Perante um coliseu praticamente lotado, Salvador Sobral apresentou o seu novo álbum de estúdio. Uma noite mágica e repleta de emoções fortes.

Com o fim de semana à porta, o ambiente era tranquilo à porta do Coliseu dos Recreios. Apesar da entrada descontraída por parte da multidão que se aglomerava na rua das Portas de Santo Antão, há um clima no ar que deixa patente um entusiasmo geral. Afinal de contas, Salvador Sobral convocou os seus fiéis para estarem presentes numa ceia, que tem tudo para ser marcante.

Com Paris, Lisboa, o seu aguardado segundo álbum de estúdio na bagagem, o regresso do músico português a esta sala é um evento deveras importante. Afinal de contas, foi no Coliseu que o Salvador Sobral foi declarado vencedor do Festival da Canção em 2017 e seguiu para conquistar a Eurovisão nesse mesmo ano.

Desde então, a vida de Salvador ganhou uma exposição mediática feroz, motivada pelos seus problemas de saúde, mas também pelas suas qualidade enquanto músico.

“Apaguem as máquinas

À medida que as pessoas entram na sala, nas colunas de som, ouve-se a percussão de 180, 181 (catarse), o tema introdutório do seu novo disco. O ritmo tenso que marca o compasso da bateria causa algum desconforto, mas ao mesmo tempo, prova que estamos numa noite que promete ser especial.

Baixam-se as luzes e Salvador Sobral surge na tribuna central, a cantar. Com os holofotes e os olhares incrédulos do público a recaírem sobre ele, o músico acaba por descer e junta-se aos seus fiéis no centro da sala lisboeta. Com um gorro preto na cabeça, assiste-se a um Salvador a libertar-se dos seus “demónios” enquanto exclama em plenos pulmões: “Apaguem as máquinas. Arranquem os fios“.

Termina a catarse de Salvador Sobral com a plateia rendida à veia mais teatral do músico português. Entram em cena o pianista Júlio Resende, o contrabaixista André Rosinha e o baterista Bruno Pedroso, enquanto Salvador sobe ao palco com uma chuva de aplausos.

Virtuosismo em palco

Já em modo quarteto, Salvador Sobral interpreta Change, do seu primeiro disco Excuse Me. Para além de cantar, o artista português deixa-se levar pela musicalidade dos instrumentos em palco que faz com que gesticule os seus braços de forma pouco ortodoxa. Há momentos em que Salvador faz “air guitar” durante os solos de contrabaixo ou em que ande “passarinhar” em pleno palco.

Podia fingir que era só mais uma noite, mas não é“, anuncia Salvador Sobral. “Estou para aí há umas duas horas a tremer de nervosismo, porque afinal estou a celebrar uma vida nova“, confessa. “Voltar a casa, ainda por cima com casa cheia, é um privilégio“, remata o músico.

O serão prossegue com Presságio, uma música que vai buscar a letra ao poema do mesmo nome de um “gajo” chamado Fernando Pessoa, palavra usada por Salvador Sobral .

Entre canções, Salvador arranca algumas gargalhadas com o seu característico humor. O concerto ganha uma nova proporção quando entram em palco uma secção de cordas, compostas por três violinos e um violoncelo. Ouve-se uma versão embelezada de Grandes Ilusiones, do seu mais recente disco.

Surge uma segunda voz

Em Benjamim, ocorre o primeiro momento karaoke da noite com o “maestro” Salvador a comandar o coro espalhado pelo coliseu.

Agora chamo a palco a voz que mais admiro em Portugal” anuncia Salvador Sobral. Depois de algum suspense, o músico chama António Zambujo a palco para interpretar Mano a Mano com direito a um solo de piano de Júlio Resende pelo meio. Acontece um dos momentos altos da noite com várias pessoas a levantar-se da suas cadeiras para aplaudirem de pé.

Ay Amor encerra o alinhamento do concerto antes do encore com Salvador a cantar em modo acapella no corredor central do Coliseu dos Recreios.

Gravem com a alma

Em jeito de despedida, Salvador Sobral revela que vai interpretar Amar pelos Dois na sua forma original, o que implica o acompanhamento de instrumentos  decordas. Surpreendentemente há contenção por parte do público em cantar em plenos pulmões e de pegar nos seus telemóveis para captar o momento. No fim, Salvador pede ao público para acompanhá-lo e aí, o Coliseu rende-se à composição que levou Portugal vencer, de forma inédita, a Eurovisão.

Acompanhado apenas com Júlio Resende. há tempo para mostrar uma música inédita . “Peço que não usem os telemóveis. Gravem com a alma“, atira Salvador Sobral, antes mesmo de interpretar o tema que ainda não tem nome.

Cerca de duas horas depois, o concerto termina com Anda Estragar-me os Planos e Salvador a cantar no meio da multidão com o catalão Leo Aldrey na guitarra enquanto a restante banda acompanha a festa que está a acontecer.

Vénias finais, a cortina de palco desce e as luzes acendem. Apesar ter acabado, o que aconteceu no Coliseu dos Recreios foi uma ode à música que, sem dúvida, é um dos pontos altos da carreira do jovem Salvador Sobral.