Nicola Allen gosta que lhe chamem Nikke e já é uma velha conhecida do Festival da Eurovisão. Este domingo (5) aproximou-se de um novo amigo, Conan Osiris. Abraçou o cantor português, de quem é fã, e juntou-o a uma longa galeria de artistas que admira e respeita. É seguidora do certame desde os cinco anos, agora tem 51.

Não esconde a emoção quando conta que começou a assistir à Eurovisão ao vivo no mesmo ano em que um acidente de carro a atirou para uma cadeira de rodas. Nesse mesmo ano ainda foi a Birmingham, à edição de 1998, pelo próprio pé. A acreditação para os fãs era um autocolante amarelo colado no peito. As máquinas fotográficas não entravam e na sala de imprensa só havia seis computadores.

Já lá vão 21 anos. “Eu tive um acidente que me pôs nesta cadeira de rodas, nessa altura eu pensei que podia desistir ou seguir com a minha vida. Decidi continuar. Fazer isto, aproveitar o tempo. Decidi que ninguém podia dizer-me o que eu podia ou não podia fazer. Estive em países maravilhosos por causa da Eurovisão“, conta.

Este festival é, para Nicola, uma experiência verdadeiramente internacional. Britânica de nascença, é redatora no site Eurovision Bulgaria.Sou muito orgulhosa por ser uma parte adotada da Bulgária“, afirma. Mesmo quando isto lhe provocou alguma divisão de sentimentos, quando Portugal ganhou em 2017 e o país adotivo ficou em segundo.

Uma britânica adotada pela Bulgária que já sabe o que é saudade?

Fala da vitória do nosso país com um brilho no olhar. “Ele mereceu. Portugal merecia há tantos anos. Nós estávamos tão felizes! A arena, na noite em que ele ganhou, as pessoas todas cantavam PORTUGAL, PORTUGAL, PORTUGAL! Todos os fãs o apoiavam”, relata Nikke Allen.

Foi graças a Salvador, que descreve como “uma daquelas pessoas com alma bonita“, que esteve em Portugal pela primeira vez. “Passei momentos maravilhosos em Lisboa, e tive uma vista maravilhosa na arena, que é muito boa para pessoas com deficiência (…) as pessoas são muito carinhosas e prestáveis. Fui a Sintra, a vários locais, provei os famosos pastéis de nata. Definitivamente vou voltar“.

Talvez Nikke já saiba o que é a saudade. Diz que sim. Que Telemóveis, a canção de Conan Osiris, que hoje abraçou pessoalmente, a faz sentir saudade. “Eu conheço a palavra. E não posso descrevê-la, mas posso senti-la“, afirma. Vai mais longe: “Eu acho que saudade é aquela ânsia de algo, aquela falta de algo que queremos muito. E é isso que a canção do Conan me traz. A canção do Conan faz-me sentir como a do Salvador fazia.“, explica.

Nikke Allen

“Quando o Conan e o Salvador cantam fazem-me sentir…” (Fotografia: Diogo Leal Magalhães / Espalha-Factos)

Fã das participações nacionais, é convicta quando afirma admirar o facto de o nosso país se ter mantido “sempre fiel à língua portuguesa e às tradições musicais“, relembrando e cantando Sobe, Sobe Balão Sobe, Conquistador e Um Grande, Grande Amor. Em Portugal, “vocês fazem a vossa própria cena“, diz ao Espalha-Factos.

Eu adoro as canções pop, eu adoro o rock, porque eu sou um gaja do rock, mas nós precisamos de diversidade no concurso e o Salvador trouxe essa diversidade, porque ele era tão puro, tão simples. Ele não tinha truques, não tinha manias, chegou, ficou no meio do palco e cantou. Isso foi incrível. Quando falei com ele, agradeci-lhe por trazer aquela canção à Eurovisão, porque isso lembrou-me dos velhos tempos, quando eu era uma criança e estava a assistir à Eurovisão no estilo antigo“, contou-nos Nikke, relembrando o momento em que encontrou o amigo Salvador Sobral, alguém “simples, gentil, com quem é muito bom falar“.

Pergunta aos mais novos a quantos festivais já foram. Bem contados, são números que ainda não enchem um punhado. Ela garante que vai continuar por cá, “com uma mente aberta, um coração aberto, sem se meter em política“. Nikke Allen não está no palco, mas faz parte da magia deste espetáculo. “Estou aqui para me divertir, conhecer os cantores, viver a atmosfera maravilhosa destas duas semanas“. Nós também.

Fotografia: Diogo Leal Magalhães / Espalha-Factos