Faleceu Agustina Bessa-Luís, uma das grandes figuras da literatura portuguesa contemporânea, dona de uma estilo e voz únicos e de uma vasta obra bibliográfica. Tinha 96 anos, mas há muitos que se retirara da vida pública, vítima de doença prolongada.

Autora de mais de 50 obras, na sua maioria romances, mas também biografias, teatro, ensaios e livros infantis, viu várias das suas obras adaptadas ao cinema, sendo conhecida a inspiração que os seus romances foram para Manoel de Oliveira, que adaptou sete das suas obras.

Nasceu a 15 de outubro de 1922 em Vila Meã, Amarante, região que marcaria para sempre a sua obra. Vivia na Maia quando descobriu a sua primeira paixão, o cinema. Depois, viveu na Póvoa do Varzim, onde descobriu o gosto por aquilo que a tornaria ímpar – a escrita, que foi influenciada pelo imaginário da oralidade que a fascinava, pelas histórias que moldaram a sua imaginação e infância, e pelo gosto profundo que tinha pela leitura.

Agustina, autora de uma obra vasta e diversa

Casou em 1945 com Alberto Luís, e mudou-se para Coimbra. O seu primeiro livro, a novela Mundo Fechado, foi publicado três anos depois. Aquilino Ribeiro, Miguel Torga, Teixeira de Pascoaes, todos os grandes nomes da literatura portuguesa, receberam  a obra entusiasticamente, prevendo-lhe um futuro auspicioso.

Publicou o primeiro romance em 1950, Super-Homens, quando retorna ao Porto, que abre alas a muitos outros romances que publicaria – como A Sibila, que a afirmou no mundo literário português contemporâneo, e Fanny Owen, onde inclui o autor que mais lhe despertava fascínio e inspirava, Camilo Castelo Branco.

Para lá da escrita, foi membro do Conselho Diretivo da Comunidade Europeia dos Escritores de 1961-62, diretora do jornal diário portuense O Primeiro de Janeiro, entre 1986-87, e foi diretora do Teatro Nacional D. Maria II, entre 1990 e 1993.

Agustina Bessa-Luís

Uma voz singular

Incomparável, para lá de movimentos literários mas simultaneamente moderna, Agustina Bessa-Luís não se conformou nunca a outra regra que não a sua própria. Com o seu romance A Sibila, a sua obra-prima, tornou-se incontornável. Uma voz distinta entre as outras, com mulheres que podiam ser simultaneamente fortes e imperfeitas, pessoas completas em igualdade de pensamento, e uma escrita que primava pelo exímio uso da linguagem.

Apesar disso, a sua escrita foi categorizada de “difícil”, e há muitos anos que já não é lida nas escolas, talvez precisamente pela dificuldade, não em lê-la, mas em categorizá-la. Se não, veja-se: Eduardo Lourenço considerava-a uma ultra-romântica, devido à influência de Camilo Castelo-Branco na sua obra e imaginário, Óscar Lopes como barroca, e António José Saraiva comparava-a a Fernando Pessoa.

Distinguida em vida

Única, Agustina Bessa-Luís recebeu a maior honra na literatura em língua portuguesa – o Prémio Camões, em 2004, aos 81 anos, e foi elevada ao grau de Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 2006, uma ordem atribuída àqueles que se distinguem nos meios literário, científico e artístico, por Jorge Sampaio.

Ao longo da sua carreira foi acumulando prémios literários como o Prémio Eça de Queirós em 1954, o Prémio Nacional de Novelística em 1967, o Prémio D. Diniz em 1981, o Grande Prémio Romance e Novela em 1980 e 2001, o Prémio Vergílio Ferreira (da Universidade de Évora) em 2004, e o Prémio Eduardo Lourenço em 2015.

Foi distinguida com a Medalha de Honra da Cidade do Porto, em 1988, tornada Officier de l’Ordre des Arts e de Lettres pelo governo francês, em 1989, e foi-lhe atribuído o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Lusíada, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pela Universidade Tor Vergata de Roma e, mais recentemente, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Agustina “reformou-se” em 2006, após um derrame cerebral. A sua obra, cujos direitos foram agora passados para a editora Relógio d’Água, estão a ser reeditados com introduções por nomes maiores da cultura e literatura portuguesa. Até agora, já foram relançadas 15 das obras da autora, incluindo A Sibila, com uma introdução por Gonçalo M. Tavares, e Vale Abraão, introduzido por António Lobo Antunes.

LÊ TAMBÉM: MORREU A ESCRITORA AGUSTINA BESSA-LUÍS