Ao longo de seis meses, jovens estudantes de música e dança de Torres Vedras reuniram-se, com o intuito de desafiar a imaginação. O resultado deste laboratório criativo é a coreografia de Maria Borges, Desfrutemos o Delicado Instante em que Ela Muda de Vontade. O Espalha-Factos esteve por lá e assistiu a tudo.

A música e a dança dialogaram, aproximaram-se e refletiram. Deste cruzamento artístico resultou um espetáculo intimista que explora de forma criativa o espaço e os movimentos, as interações e as vontades.

Escola de Dança Movimento

Foto: divulgação

Os protagonistas do espetáculo

Foram oito as bailarinas, da Escola de Dança Movimento, que habitaram criativamente o palco do Teatro-Cine. E foram nove os jovens músicos, da Escola de Música Luís António Maldonado Rodrigues da Associação Física, que se desafiaram e superaram, num local onde outrora já tinham tocado, mas nunca da mesma forma.

Escola de Dança Movimento

Foto: Magda Matias

A música cruzou-se com a dança

No dia 27 de abril, no palco do teatro de Torres Vedras, todos se desafiaram e foram além das suas habituais “funções”.

A coreografia começou, ao som de um violino, e no escuro do palco surgiram diversos bailarinos. Existia uma harmonia cromática, os tons quentes contrastavam com os frios. Enquanto uns tocavam, outros dançavam. Mas nem sempre foi assim. Ao longo da coreografia, os dois mundos misturaram-se e inverteram-se os papéis, os bailarinos tocaram e os músicos dançaram.

Os instrumentos, as músicas e os compositores

Uma voz, um piano, um violoncelo, um violino, uma guitarra e uma flauta transversal. Foram estes os instrumentos presentes em palco. E o que tocaram eles?

As músicas que acompanharam o espetáculo são de consagrados compositores, tais como Camille Saint-Saens, Ernesto Kohler e Johann Sebastian Bach, bem como um tema dos torreenses Guarda-Rios.

escola de dança movimento

Foto: Mário Rosado

Os instantes que fizeram o espetáculo

Este espetáculo, coproduzido, foi resultado de três tipos de “instantes”: o instante em que a coreografa Maria Borges abraçou o projeto; o instante em que os músicos aceitaram o desafio e o instante em que as bailarinas deram corpo aos movimentos.

O instante em que tudo começou

Maria Borges deu corpo e alma à encomenda que o Serviço Educativo do Teatro-Cine de Torres Vedras fez à Escola de Dança Movimento e dirigiu a criação artística do espetáculo, direcionado para o público juvenil.

As ideias foram surgindo, os movimentos fluíram e, de modo natural, o espetáculo ganhou forma. “Procurei não impor qualquer constrangimento aos participantes e sempre achei mais importante a componente pedagógica e o processo criativo do que o resultado final, materializado em palco”, afirmou a coreógrafa em conversa com o Espalha-Factos.

escola de dança movimento

Foto: Magda Matias

Tudo começou com uma exploração de movimentos por partes das bailarinas e só posteriormente é que se juntaram os músicos. “Tivemos um número muito limitado de encontros com todo o elenco e apenas na sua fase final, já no Teatro-Cine de Torres Vedras, conseguimos juntar todos os intervenientes”.

Será que a coreógrafa se sentiu nervosa em alguma fase do processo? Sim, sentiu-se mais nervosa do que quando dança. “Queremos que todos estejam confortáveis e seguros. Queremos que desfrutem e se deixem voar. Não é tanto o medo do erro, mas o medo da sua frustração e de quebrar as suas expectativas, que são sempre delicadas”, admitiu a diretora artística.

No final, Maria Borges sente-se grata por ter tido a oportunidade de trabalhar com vários corpos singulares que se transformaram, em palco, num só. “No final, se existe um sentido… esse sentido é cada um deles”, confessou.

Escola de Dança Movimento

Foto: Magda Matias

O instante em que o músico dançou

Francisco Morais tem 15 anos e é um apaixonado pela música. Toca flauta transversal e, embora já tenha atuado inúmeras vezes no Teatro- Cine de Torres Vedras, esta foi a primeira vez que subiu ao palco acompanhado por bailarinos.

Na altura em que recebeu o convite para fazer parte do espetáculo, Francisco acreditava que não iria sair da sua zona de conforto, todavia foi convidado a dançar. “Esperava que fosse só tocar, como sempre faço, mas foi bem mais do isso. Julgava-me um pé de chumbo, mas soltei-me, libertei-me desse pensamento, e consegui superar-me”, admitiu o jovem.

Neste espetáculo, onde os músicos para além de tocarem também dançam, o jovem flautista sentiu “uma energia fora do comum” e foi músico, como é costume, mas foi também dançarino, ainda que só por um instante.

Questionado acerca do seu futuro enquanto bailarino, Francisco sorri e torce o nariz, “gosto da dança e gostei de dançar, mas não me imagino a fazê-lo a tempo inteiro, não me imagino desse lado”.

Movimento

Foto: Magda Matias

Os instantes de uma bailarina

Mariana Bernardino, de 18 anos, começou a dançar com tenra idade. Não se recorda do instante que a fez querer enveredar por tais caminhos, mas sabe que nunca parou e que gosta realmente do que faz.

Não foi a primeira vez que Mariana dançou no teatro, nem foi a primeira vez que se fez acompanhar de músicos, contudo sentiu “um nervoso miudinho” na hora da atuação. Este stress que teima em não passar com os anos, demonstra o sentido de responsabilidade da bailarina que “querer dançar e demonstrar da melhor forma possível todo o trabalho que foi desenvolvido ao longo de seis meses”.

O facto dos músicos serem também eles jovens e terem idades semelhantes às dos bailarinos, fez com que a experiência se tornasse diferente, “ajudou na interação e na realização de todo o processo”.

A nível pessoal, a coreografia levou a que Mariana saísse da sua zona de conforto, com o ballet clássico, e contribuiu para que a artista se redescobrisse e desse corpo e alma a movimentos mais contemporâneos, espontâneos e livres.

Se tivesse de resumir em três palavras esta experiência Mariana diria: “reflexão”, “movimento” e “expressão”.

escola de dança movimento

Foto: Mário Rosado

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