Terminou este domingo (26) a 72ª edição do Festival de Cinema de Cannes. O prémio principal foi para o thriller coreano Parasites.

Os filmes vencedores são sinal dos tempos que se vivem: migrações, diferenças sociais e o avanço da extrema direita são os temas que retratam. Mas as novidades vão para lá dos prémios. Pela primeira vez em 72 anos, houve uma realizadora de cor em competição. Também pela primeira vez, um dos filmes a estrear no mais prestigiado festival de cinema conta com uma atriz transexual.

Por outro lado, a “croisette” mantém-se fiel às origens. No poster oficial, está Agnès Varda, uma das duas mulheres a ganhar a Palm d’Or. Além disso, filmes que estreiam diretamente em streaming continuam a não poder competir.

Seleção Oficial

O realizador Bong Joo-ho não tinha muitas expectativas para a receção de Parasite no festival francês. “Tenho dúvidas que o filme seja percebido a 100% (por audiências estrangeiras). Parasite está cheio de detalhes e nuances específicas dos coreanos,” explica à Variety. O realizador disse ainda que não esperava que o filme viesse a ganhar o prémio.

Parasite

Fonte: Neon

No entanto, Parasite recebeu a Palm d’Or, além de uma excelente receção por parte da crítica. David Ehrlich da IndieWire descreve a história como “algo selvagem, inclassificável, que arde com raiva impotente”. Bong fez um pedido oficial à crítica para manter o enredo em segredo. Sabe-se apenas que o filme é uma tragicomédia que lida com diferenças sociais na Coreia do Sul. Em foco estão duas famílias de classes opostas cujos caminhos se cruzam.

O Grand Prix (segundo prémio da competição oficial) foi para Atlantics. O filme tem tanto de fantasia como de realismo. Mas é especialmente atual, pois retrata as migrações no mediterrâneo. Em Dakar, a jovem Ada é deixada para trás quando o seu namorado parte para a Europa em busca de um futuro melhor.

Realizado por Mati Diop, Atlantics fez história para lá do prémio. Diop foi a primeira realizadora negra a competir no festival.

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bacurau

Fonte: Festival de Cinema de Cannes

O Jury Prize (terceiro prémio) foi partilhado por dois filmes. Bacurau, realizado por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é um drama distópico. Num futuro semi-próximo, os habitantes da terra fictícia Bacurau, lutam pela sobrevivência. A água escasseia e um grupo de vigilantes dedica-se a raptar os habitantes um por um. Les Misérables, de Ladj Ly, combina vídeos de arquivo com ficção. Inspirado nas manifestações de 2005, o filme conta a história de três membros duma brigada anti-crime. Tomados por um grupo de adolescentes, os polícias acabam por também quebrar a lei.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão arrecadou o prémio da secção Un Certain Regard. Trata-se duma adaptação do romance de Martha Batalha. Passado no Rio de Janeiro, nos anos cinquenta, o filme retrata a separação das irmãs Eurídice e Guida.

Outras categorias

À parte da seleção oficial, estão os segmentos Director’s Fortnight e Critics’ Week.

No primeiro, os prémios são atribuídos por patrocinadores  e não pelo festival em si. O grande vencedor  foi The Lighthouse. O filme de Robert Eggers, realizador de The Witch, foi um dos mais badalados do festival, tendo até pontuação mais alta que Parasite no Metacritic. Robert Pattinson e Willem Dafoe protagonizam este drama de terror nos papeis de dois guardas do Farol.

the lighthouse

Fonte: A24 Films

A Critics’ Week dedica-se a descobrir e premiar novos talentos na indústria. Apenas primeiras ou segundas longa-metragens de realizadores de todo o mundo são considerados. Este ano, pela primeira vez o prémio foi arrecadado por um filme de animação. Em I Lost My Body, de Jérémy Clapin, uma mão desenvolve uma mente própria e viaja sozinha pela cidade.