Na lotaria eurovisiva, por vezes a imprensa da especialidade, constituída por fãs que escrevem em sites, decide fazer tropelias. E o favorito Conan Osiris, que saltou para o top10 mal foi coroado em Portugal, passou a ser recebido em surdina pelos aplausos traiçoeiros do press center em Telavive. Apostam que não é suficiente, que o público não vai compreender. Esta quinta (9), o rapaz do futuro cedeu à pressão. Disse que o ensaio foi uma merda. E explica ao Espalha-Factos porquê.

Espalha-Factos: Hoje, quando vieste para a conferência de imprensa, estavas um bocadinho triste, (…)

Conan Osiris: Chateado…

EF: Chateado com o ensaio de hoje. O que é que se passou?

C: Foi a luz que não estava presente… Uma data de coisas que nós definimos e que não apareceu.

EF: Mas sentes que o palco está muito escuro? Há alguma alteração em concreto…

C: Nós já pedimos, imagina, do primeiro ensaio para agora, nós já pedimos mais luz. E especificámos tudo o que queríamos, já tínhamos especificado antes, já tipo umas quatro vezes, e esses elementos ainda não apareceram. E ainda por cima, para ajudar à festa, o áudio não foi aquele com que tínhamos feito o soundcheck e então todo este conjunto de situações fez com que nós achássemos que o ensaio estava ganda merda. O mix que ouvimos era diferente do que tínhamos arranjado.

Antes de os concorrentes chegarem a Telavive decorrem, na arena, ensaios com substitutos dos cantores. Estes substitutos interpretam as músicas e atuam com iluminação, som, coreografia e figurinos sugeridos pelas delegações, que as vão avaliando através de imagens enviadas a partir da cidade israelita. De acordo com informações obtidas pelo EF, a delegação portuguesa deu feedback à produção israelita – ainda nessa fase – para alterar o esquema de luzes. Isso não foi atingido de forma satisfatória. E continua sem sê-lo ao fim dos dois ensaios técnicos. 

E as apostas? ‘Cagari cagaró.

EF: Conan, tem havido alguma discussão nos últimos dias em torno da roupa, em torno da própria reação da imprensa aqui em Telavive, como é que vocês lidam com essas questões?

C: Nós estamos a lidar bué bem, é só um bocadinho chocante perceber…

João Reis Moreira: É um bocadinho triste ver que estamos a receber bué elogios e bué embracement da Europa, dos outros concorrentes e as críticas estão a vir de Portugal, de onde nós esperávamos que viesse o maior suporte. E isso é que nos magoou mais, mas estamos ainda fixos no nosso ponto e acreditamos naquilo que desenhámos.

Fotografia: Diogo Leal Magalhães / Espalha-Factos

EF: Questões como as previsões e as apostas… isso preocupa-vos?

C: Vais pôr em português?

EF: Vou.

C: Então é assim – Cagari cagaró! (risos)

EF: Desde que Portugal venceu em 2017, e depois quando no ano passado Portugal recebeu a Eurovisão, que as pessoas têm estado mais de olhos postos em nós e têm estado mais atentas ao que Portugal está a fazer. Vocês têm sentido essa pressão?

C: Não sentimos uma pressão, mas sentimos que estamos todos mais atentos ao Festival. Antigamente, antes do Salvador, era um bocadinho – é mau, mas era um bocadinho assim… toda a gente se estava um bocado a cagar. E nós também partilhámos um bocado da cena do crescendo do Festival.

EF: Quando tu tiveste que compor a música para o Festival, de alguma forma pensaste nisso, em estar à altura desse novo status do Festival?

C: Não. Eu pensei: Se me estão a convidar, é porque acham que eu já faço parte dessa mudança que eles também querer trazer. Então é do género “okay, se vocês me estão a aceitar como algo que pode dar-vos o que vocês querem agora, sendo agora o agora depois do Salvador, então eu já fico lisonjeado e motivado o suficiente para fazer uma cena de que eu goste”.

EF: Por falar em coisas portuguesas, nós entrevistámos, no dia do primeiro ensaio, uma fã tua, inglesa, a Nikke, e ela diz que aquilo que a canção a faz sentir é saudade. A pergunta que eu te faço é quais são as reações que tens recebido mais. Eu sei que tens recebido muitas diferentes, mas se puderes identifica-me aquelas que têm sido mais dominantes.

C: As duas mais dominantes são o facto de não precisarem de ler a tradução da música para sentirem o núcleo da música, que é esse mix entre a vida e a morte. E a outra é aquela reação “isto faz-me dançar, eu quero dançar agora”, estás a ver? São as duas maiores.

EF: O facto de estares na Eurovisão abriu-te algumas portas a nível internacional?

C: O meu manager já anda aí a biznar bué, só que eu não sei totalmente. Ele é bué cautious, então eu ainda não sei. Ainda é muito cedo para dizer.

EF: A Tamta é muito tua fã, as raparigas da Polónia também. Os artistas que tens conhecido aqui… tens ficado com vontade de colaborar com alguém?

C: Sabes que colaborar, para mim, é um passo bué estranho. Porque eu sempre fui habituado a fazer música sozinho, então eu ainda estou a dar os primeiros passos para tentar entender como – e se fica bem – eu colaborar. Porque eu sinto-me sempre um bocadinho ignorante, porque sempre aprendi música sozinho, então quando vou para outro artista sinto sempre que não vou estar apto para isso. Mas pouco a pouco vou destruindo isso e possivelmente fazer mais connections dessas.

EF: Tens músicas favoritas, das que já ouviste?

C: É uma coisa que fica tão deturpada, que eu quero realmente ver todas as atuações e  deixar todas as músicas amadurecer no espaço para ver o que é que me fala mais, entendes? Eu ainda não tive oportunidade para isso.

EF: Para as pessoas em Portugal que estão a apoiar, e não as outras, o que é que tu queres dizer?

C: Se conseguirem, confiem em mim. E, mais do que isso: nós às vezes já temos uma história, por vezes tão feia, de conquista. Às vezes é preciso só abrir mais o peito e deixar as coisas fluir, não vir logo com facas e cenas, porque quero conquistar e ganhar esta merda toda. Calma, o mundo é também um bocadinho sobre trocar e não roubar.

Conan Osiris Eurovisão

Fotografia: Diogo Leal Magalhães / Espalha-Factos