Fonte: HBO

Game of Thrones: A série espetacular que acabou como mais uma, de forma medíocre

O episódio final de Game of Thrones foi para o ar no passado domingo(19) e passados nove anos, a conclusão não foi gratificante. Enredos por explicar, buracos narrativos e um geral sentimento de pressa acabou por caracterizar o capítulo final de uma das mais marcantes séries de televisão de sempre.

Recordo-me da primeira vez que vi Game of Thrones. Ainda estava no secundário, a vida era menos complicada e havia imenso tempo livre. Estava em plenas férias da páscoa – que esse ano de 2012 calharam a 8 de abril -, quando decidi mergulhar no mundo de Game of Thrones. A primeira temporada já tinha saído há um ano e a segunda tinha acabado de começar, a 2 de abril.

Comecei a ver Game of Thrones por duas razões: a primeira porque The Tudors já tinha acabado e deixou-me um vazio de séries de época por ver, segundo porque The Borgias, dos mesmos criadores, nunca me preencheu totalmente. Cai no erro de achar que Game of Thrones seria apenas um drama político medieval situado num mundo paralelo, mas esse erro abriu-me portas a conhecer uma das mais marcantes séries que já então estavam a ser feitas.

Depois de ver a primeira temporada em três dias, de berrar com o meu ecrã de computador quando o Ned Stark foi decapitado, aventurei-me pela segunda, que tinha acabado de estrear. Tornei-me rapidamente naquelas pessoas chatas que foram comprar os livros para saber mais, tornei-me naquelas pessoas ainda mais chatas a tentar converter amigos em espectadores, mas sempre com pouco sucesso, não fosse estarmos em pleno luto de Harry Potter e começo de The Hunger Games… o mundo não aguenta com tanta fantasia no imaginário popular de uma vez só.

Fonte: HBO

Esta pequena retrospetiva é importante para situar-me aos dias de hoje, em 2019, depois de ter visto a totalidade da última temporada de Game of Thrones. A pessoa que era em 2012 entretanto sofreu grandes mutações e a série de eleição dessa pessoa também. Game of Thrones chega a 2019 rodeada pela atenção do mundo, com quase dois anos de intermissão desde a sua última temporada, a série é hoje um fenómeno cultural incomparável a qualquer outro e isso traz consigo não só a garantia de grandes audiências e retorno, como também uma enorme responsabilidade de terminar esta história da melhor forma.

David Benioff e D.B. Weiss, criadores da série, tinham basicamente uma tarefa impossível em mãos: agradar os espetadores com qualquer final que decidissem dar aos seus personagens. O resultado não me espantou, a generalidade dos fãs não gostaram, petições levantaram-se para reescrever a série, o Carmo e a Trindade caíram. O que me espantou foi eu próprio ter ficado desiludido.

Vamos por partes. Primeiro há que dizer que sou daqueles fãs que leu os livros todos – até onde o George R.R. Martin escreveu -, e também sou daqueles muito apologistas de olhar para a série Game of Thrones e os livros A Song of Ice and Fire como entidades diferentes, disseminadas também elas em meios completamente diferentes e que, por isso, têm de se adaptar ao seu veículo de distribuição. Se num livro Martin pode escrever 100 páginas sobre a travessia da Arya de Winterfell a King’s Landing, na televisão Benioff e Weiss talvez tenham de perder apenas 10 a 20 minutos a fazer essa mesma travessia. O que é necessário perceber é que para meios diferentes, a história tem obrigatoriamente de ser contada de forma diferente.

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Até chegar à derradeira temporada, mesmo torcendo o nariz a certos desenlaces, sempre dei o benefício da dúvida a Game of Thrones, sempre achei que não era necessário ser uma cópia dos livros e muito menos cai na esparrela de achar que por já não haver livros que tudo se ia desmoronar – é ingénuo pensar que o criador do universo não tenha dado diretrizes a Benioff e Weiss. Mas finalizando o episódio “The Iron Throne” é impossível não sentir a mágoa de quem vê algo que foi tão marcante tornar-se nalgo tão medíocre.

Fonte: HBO

O grave problema desta temporada é que ela merecia mais tempo e, pela falta dele, o argumento foi obrigado a omitir, ignorar, inventar e – talvez o grande ponto fraco deste desfecho – a facilitar.

Benioff e Weiss tornaram-se peritos, pelo menos desde a temporada passada, a omitir lapses temporais, quebrando com a capacidade imersiva da série. Ignoraram a manta de retalhos que a história de George R.R. Martin e que eles próprios tinha construído desde as primeira temporadas, deixando imensas pontas soltas. Inventaram situações, ações, o que for, para causar choque de uma forma barata, apenas para trocar as voltas aos fãs, sem efeito causa-consequência. Facilitaram em tudo, desde a escrita de diálogos impraticáveis nas primeiras temporadas à desconstrução da evolução das personagens a mecanismos para acelerar o ritmo da ação e da narrativa.

A oitava temporada de Game of Thrones torna-se incrivelmente frustrante por ser a única em que tudo se parece alinhar menos o argumento dos criadores. Em termos técnicos está irrepreensível – não me venha falar de episódios que estão escuros ou copos do Starbucks -, em termos de performance está melhor do que algum vez esteve, em termos de realização, nunca se viu nada assim no mundo da televisão. A única coisa que faltou foi um bom argumento.

Game of Thrones despede-se em 2019, passados apenas seis episódios de estar no ar por uma última vez na HBO e despede-se sem antes colocar tudo em causa. Em paralelo à personagem que Benioff e Weiss mais mal trataram, o percurso de Game of Thrones em muito se assemelha ao destino de Daenerys Targaryen – que dava todo um outro texto sobre o quão perigoso foi reduzir o seu arco de personagem a estereótipos arcaicos e demagogos. Esta série começou num território longe, consegue reunir alguns seguidores, vai crescendo e atraindo as atenções, torna-se cada vez mais implacável. Finalmente assume-se como uma grande potência da televisão, apenas para chegar ao seu fim, tomar decisões questionáveis, ser apelidada de “louca” e apunhalada pelas pessoas que mais gostavam dela. Se Daenerys merecia um outro final, merecia, mas esta temporada de Game of Thrones não merecia qualquer outro tipo de reação.

Game of Thrones não se tornou numa má série, tornou-se apenas em mais uma série. Tornou-se numa banalidade e isso será para sempre o maior pecado de David Benioff e D.B Weiss para com George R.R. Martin.

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