Rafael Gevelber
Fotografia: Diogo Leal Magalhães / Espalha-Factos

Rafael, o português que também quer vencer em Telavive

Rafael Gevelber tem 30 anos, exatamente a mesma idade que Tiago Miranda, ou Conan Osiris. Em comum, além da idade, têm outra coisa: Estão a fazer pela vida em Telavive. Rafa é chef, veio de Miratejo há nove anos e já aprendeu a falar hebraico.

Saiu de trás do balcão da cozinha e veio até à mesa, mas não a do hotel onde trabalha, para apresentar um bocadinho daquilo que são as iguarias do país que o acolheu há nove anos. Na mesa há beringela com tahini, que é uma pasta feita a partir de sésamo, também acompanhada de sementes de tomate e pimenta picante; a tradicional terrina, com vegetais, crème fraîche e ovo cozido e ainda o Butchers’ cut, carne cozinhada lentamente, durante sete horas, com vegetais de raiz e tahini.

Pai e filho apresentam a cozinha israelita (Fotografia: Diogo Leal Magalhães / Espalha-Factos)

Quando diz aos israelitas que vem de Portugal, ouve sempre Ronaldo em resposta. E aqui, isso não é necessariamente bom. No duelo contra Messi, os israelitas preferem o argentino. Na equipa do Hilton Tel Aviv já é titular há nove anos consecutivos, e recentemente passou a ter a cargo os eventos. Entra cedo, às sete da manhã, e entre as refeições que mais gostou de servir estão duas especiais: à Seleção Nacional e ao seu Benfica, cujos jogos continua a ver religiosamente.

Portugal “está sempre no coração“. “Vivi a vida toda em Portugal, para mim é Portugal sempre. Tento ir a Portugal no mínimo uma vez por ano. É complicado ir mais vezes. Estou sempre em contacto com Portugal, porque a minha família está toda em Portugal. O meu pai, que é israelita, só vem cá de férias. Vivem todos em Portugal“.

Em Portugal é tudo mais próximo

Dani Gevelber, o pai, é de Israel mas nunca ensinou a língua ao filho. Rafael aprendeu sozinho: “Uma palavra aqui, uma palavra ali. Sempre a ouvir as pessoas… um mais um. Só ao fim de dois ou três anos é que comecei a falar qualquer coisa. Ler e escrever ainda não“. Normalmente, os estrangeiros fazem um curso intensivo de dois ou três meses, Rafa escolheu um caminho mais difícil.

Dani Gevelber, o pai de Rafael, está em Portugal há 30 anos (Fotografia: Diogo Leal Magalhães / Espalha-Factos)

Para se integrar, teve de falar. A comunidade portuguesa em Telavive é pequena. “Os portugueses em Telavive são jovens, a maioria são raparigas. Os israelitas vão a Portugal e trazem as mulheres para cá”. Se parar para pensar um bocadinho, Rafael dá conta que só conhece cinco ou seis, embora na contagem da embaixada o número seja de 30. E o chef português não deve continuar a ser um deles por muito tempo. Veio “para juntar algum” e “daqui a quatro ou cinco anos” está de regresso a casa. “Em Portugal é tudo mais próximo, vou ao café e conheço sempre alguém“.

O pai, Dani, também está à mesa. Há 30 anos que vive em Portugal. Desde que Rafael nasceu. “Nunca ouvi ninguém dizer mal de Portugal. É muito calmo, a comida é boa, o tempo é bom. O pão português é melhor que o israelita“, relata.

O progenitor Gevelber veio da Bélgica para o nosso país. Trabalhava num negócio de diamantes da família, mas conheceu a atual esposa e deixou-se encantar por terras lusitanas. Agora vem a Israel uns três ou quatro meses por ano, mas também não pensa em voltar.

Conan? “É esquisito

A Eurovisão domina a conversa por estes dias. Telavive está cheia de bandeirinhas, há uma Eurovision Village no centro da cidade. “Para Israel, conquistar algo na Europa foi como para nós conquistar o Europeu de futebol. Existe sempre uma grande desconfiança entre Israel e o resto do mundo. Quando ganharam a Eurovisão sentiram que se tornaram o centro da Europa e ficaram muito orgulhosos“.

Rafa não vibra com as lides festivaleiras. “Não vejo a Eurovisão como uma coisa que ligue as pessoas, os portugueses que estão fora. Não é uma coisa a que as pessoas liguem muito, não vêem pela música, vêem mais pelo show… E não são profissionais, é uma música amadora“, sentencia.

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A onda do cozinheiro na música portuguesa é mesmo hip-hop. “Ouço tudo o que está na moda do hip-hop português… Wet Bed Gang, Nenny…“, diz. Conan Osiris, a seu ver, “é esquisito“. “A primeira vez que ouvi a música nem consegui ouvi-la até ao fim“, admite. “Sei que no dia vou mandar mensagens para votar na canção, mas… ainda não sinto muito bem a canção”, prossegue Rafael, que ainda assim vai estar atento à atuação portuguesa e à pontuação final.

Fotografia: Diogo Leal Magalhães / Espalha-Factos

Não somos favoritos“, mas “não é pior que o cucuricu com que Israel ganhou“, em referência a Toy, a música vencedora de 2018. No Estado judaico, Netta tornou-se uma estrela. “No Purim, que é o Carnaval deles, era toda a gente com disfarces dela e com galos atrás“.

No meio da folia, Dani relembra que há dias atiraram 600 rockets contra o Sul de Israel. A guerra está sempre presente, a pairar disfarçada no meio das conversas. “Já nos habituámos, não pensamos nisso. Já apanhei aqui duas guerras, a última foi em 2014. Quando há alertas de ataques temos de nos abrigar, apesar de o sistema anti-mísseis os destruir no ar ou os deixar cair no mar. Depois temos de esperar um bocado para não apanhar com destroços. Quando estamos no trabalho temos de ir para a casa de banho. Tiramos selfies, esperamos, a vida continua“, diz Rafael. Miratejo, calma e com sol, está a mais de cinco mil quilómetros daqui. 

 

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