As Mulheres Que Desafiaram O Congresso: “Para uma conseguir, cem têm de tentar”

Se o Estado não serve as pessoas, não é feito pelas pessoas, então a quem é que pertence? Provavelmente esta pergunta é demasiado retórica, mas não devemos desistir de questionar. E esta questão não nos sai da cabeça durante As Mulheres Que Desafiaram O Congresso.

Neste documentário eletrizante de Rachel Lears, acompanhamos o percurso de quatro candidatas às primárias democratas rumo às Eleições Intercalares de 2018. Todas têm algo em comum: querem voltar a trazer os problemas das pessoas para o centro da política norte-americana.

De todas as quatro, Alexandria Ocasio-Cortez acabou por tornar-se a protagonista inevitável e carismática estrela do documentário e do movimento progressista norte-americano, mas esta não é uma história de super-heróis.

As outras mulheres que contam são Amy Vilela do Nevada, que perdeu a filha por não haver um sistema de saúde universal nos Estados Unidos, Cori Bush, enfermeira negra que vive a cinco minutos da fatídica Ferguson, no Missouri; e Paula Jean Swearengin, que afirma que se um outro país envenenasse tanto o ambiente como a indústria de extração de carvão o faz na Virginia, já havia uma guerra. Elas as três, as personagens secundárias desta história, não foram eleitas, mas representam a voz simples dos cidadãos de todos os dias, que tem estado tão longe dos grandes palcos da política mainstream. Infelizmente não só nos Estados Unidos.

As Mulheres Que Desafiaram O Congresso

Fotografia: Netflix / Divulgação

Todos podemos

Todas elas são mulheres. E relembram-nos: É exigido tanto a uma mulher, na hora de aparecer em público: a roupa, o cabelo, a maquilhagem, começar com um sorriso. E estas mulheres, além de tudo isso, quando discursam têm a força das ideias. Isso faz-nos esquecer das inseguranças, dos medos, de toda a escalada que fizeram para alcançar o direito a falar, a disputar um lugar. Um dos talentos de quem nos conta estas histórias em As Mulheres Que Desafiaram O Congresso é fazer-nos sentir que todos nós podemos pegar, chegar-nos à frente e assumir uma posição em prol daquilo em que acreditamos. Mesmo sabendo que podemos perder. Com estrondo.

E, no contexto norte-americano, isso é o mais fácil de acontecer. As campanhas são financiadas por privados e há interesses e lobbies gigantes a quererem manter tudo na mesma. As quatro candidatas, apoiadas pelas organizações Brand New Congress e Justice Democrats representam movimentos populares, alimentados por pequenas doações cidadãs. E vemos, neste documentário, como pequenas organizações têm de combater máquinas gigantes e oleadas. E isso é visível em todas as pequenas vitórias e nas avassaladoras diferenças de dimensão.

Alexandria Ocasio-Cortez tornou-se uma sensação e uma estratega política. E aqui vemos como tudo começou: Desde que aceitou concorrer até ter aprendido a fazer campanha porta-a-porta, nomeada pelo irmão para a campanha e vinda diretamente de um trabalho num bar. E, neste caminho, é mesmo uma perda de tempo tentar negar o seu carisma ou a química telegénica com que conquista o espectador em cada aparição.

Alexandria Ocasio Cortez debate Joe Crowley

O opositor Joseph Crowley, que surge a espaços, é retratado como a cara ideal para funcionar como antagonista. É complacente, igual a todos os políticos brancos e instalados que já vimos na televisão. Considerado o quarto mais poderoso democrata na altura da campanha, é um cliché com discurso politicamente correto, cheio do cerimonial tradicional e pomposo da política partidária, com palavras repletas de boas intenções. É pena que lidere um sistema que obriga a opositora a recolher quase dez vezes mais assinaturas do que necessita para não acabar com a candidatura invalidada ou que só vote de acordo com o que os financiadores lhe dizem.

A velha política, em que os senhores doutores de colarinho impecavelmente branco nos dizem coisas em simpatia ensaiada, palmadinhas nas costas com a condescendência de quem acha que há sistemas de castas que nunca terminarão, ganha mais vezes do que perde. Mas, AOC bem diz, “para uma conseguir, cem têm de tentar“. Em As Mulheres Que Desafiaram O Congresso, a edição funciona, a banda sonora dá o apoio certo e a vida real é mais cativante, convincente e motivante do que qualquer épico cinematográfico.

 

As Mulheres Que Desafiaram O Congresso: "Para uma conseguir, cem têm de tentar"
A edição dinâmica e o uso comedido de grafismo, só quando necessárioO storytelling cuidadoso, dedicado e convincenteO encorajamento sempre patente
O desequilíbrio, em termos de screen time, entre Ocasio-Cortez e as outras três mulheres retratadasO documentário transporta, de alguma forma, o ambiente de "vídeo de campanha"
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