No final de A Guerra dos Tronos piscam-nos o olho a um futuro que promete uma democracia para os Sete Reinos, mas só durante breves segundos antes de a ideia ser posta de parte entre risos.

“O que há de tão engraçado nisto?” – Perguntaria George R.R. Martin, que escreveu uma história que parece ansiar por acabar numa eventual libertação do povo westerosi do opressivo sistema feudal, que fez deles peões num jogo mortífero entre senhores.

A coroação de Bran, O Quebrado, foi uma surpresa para todos, mas não só por ter sido Bran o escolhido para reinar. No Comício que veio a decidir o futuro de Westeros optou-se não por uma democracia, mas por uma oligarquia, como o sistema que melhor honraria o sonho de Daenerys de “quebrar a roda”.

Este foi o final escolhido por David Benioff e D.B. Weiss, mas em Uma Canção de Gelo e Fogo, George R.R. Martin já tinha dado umas pistas para os levar à eventual revolução política, uns Sete Reinos que conhecessem as sementes da democracia.

Antes de ser dado a escolher “às pessoas mais poderosas em Westeros” o seu líder, Samwell Tarly é ridicularizado pela sua ideia sonhadora. “Nós representamos as grandes casas, mas seja quem escolhermos, não irá governar apenas senhroes e senhoras. Talvez a decisão sobre o que é melhor para todos deveria ser dada a todos.”

A roda que precisava de ser quebrada

Pornhub Game of Thrones Daenerys

Daenerys Targaryen, Mhysa. Fonte: HBO

“Lannister, Targaryen, Baratheon, Stark, Tyrell, são todos parte de uma roda. Este está no topo, depois aquele está no topo e continua a girar, esmagando aqueles que estão no chão.” Quem o diz é Daenerys quando olha para Westeros. “Eu não vou parar a roda, vou quebrá-la.”

E no entanto, o sistema que a substitui é um sistema que se limita a pôr um fim às monarquias hereditárias e continua a ser escolhido unicamente pelos “senhores e senhoras de Westeros”, e, quando sugerida, a democracia foi posta imediatamente de parte. Os plebeus continuarão a ser plebeus e os senhores continuarão a ser senhores e a roda continuará a girar, esmagando quem está por debaixo e alternando quem está por cima.

Democracia não é uma novidade assim tão grande nos Sete Reinos

Fonte: Giphy

Na Patrulha da Noite é votado em democracia direta o cargo de Senhor Comandante. Vemos isso quando Jon Snow é escolhido (ou como diríamos no século XXI, eleito).

Continuando a norte e indo para Além da Muralha, quando Jon passa tempo entre o Povo Livre, sabemos que estes escolhem individualmente quem desejam seguir e que não se chamam a si próprios “Povo Livre” por acaso, sendo o seu modo de viver o mais próximos de democracia que Westeros conhece.

Nas Ilhas de Ferro lemos sobre uma reunião entre os diferentes líderes e capitães para escolherem o seu novo líder, e, se atravessarmos o Mar Estreito, nas Cidades Livres de Essos vemos um mundo fantástico povoado com repúblicas mercantis.

Mesmo a Aranha ou Mestre dos Segredos, Varys, já tinha piscado o olho a esta ideia democrática quando diz a Tyrion “o poder reside onde os homens acreditam que reside”.

Quando o povo toma o poder

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Lancel Lannister (Eugene Simon), Loras Tyrell (Finn Jones) e High Sparrow (Jonathan Pryce). Fonte: HBO

E chega-nos o Alto Pardal, com a ameaça aos grandes senhores de que “vós sois poucos e nós somos muitos. E quando muitos pararem de temer os poucos…”

Em Porto Real viveu-se um tumulto do povo contra os grandes senhores, contra o rei. Armaram-se em milícias e lutaram por um lunático religioso, mas seja como for, tomaram o seu destino nas mãos e decidiram fazer algo.

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As raras Monarquias eletivas que temos de procurar na História

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Foto: Espalha-Factos

Monarquias eletivas são raras na nossa História, mas existem.

O sacro império romano-germânico, um dos maiores capítulos da história medieval europeia, é um exemplo de onde alguns dos principais senhores se reuniam para eleger o imperador.

Se nos Seis Reinos esta eleição se extender ao resto da nobreza então podemos compará-la à Suécia medieval e à República das Duas Nações entre a Polónia e a Lituânia, onde o rei era eleito pela nobreza.

Uma Canção de Gelo e Fogo, um manual de Ciência Política

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George R.R. Martin. Foto: Gage Skidmore on VisualHunt.com / CC BY-SA

George R.R. Martin presenteou-nos com uma saga onde História e Política são tão importantes como dragões e magia, e tudo isso culmina no final de A Guerra dos Tronos.

Temos, por exemplo a comparação de Tywin Lannister a Niccolo Machiavelli, autor de uma das mais renomeadas obras políticas de sempre, O Príncipe, pela forma como este manipula os seus netos no poder, Joffrey e Tommen, de tal modo que quem governava era ele próprio.

Noutro campo, sempre que se lê dothraki podíamos substituir a palavra por mongol, e estaríamos a ler sobre a horda selvática que invadiu a Europa e fez ruir o Império Romano.

Em A Guerra dos Tronos não deram a oportunidade aos westerosi de quebrar a roda e o sonho de Daenerys ficou por realizar. Que lição podemos nós tirar disto?

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