Golpe de Sorte estreou na passada segunda-feira (20) e apesar de ter conquistado as audiências, não conquista totalmente quando avaliados os seus méritos qualitativos. A aposta da SIC na área da ficção foi promovida como uma série, mas a verdade é que em termos narrativos tem muito pouco de série. É uma novela disfarçada.

Estreada esta semana, a nova série da SIC conta a história de uma mulher humilde – Maria do Céu Garcia – que vence o Euromilhōes e muda de vida inesperadamente. No entanto, o acontecimento que serve de mote para a história só se dá na última cena do primeiro episódio. Quem espera poder saber o que acontece com Maria do Céu pode ficar um pouco desapontado, pois tem que partir na aventura dos episódios seguintes. E, diga-se já, não é uma má aventura… Mas não é a aventura prometida. 

Em termos narrativos e de enredo, Golpe de Sorte está envolvida nos ingredientes que fazem uma novela. Há drama, há injustiças, há vilões… E há filhos desaparecidos, uma temática que parece ser usual na SIC, já utilizada em Dancin’ Days, Mar Salgado e, mais recentemente, Alma e Coração. Porém, Golpe de Sorte vem embrulhada de uma forma muito diferente. E talvez seja aí que está a grande diferença. O embrulho da história de Maria do Céu é atípico.

São – como noticiado anteriormente – 90 episódios, fugindo de vez ao panorama vivido pela estação de Paço de Arcos, onde os últimos projetos de ficção vinham a ultrapassar a margem dos 300 capítulos.

Golpe de Sorte

Cristina Ferreira durante a participação especial na série (Fotografia: Divulgação / SIC)

Promoção não faltou a Golpe de Sorte. Desde pequenos episódios especiais n’O Programa da Cristina, para apresentar as personagens, à massiva promoção realizada pela SIC, tudo leva a crer que estamos diante um produto realmente diferente. E estamos, mas só em parte.

Ao nível técnico, Golpe de Sorte apresenta diferenças na sua realização (talvez por ser produzida pela Coral Europa e não pela SP Televisão, como acontecia até aqui). A imagem tem um tratamento diferente – tem novos filtros, novas cores e uma nova vida – assim como a iluminação dos cenários está feita de forma natural e credível, totalmente contrária à iluminação artificial que pode ser encontrada nas produções da SP.

O problema dos primeiros episódios de Golpe de Sorte, no entanto, é que não apresenta aquilo que foi anunciado. O enredo é o típico enredo de novela, e as personagens não parecem conseguir separar-se do seu estatuto caricato e extremamente unidimensional.

Jorge Corrula e Dânia Neto são os vilões de ‘Golpe de Sorte’ (Fotografia: Divulgação / SIC)

Os vilões aparentam ser exclusivamente maus (apesar da humanização da personagem de Jorge Corrula (Caio), no quarto episódio) e as personagens cómicas vivem numa espécie de universo paralelo onde é aceitável ser unicamente ignorante e deixar de lado o lado racional. São personagens-tipo, sem qualquer outro tipo de dimensão. Não têm personalidades transformantes e estão fechadas no seu próprio ciclo de características definidas por uma argumentista que, neste caso, pareceu não ter visão.

A personagem de Maria João Abreu parece ser a única capaz de flutuar entre o lado cómico e o lado dramático, o que já seria de esperar, por se tratar da grande protagonista da história. Porém, não chega. O telespectador de hoje em dia é mais exigente e é necessário ir de encontro às necessidades do consumidor, principalmente quando se trata de ficção. As personagens devem ser densas e, se Golpe de Sorte realmente se tratasse de uma série e não de uma novela reduzida, teria ainda menos personagens do que aquelas que foram apresentadas. E não tem mal que existam personagens que são apenas fillers, mas isso já não se pode dizer quando a história navega sem direção pela existência dessas mesmas personagens. Isso foi o que aconteceu nos primeiros cinco episódios da nova “série” da SIC. 

A série apresentou personagens secundárias durante demasiado tempo, deixando por vezes para segundo plano a personagem principal e o acontecimento que motiva todo o seguimento do enredo. Porém, o facto de Golpe de Sorte ser slow-paced não é necessariamente mau. A ficção nacional habitou-se nos últimos anos a servir histórias de faca e de alguidar, sem qualquer respeito pela narrativa madura e lógica que, por vezes, é necessária. 

Golpe de Sorte

Fotografia: Divulgação / SIC

A história criada por Vera Sacramento vai ao encontro do que é preciso neste momento. Estava na altura de cortar com as histórias de crimes, pistolas e mortes, mostrando um lado mais tradicional, mais português. Golpe de Sorte fá-lo na perfeição, conseguindo ainda escapar ao típico romance protagonista. É diferente nesse aspeto e é precisamente nesse ponto que a série conquista os corações de quem a vê. No entanto, é impossível não ver Golpe de Sorte e não se sentir minimamente atraiçoado. Não é uma série. Na verdade, não tem nada de série. É apenas uma novela com menos episódios e que, segundo se diz, será dividida em temporadas. Para quem gosta de novelas, vai servir. Para quem quer mais… Ainda não foi desta.

'Golpe de Sorte': Não é série, é novela disfarçada
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