Film Symphony Orchestra (FSO), a primeira orquestra especializada em bandas sonoras, está em Lisboa a 4 de maio no Coliseu dos Recreios. O Espalha-Factos esteve à conversa com o seu maestro.

Conduzida por Constantino Martínez-Orts, a FSO apresenta o seu espetáculo de homenagem ao compositor John Williams, que traz na bagagem bandas sonoras de filmes como as sagas de Harry Potter Guerra nas Estrelas, Tubarão, Apanha Se Puderes A Lista de Schindler.

Film Symphony Orchestra | Fonte: Divulgação

Já pensavas em ser maestro durante a tua infância ou foi uma coisa que se foi desenvolvendo ao longos dos anos, com o estudo?  

Desde muito cedo que adoro música. Na verdade, o John Williams teve um grande impacto na minha carreira. O meu amor por música clássica começou quando eu era criança, com uns cinco anos, com o filme E.T.. A primeira vez que vi o filme foi um momento muito importante na minha vida – lembro-me de ir ao cinema com os meus pais, e depois disso comecei a ouvir música clássica a sério. Não só bandas sonoras de filmes, mas apaixonei-me a sério pelo estilo pós-romântico do [John] Williams.

Desde muito cedo que soube que música era o meu futuro, cresci a estudar música. Estudei num conservatório e especializei-me em [bandas sonoras]. Como sempre adorei bandas sonoras, sabia que queria fazer alguma coisa relacionada com música, como compor ou conduzir. Por isso especializei-me em Composição Cinematográfica em Londres, continuei os meus estudos de maestro em Nova Iorque, Itália, Roménia… Vida de músico [risos]. Vi a maneira como eram tratadas as bandas sonoras em Londres, em Nova Iorque e Los Angeles e quando voltei para a Espanha decidi criar [a Film Symphony Orchestra].

 

Penso que já respondeste à minha próxima pergunta – consegues separar o momento em que olhaste para o grande ecrã e viste música e cinema a complementarem-se um ao outro perfeitamente? Foi com E.T., na tua infância?

Acho que é mais um processo. Eu apaixonei-me pelo filme E.T. em miúdo, mas acho que se tratou de um desenvolvimento da minha paixão por bandas sonoras e por filmes. Foi com compositores John Williams, Jerry Goldsmith ou Alan Silvestri, que ouvi toda a minha vida, que ela evoluiu.

 

Como é que veio à tona o projeto da Film Symphony Orchestra em homenagem a John Williams?

Tendo sido, durante muito tempo, um maestro clássico que conduziu óperas e sinfonias, estava ciente de que a música clássica não chega a todos os públicos. Nos meus concertos a conduzir Mozart ou Puccini, via crianças, famílias, então, a certo ponto decidi criar uma orquestra que se pudesse aproximar ao grande público. Penso muito nas emoções que sinto a ouvir sons sinfónicos, e quis tornar isso mais universal. Portanto, criámos esta orquestra com a ideia de expandir estas melodias sinfónicas utilizando bandas sonoras como um canal para chegar a toda a gente, passando a mensagem de que não é preciso ser um expert em música clássica para apreciá-la – toda a gente pode ouvir, gostar, rir, chorar, assustar-se com Jaws, surpreender-se com Harry Potter, chorar com a Lista de Schindler. As emoções que sentimos a ouvir música são universais e acho que todos rimos, choramos e nos apaixonamos no cinema e em casa com estes filmes. Cada um tem uma banda sonora que traz consigo, todos temos a nossa banda sonora da nossa vida e é isso que oferecemos.

 

Tu conduzes as composições de John Williams, por exemplo. Há alguma maneira de adicionar a tua própria marca como maestro ou tens de seguir a composição à risca?

Eu tento respeitar ao máximo o som dos compositores. É difícil, mas eu tento sempre adicionar a minha marca, claro. Os meus tempos agora até estão mais rápidos que o normal, mas tento o meu melhor para me controlar e fazer a melhor versão, a mais parecida com a original.

A música é composta e gravada para o grande ecrã e, por isso, os tempos são importantes e condicionantes para uma cena em particular, mas sim, tento sempre deixar a minha marca nas performances.

 

Já compuseste para cinema, televisão e até para um campeonato de atletismo.

Sim, há 20 anos! [risos]

 

Qual é a diferença no processo de condução para música no cinema, televisão e para um evento desportivo? Segues o mesmo método?  

É uma pergunta interessante. Por um lado, um compositor tem de ter a sua marca. [John] Williams tem o seu próprio som; a fanfarra dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, ou Atlanta, ou Seoul também, e temos de seguir o tom grandioso de um evento desportivo.

Eu respeito muito o som de John Williams quando conduzo as suas composições. Em termo de bandas sonoras de Hollywood em geral e Williams em particular, cada uma é facilmente identificável e característica, com fanfarras poderosas e brilhantes, com linhas melódicas harmoniosas e quentes e respeitamos todos os estilos. Os nossos concertos são uma viagem entre diferentes filmes, estilos e épocas de cinema – os anos 1950, 1960, 1970, 1980, 1990 – com sons completamente diferentes.

 

Falaste das diferentes épocas de cinema. Qual é a que te interessa mais?

Isto é muito romântico. Cresci com os filmes dos anos 1980 e 1990. Super Homem, Lista de Schindler, Star Wars, Indiana Jones, a banda sonora de De Volta ao Futuro do Alan Silvestri, Encontros Imediatos de Terceiro Grau. Esta era é mais romântica para mim por causa da minha conexão com eles enquanto crescia.

Ao mesmo tempo, adoro Harry Potter, Hook foi incrível. Quando a música é boa, gosto de qualquer uma.

 

Há muitos filmes, como os de Wes Anderson, que contam com uma banda sonora que mistura música originalmente composta para o filme e canções já existentes, de bandas conhecidas (ou não). Sentes que há um método superior ao escolher a banda sonora? Favoreces banda sonoras originalmente compostas para um filme? 

Depende muito do filme que se pretende criar. O [Wes] Anderson tem uma maneira muito específica de fazer filmes. [Stanley] Kubrick não gostava de ter música original nos seus filmes, usava sempre músicas já existentes de outros compositores. O [Steven] Spielberg é sempre muito atento à importância da música e gosta sempre de ter músicas compostas para cada filme. Por outro lado, temos o [Quentin] Tarantino que não se importa de cortar a música a meio de uma cena abruptamente, sem transições o que, na minha opinião, é terrível porque corta um bocado a magia. É uma questão de escolha do realizador.

Qual é o melhor? No fim do dia, tu podes achar que o método do Tarantino é o melhor, e é a maneira dele e continua a ter filmes muito bons. Não há regras estabelecidas quando falamos de arte.

 

Também dás aulas de música e condução de orquestras em conservatórios. Ser professor é uma tarefa tão prazerosa como ser maestro numa orquestra que faz apresentações ao público?  

No momento, não estou a dar aulas porque o ritmo da Film Symphony Orchestra é bastante acelerado para mim. Dou aulas em Espanha; no Conservatório de Música da Berklee; dou aulas de Condução para Filmes no Departamento de Bandas Sonoras. Agora estamos no fim da digressão de 65 concertos, os próximos que vamos dar são os últimos três, e eu não tenho mesmo tempo para dar aulas.

Entre dar aulas, conduzir orquestras e compor, tenho sempre encontrado um equilíbrio. A compor, estou muito sozinho, só eu e mais ninguém. Quando conduzo, estou sempre a atuar com muita gente, não é como ser pianista, em que se passa muito tempo a estudar sozinho – conduzir é fazer música com muita gente, o que é muito bom. Dar aulas é muito bom porque partilha-se a sabedoria e aprende-se muito ao mesmo tempo. Costumo ensinar jovens com mais ou menos 20 anos, o que me permite aprender coisas novas de cabeças modernas. Gosto igualmente das três atividades, tenho apenas de voltar a encontrar o equilíbrio, apesar de amar ser maestro e sentir-me muito sortudo por poder ser maestro nesta digressão dedicada a um compositor tão grandioso como o John Williams, é mesmo uma dádiva.

 

Toda a gente conhece as bandas sonoras de John Williams, principalmente de Harry Potter ou Guerra das Estrelas. É intimidante conduzir temas tão conhecidos pelo grande público?  

Sempre estive muito ciente das dificuldades de tocar música que todos conhecem, por isso é que temos tanto cuidado. O mais importante é que tratamos a música dos filmes com muito respeito. Para nós, não há uma distinção entre música clássica e bandas sonoras. Muitas pessoas pensam que bandas sonoras são “música de segunda classe”, abaixo das operas e orquestras sinfónicas. Para mim, as bandas sonoras de John Williams, Hans Zimmer e Alan Silvestri são comparáveis a uma ópera de Puccini ou uma sinfonia de Mozart. Acho que o público também percebe a importância que as bandas sonoras têm e nós apreciamos muito o facto de termos um trabalho tão desafiante e tentamos dar o nosso melhor.

 

Se pudesses escolher um filme para compor a sua banda sonora, qual seria?  

Há tantos filmes que adoro, é muito difícil escolher. Numa perspetiva mais romântica, eu escolheria o E.T., pela minha conexão com o filme. Mas eu adoro o Inception, já o vi umas 25 vezes e acho que seria um grande desafio compor música para esse filme.

 

 

Film Symphony Orchestra