Chernobyl retrata em cinco episódios o desastre que aconteceu numa central nuclear soviética em 1986. A série da HBO tornou-se a mais bem classificada de sempre no IMDB e até fez o turismo na região aumentar. Mas será que tudo o que vemos na série realmente aconteceu?

Num artigo do New York Times, Henry Fountain, um escritor científico que já visitou Chernobil, diz que a primeira coisa que temos de entender sobre a série é que muito do que vemos é inventado. Mas a segunda, e mais importante ainda, é que isso realmente não importa.

As personagens reais e as ficcionais

Valery Legasov

Jared Harris interpreta uma personagem real que teve um papel importantíssimo na comissão de investigação do desastre de Chernobil. Legasov era um químico, especializado em química física, e vice-diretor do Instituto Kurchatov de Energia Atómica, quando foi chamado para ajudar.

Tal como na série, era o líder da equipa de cientistas. O seu papel era o de investigar as causas do desastre e tentar encontrar soluções para as suas consequências. Porém, foi ajudado por uma equipa enorme de outros cientistas e não fez tudo sozinho. Passou quatro meses em Chernobil, apesar de só estar autorizado a ficar lá duas semanas, devido aos níveis de radiação. Acabou por adoecer, perdendo o cabelo entre outros sintomas.

Valery Legasov suicidou-se no segundo aniversário do acidente, por enforcamento, como mostra a série. Antes de morrer, terá gravado várias cassetes com informação até ali não divulgada sobre Chernobil. O seu suicídio alertou para a perigosa falha de design nos reatores nucleares como o de Chernobil que ainda existiam por toda a URSS. Oito anos após a sua morte foi homenageado com o título de Herói da Federação Russa, a mais alta condecoração desse país.

Boris Shcherbina

Boris Shcherbina

Stellan Skarsgård e Boris Shcherbina (Fonte: Facebook)

Boris Shcherbina (Stellan Skarsgård) também foi uma figura real e desempenhou as funções que vemos na série. Foi vice-presidente do Conselho de Ministros da URSS entre 1984 e 1989. Em Chernobil, foi o chefe da comissão de investigação do desastre e quem deu a ordem de evacuação de Pripyat, a cidade vizinha.

Shcherbina terá dito que pânico é pior que radiação”, revelando a perspetiva do governo de que seria melhor fingir que nada se passava. Só 36 horas após a explosão é que a cidade terá sido evacuada. Em 1988, terá ajudado a criar um decreto confidencial que impedia os médicos soviéticos de citar radiação como causa de morte ou doença. Dois anos depois morreu, com 70 anos, e a causa da morte não foi divulgada.

Ulana Khomyuk

Emily Watson

Emily Watson como Ulana Khomyuk em ‘Chernobyl’ (Fonte: HBO)

A personagem interpretada por Emily Watson é ficcional e representa todos os cientistas que participaram na investigação após o acidente. Segundo o IMDB, o criador da série escolheu uma mulher “para simbolizar o aspeto ligeiramente mais progressista da sociedade soviética da altura: o elevado número de mulheres na ciência e medicina”.

Como Ulana Khomyuk nunca existiu, todas as cenas que se focam nesta personagem são também ficcionais, mas simbólicas. Desde as entrevistas aos trabalhadores moribundos da central até ao julgamento final, Ulana representa todas as pessoas que procuraram a verdade sobre o acidente.

Anatoly Dyatlov

Paul Ritter e Anatoly Dyatlov (Fonte: BuzzFeed)

Tal como os outros dois julgados pelos erros humanos que levaram ao acidente, Dyatlov existiu mesmo. Na série é interpretado por Paul Ritter e foi um engenheiro vice-chefe da Central Nuclear de Chernobil. Ele foi realmente o supervisor do teste que levou ao desastre e acabou por ser preso por causa disso.

Apesar de ter sido condenado a dez anos de prisão e trabalhos forçados, saiu após três anos, em 1990, devido a uma amnistia geral. Mais tarde escreveu um livro em que defende que foram as falhas no design do reator que causaram o acidente, e não os trabalhadores da Central. Morreu em 1995 de insuficiência cardíaca.

Lyudmilla e Vasily Ignatenko

Jessie Buckley como Lyudmilla Ignatenko

Jessie Buckley como Lyudmilla Ignatenko em ‘Chernobyl’ (Fonte: HBO)

O bombeiro Vasily e a sua mulher existiram realmente. Vasily Ignatenko tinha apenas 25 anos quando o acidente aconteceu. Por ter sido exposto a tanta radiação, morreu de forma dolorosa duas semanas após o desastre.

Na série, é possível ver as suas feridas exatamente como terão sido, já que existem descrições detalhadas do seu estado médico. A sua mulher, Lyudmilla Ignatenko escreveu um livro de memórias sobre a sua experiência em Chernobil.

Os acontecimentos retratados são todos reais?

 A resposta imediata ao acidente

Adam Nagaitis como Vasily Ignatenko

Adam Nagaitis como Vasily Ignatenko em ‘Chernobyl’ (Fonte: HBO)

Tal como se vê na série, a resposta imediata ao acidente foi desorganizada. Os bombeiros enviados para apagar o fogo não estavam preparados, nem mesmo muitos dos médicos sabiam o que fazer.

As cenas que vemos na série representam a realidade no que toca à resposta ao acidente. Os bombeiros ficaram todos gravemente afetados e as suas roupas continuam hoje no hospital de Pripyat, com níveis elevadíssimos de radiação, como é possível ver em vários vídeos no Youtube.

“Mais de 600 mil pessoas foram enviadas para pôr Chernobil em ordem. Todas foram expostas a doses elevadas de radiação, diminuindo a sua expectativa de vida. Mais de 4.000 morreram de cancros causados pela radiação, e 70.000 ficaram com deficiências”, segundo a Refinery29.

A doença por radiação é contagiosa?

Emily Watson em Chernobyl

Emily Watson como Ulana Khomyuk em ‘Chernobyl’ (Fonte: HBO)

Ao longo de vários episódios da série, vemos as pessoas afetadas pela radiação serem afastadas das restantes. No hospital, há cortinas de plástico e nem a própria mulher de um paciente pode tocar-lhe. Segundo um artigo da Forbes, a radiação não é contagiosa, nem se passa pelo toque. Após a lavagem do corpo e das roupas do doente, não há riscos para a saúde dos outros.

As cortinas de plástico e proteção do corpo dos médicos com roupa adequada servia apenas para proteger os doentes. Isto porque quem foi afetado pela radiação fica com o sistema imunitário mais frágil. Assim, todas as cenas em que vemos a mulher de Vasily Ignatenko a ser repreendida por tocar no marido não são verídicas.

No que diz respeito à morte do seu bebé, não deverá ter acontecido apenas pelo contacto com a barriga da mãe. Também não a “salvou” ao absorver toda a radiação. Foi antes a radiação absorvida pela própria mãe, através de todos os elementos radioativos no ar e no ambiente, que teve efeitos no bebé, causando falências em órgãos como o coração e o fígado.

O helicóptero que caiu

Chernobyl série TV

(Fonte: HBO)

No segundo episódio de Chernobyl, há um helicóptero que sobrevoa o núcleo do reator derretido para deitar boro e areia. Apesar dos avisos para não voar diretamente por cima, o helicóptero acaba por entrar no perímetro, absorve uma grande quantidade de radiação e cai. Esta cena foi recriada de forma com base num incidente que aconteceu mesmo.

No entanto, o helicóptero real não caiu devido à radiação, nem nos dias após o desastre nuclear, mas sim seis meses depois. A causa foi o choque com um guindaste. O acontecimento foi adiantado cronologicamente na série para servir a narrativa. Craig Mazin, o criador de Chernobyl, disse, segundo a Yahoo, que queria que as pessoas soubessem do perigo de voar sobre um reator aberto com que os pilotos tinham de lidar. No vídeo, é possível ver o acidente real.

A limpeza do sítio mais perigoso do mundo

limpeza do telhado em Chernobyl

Imagem da limpeza de destroços em ‘Chernobyl’ (Fonte: HBO)

No episódio quatro, seguimos um trabalhador que tem 90 segundos para tirar destroços do telhado. Isto aconteceu realmente e há filmagens reais no Youtube que mostram as semelhanças.

O julgamento de Dyatlov, Fomin e Bryukhanov

Julgamento Chernobyl

Julgamento de Dyatlov, Fomin e Bryukhanov (Fonte: Facebook)

O julgamento aconteceu mesmo e os atores que interpretam os condenados apresentam muitas semelhanças aos três homens reais. No entanto, o julgamento tem vários aspetos ficcionais. Uma das partes mais importantes na série foi o depoimento de Legasov, mas o cientista não esteve presente em tribunal.

Legasov apenas falou em Viena, nunca revelando a razão real pela qual o reator 4 explodiu. Isso só aconteceu publicamente com as cassetes que gravou antes de se suicidar, já que em Viena falou apenas dos erros humanos. Por isso, a cena em que Legasov é ameaçado pelo KGB também é ficção.

Lê também Guia ‘Chernobyl’: como ser uma das melhores séries de sempre em cinco episódios

Este artigo foi atualizado a 10 de junho de 2019, às 17h53. Na secção intitulada “A doença por radiação é contagiosa?” corrigimos uma afirmação acerca da morte do bebé, por não estar cientificamente correta, explicando a sua causa de morte num novo parágrafo.