No dia 21 de maio, Jokha Alharthi e a sua tradutora, Marilyn Booth, com a sua obra Celestial Bodies, foram anunciadas vencedoras do maior prémio para literatura traduzida no Reino Unido.

O Man Booker International Prize reconhece o que de melhor se escreveu e foi traduzido e publicado no último ano no Reino Unido. Celestial Bodies foi o vencedor deste ano, merecendo à sua autora e tradutora um prémio de 25 mil libras para cada, o equivalente a cerca de 28.400 euros. Os restantes autores e tradutores dos seis livros nomeados na shortlist receberam também um prémio de 1.135 euros. A obra vencedora foi anunciada pela presidente do júri, Bettany Hughes, autora, historiadora e radialista inglesa, numa cerimónia que decorreu na Roundhouse, em Londres.

Imagem: Divulgação – Man Booker International Prize / Man Group

Jokha Alharthi: uma coleção de estreias

Jokha Alharthi é a primeira autora feminina de Omã a ser traduzida para inglês, e é também a primeira pessoa do Golfo Pérsico a vencer este prémio, tendo já sido uma estreia nas nomeações. É autora de outros dois romances, Manamat e Narinjah, para além de Celestial Bodies, cujo título original é Sayyidat el-Qamar. A obra tinha já vencido o Prémio de Melhor Romance de Omã de 2010. É também autora de duas coleções de contos e um livro infantil. Alharthi foi educada em Omã e no Reino Unido, doutorada pela Universidade de Edimburgo em Estudos Árabes, e é professora na Sultan Qaboos University, a única universidade pública do Sultanato de Omã.

Celestial Bodies foi traduzido do árabe para o inglês por Marilyn Booth, professora em Oxford, académica e tradutora americana especializada em Árabe, também reconhecida neste prémio.

“Celestial Bodies”, de Jokha Alharthi, trad. do árabe por Marilyn Booth (Sandstone Press) | Fonte: Goodreads

Premiar novas vozes

Celestial Bodies é a história de três irmãs em Omã, enquanto este país tenta construir um presente e soltar-se das amarras de um passado colonial. Uma história familiar, mostrando-nos uma fascinante cultura que difere da nossa, ao mesmo tempo que explora questões complexas de um passado com laços ao Ocidente, “sem cair em clichés na forma como trata questões de raça, escravatura e género“, como aponta a presidente do júri.

Na declaração de Hughes, esta apontou ainda como este é um livro “que nos conquista a mente e o coração em igual medida”, com “vozes e linhas temporais que se cruzam de uma forma magistral conseguida graças ao ritmo do romance. É com delicadeza que nos imerge numa comunidade imaginada rica – que se abre para tocar em questões profundas sobre o tempo e a mortalidade, assim como aspetos complicados de um passado partilhado.” Elogia também a tradução, que é “precisa e lírica, conjugando as cadências da escrita poética com diálogos quotidianos. Celestial Bodies evoca as forças que nos prendem e aquelas que nos libertam.

Ao reconhecer uma voz árabe num país que cada vez mais encara o seu passado e as repercussões das suas acções, este prémio inglês destaca, sem o dizer, a necessidade de lermos narrativas diversas, escritas por pessoas e em locais com uma cultura diferente da nossa, apesar de ligadas por um passado histórico complexo.

Foto: Man Booker Prize website

Man Booker International Prize

O Man Booker International Prize foi estabelecido em 2016, ano em que passou a destacar o melhor da literatura traduzida publicada no Reino Unido anualmente, escolhendo uma obra de ficção traduzida, em parceria com o Independent Foreign Fiction Prize (honrando as editoras independentes que publicam literatura traduzida).

O prémio de 50 mil libras é dividido igualmente entre o autor e o tradutor para inglês da obra, valorizando o trabalho do tradutor para o acesso à literatura feita no além-fronteiras. Antigos vencedores incluem David Grossman e Han Kang, assim como Olga Tokarczuk, vencedora em 2018 e nomeada este ano.

O vencedor deste ano foi escolhido por um painel de cinco jurados, presidido por Bettany Hughes e composto por Maureen Freely, autora, tradutora e académica inglesa, Angie Hobbs, filósofa e professora britânica, Elnathan John, autor e satírico nigeriano, e Pankaj Mishra, ensaísta e romancista indiano.

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