que habitam os nossos telemóveis. Chris (Andrew Scott) é o protagonista trágico desta parábola do século XXI. Por razões desconhecidas, a personagem decide fazer refém um empregado da Smithereens até que o criador da mesma fale diretamente com Chris. O que se segue é uma hora fenomenal de tensão.

Lê também: ‘CHERNOBYL’: O QUE É REAL E O QUE É FICÇÃO NA SÉRIE

A  dor e instabilidade mental da personagem deve-se, no fundo, às redes sociais. É difícil escolher um lado e muito se deve à interpretação exímia de Andrew Scott. O ator torna impossível a decisão de apoiar Chris ou as forças da Lei que tentam impedir as suas intenções. O protagonista é uma figura empática e um espelho deprimente das piores consequências da tecnologia.

Black Mirror

Fonte: Netflix

O enredo de Charlie Brooker e a realização de James Hawes brincam magistralmente com a ansiedade do espetador. A corrida contra o tempo de todos os elementos da narrativa torna cada minuto deste episódio imperdível e, potencialmente, decisivo.

Para além do drama e do suspense, existe ainda espaço para o humor negro. As alfinetadas às redes sociais são hilariantes na sua subtileza e trágicas na sua ironia. A maior crítica é direcionada à privacidade cada vez mais frágil do mundo virtual. O episódio apresenta um contraste em específico que é totalmente ridículo e, infelizmente, bastante realista.

Smithereens é, sem dúvida, o melhor episódio da quinta temporada e um dos melhores de Black Mirror. A sua execução é impecável em todos os aspetos e a mensagem principal deixará vontade de tirar um retiro espiritual da Internet.

Nota: 9.5/10

Black Mirror

Fonte: Netflix

Episódio Três: Rachel, Jack and Ashley Too

Para último fica o episódio que, inicialmente, despertou mais interesse. Sim, Miley Cyrus tem mesmo um papel principal em Black Mirror. Sim, é uma boa atuação, aliás, é mesmo a melhor desta história.

Rachel (Angourie Rice) e Jack (Madison Davenport) são duas irmãs que perderam recentemente a mãe. Rachel tem inseguranças que a impedem de fazer amigos na nova escola. Um dia, a sua ídola de música pop, Ashley O (Miley Cyrus), lança uma boneca de inteligência artifical com a sua mente, denominada de Ashley Too. O brinquedo passa a ser a única companhia de Rachel.

Lê também: VEM AÍ UMA SÉRIE QUE DÁ VIDA À OBRA DE DAN BROWN: CHAMA-SE LANGDON

Na realidade, Ashley está deprimida por ser obrigada a promover uma imagem superficial de positividade. A sua tia e agente inventa um plano para impedir que a artista se revolte e ponha em causa o negócio lucrativo.

Fonte: Netflix

O episódio tem duas partes distintas. A primeira metade foca-se no dia-a-dia das irmãs e mostra a crise de identidade de Ashley, enquanto a segunda cruza os destinos das três personagens.

O maior problema da narrativa é o ritmo lento e desinteressante da parte inicial. Rachel e Jack não são personagens interessantes, nem propriamente bem desenvolvidas. Há um grande foco na vida da dupla, mas são as pressões da imagem artística de Ashley que tornam a história cativante.

A segunda metade é uma melhoria assinalável e apresenta uma aventura divertida. A boneca com a voz de Miley Cyrus tem um charme caricato e é, de longe, o maior destaque do episódio.

Black Mirror

Fonte: Netflix

Mesmo assim, fica-se com a sensação que o tom da narrativa não encaixa bem em Black Mirror. Parece um episódio de uma típica série para adolescentes, tendo ligeiramente mais conteúdo futurista que o normal.

A componente tecnológica é uma boa ajuda para o episódio, pois ideias como a superficialidade da indústria musical, a obsessão dos fãs com a imagem e a forma como a tecnologia pode substituir artistas verdadeiros ajudam a dar valor ao enredo. Infelizmente, estas dúvidas não são exploradas tão bem como a série nos habituou.

Nota: 6.5/10

Lê também: THE HANDMAID’S TALE: O QUE ESPERAR DA NOVA TEMPORADA

O Futuro aproxima-se

Feitas as contas, a quinta temporada de Black Mirror é, à imagem das outras iterações de três episódios, um pouco desiquilibrada. Mesmo assim, a qualidade dispersa não foge para o negativo e ver tudo seguido é uma boa sessão para passar o tempo.

Como sempre, algumas ideias eram certamente mais apelativas no papel do que no produto final. Não obstante, até as execuções mais fracas têm pontos de interesse.

No seu todo, o quinto conjunto de histórias é muito bom, especialmente dois dos seus terços. A temporada tem solavancos, mas o percurso é, na globalidade, absorvente e provocativo, bem ao estilo da série. Smithereens é das melhores horas de televisão de 2019.

Fonte: Netflix

O mais perturbador é a proximidade dos três episódios com a realidade. Já estivemos em simulações, mundos distópicos e até em multidimensões. A quinta temporada prefere mostrar um futuro que fica já ao virar da esquina.

A realidade virtual de Striking Vipers é o que a própria indústria deseja alcançar, as redes sociais de Smithereens dominam o nosso mundo e os hologramas de cantores de Rachel, Jack and Ashley Too começam a ser mais frequentes.

Lê também: GUIA ‘CHERNOBYL’: COMO SER UMA DAS MELHORES SÉRIES DE SEMPRE EM CINCO EPISÓDIOS

Charlie Brooker parece preocupado com as potencialidades perigosas do que está prestes a chegar. O Futuro que muitos sonharam durante décadas é cada vez mais o nosso Presente. Por isso, o reflexo obscuro de Black Mirror é mais pertinente que nunca.

Black Mirror: Quinta Temporada
Questões Pertinentes e ProvocadorasBoas interpretaçõesParalelos com a RealidadeAdequado a Binge-Watching
Falhas na Execução de Certas IdeiasTerceiro Episódio Abaixo da Média
8Muito Bom