Qual é a sensação que permanece depois de um bom concerto? Não, não de um bom concerto. Esse é fácil de definir. Falo daqueles que não descansam na memória, dos que enchem o peito e a alma, dos que falamos aos amigos ou preservamos numa lista mental. Para muitos, o que foi um exacerbar de emoções, um efervescer de jazz contemporâneo, de euforia e musicalidade sem regras, poderia também ser sinónimo de libertação, um descanso há muito necessitado. E uma experiência comum. Uma figura imponente com vestes compridas, um saxofone na mão e um sorriso carinhoso para quem o acompanha.

Kamasi Washington ensinou-nos sobre o transcendente e o palpável que coexistem no mundo em Heaven and Earth (2018). O seu segundo álbum e antecessor de The Epic (2015) foi apresentado aos lisboetas no passado sábado (11), no Lisboa ao Vivo.

Depois da sua passagem por Portugal em 2016, na Casa da Música, foi a vez de voltar pela mão da nova promotora musical Gig Club e de ter passado também pelo Hard Club no dia anterior (10). A promotora tem vindo a organizar concertos pelas duas principais cidades portuguesas com o objetivo de trazer ao país nomes menos convencionais, como já o fez com Jessy Lanza, em janeiro.

Quem é Kamasi Washington?

Conhecido por muitos como o sumo-sacerdote do saxofone, Kamasi é um multi-instrumentalista de Los Angeles também conhecido pelo seu trabalho de produção. Apesar de ter passado a maior parte da sua adolescência imergido no mundo do hip-hop, é quando chega à faculdade que, juntamente com Terrace Martin, Ronald Bruner, Billy Higgins e Gerald Wilson, o mundo do jazz o cativa.

Começa a tocar com Thundercat e Snoop Dogg e acaba a produzir To Pimp a Butterfly de Kendrick Lamar, um dos álbuns de maior referência no hip-hop atual, no mesmo ano em que lança o seu primeiro álbum The Epic pela editora Brainfeeder.

O Deus do saxofone e os seus profetas

É juntamente com o trombone de Ryan Porter e com Brandon Coleman nos teclados que se abre o concerto. E é ao longo de duas horas que o público é maravilhado pela complexidade dos instrumentos e pela euforia de cada membro da banda. Não há pressa em fazer passar uma mensagem, ou melhor, o tempo desconstrói-se com a transmissão. A cada solo, é evidente o respeito e a homenagem prestada pelos restantes membros. E essa homenagem não deixa de ser prestada a Rickey Washington, pai do artista, quando Kamasi o apresenta na flauta transversal e afirma ser aquela a pessoa que lhe ensinou tudo o que sabe até hoje.

Com a voz de Patrice Quinn invocavam-se as energias do Universo. O seu corpo seria apenas um veículo de libertação e as suas palavras eclodiam em hinos pela mudança. Gritos de guerra faziam-se sentir repetidamente em ‘Fists of Fury‘: “Our time as victims is over / We will no longer ask for justice / Instead we will take our retribution”, num crescendo de emoção que culminou numa explosão paralisante para o público. Muitas vezes, o físico não consegue acompanhar a complexidade do transcendente, ou então, os corpos contorcem-se em movimentos conturbados para lá do que estão habituados.

No meio do espetáculo, a banda pára e os dois bateristas Tony Austin e Ronald Bruner tiveram o seu momento de destaque quando nos deixaram petrificados perante um dueto que em nada se parecia com uma competição, antes uma dança enraivecida com o ritmo.

Kamasi apareceu-nos como um profeta da diversidade. Reivindicando um ser uno e coletivo, simultaneamente. Nós, todos, como um só. Não porque somos semelhantes, ou porque falamos a mesma língua, porque temos tendência em acreditar nas mesmas cismas, nem mesmo por fruto de histórias cruzadas. Unos na diferença acolhida por todos e cada um. “A diversidade não é algo a ser tolerado, mas celebrado.” Por essa razão, somos presenteados com ‘Truth‘ do EP Harmony of Difference de 2017, um crescendo épico que nos eleva a um plano de eternidade.

Sentimos, de formas distintas, instantes comuns. E Kamasi Washington acredita no momento em que nos celebremos a nós mesmos por sermos e existirmos ao mesmo tempo que tanta gente bela e diversa. “Te amo”, repete indefinidamente até ao fim do concerto.