Não têm dragões. Não conseguem viajar no tempo, nem ressuscitar. E é isso mesmo que torna os Lannister de Casterly Rock tão queridos aos olhos dos fãs.

A sua intriga, a sua sede por riqueza e poder e a sua capacidade de saírem sempre a ganhar – tornam os Lannister o choque com a realidade que permite aos leitores do universo de George R.R. Martin manterem os pés no chão e não se deixarem levar por um redemoinho de fantasia.

Para além de tudo isto, a família Lannister deu aos leitores algumas das personagens mais marcantes, sem as quais a saga de As Crónicas de Gelo e Fogo não existiria. A maléfica rainha Cersei, capaz de tudo para proteger a sua família, o seu irmão gémeo e amante, Jaime, que ao perder a sua mão da espada ganhou um lugar nos nossos corações e Tyrion, a personagem que se morrer no próximo livro irá criar uma revolta entre os fãs da obra de George R.R. Martin.

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Kevan Lannister (Ian Gelder), Tommen Baratheon (Dean-Charles Chapman) e Pycelle (Julian Glover). Fonte: HBO

A maior inspiração para esta família é emprestada diretamente do mundo real, da nossa História. Westeros é uma suposta representação fantástica da Grã-Bertanha e a Guerra dos Tronos é um reconto da Guerra das Rosas Inglesa. E, enquanto os Stark e os Targaryen procuram refúgio no folclore e na mitologia, os Lannister são quase inteiramente baseados em pessoas reais e trazem ao de cima o pior do lado humano, num retrato tão real que nos parte os corações.

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A Vida Real da Casa de Lancaster

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Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau) e Bronn (Jerome Flynn). Fonte: HBO

A Casa Lancaster foi a casa que serviu de inspiração para a criação dos Lannister. A guerra das Rosas, que marcou a vida dos ingleses durante o século XV, foi uma disputa entre os York e os Lancaster pelo trono de Inglaterra, que começou com uma rebelião liderada por Henrique IV, Lancaster de sangue, contra o rei “louco” Ricardo II.

Soa familiar?

Cersei: Uma Rainha Francesa Capaz de Tudo Para Ver o Seu Filho no Trono Inglês

Cersei Lannister. Fonte: HBO

Henrique IV e os Lancaster conquistaram a coroa. Gerações se passaram até o tímido rei Henrique VI ter escolhido uma rainha francesa que não olhou a meios para seguir as suas ambições, Margaret de Anjou.

Esta tomou as rédeas do poder, depois de ver que o seu marido não era o rei que Inglaterra precisava. O conflito acabou por estalar quando a rainha francesa foi acusada de ter traído o seu marido com o duque de Somerset e que o herdeiro do trono, Edward, não era mesmo filho de Henrique VI (a história de Edward não faz lembrar a de Joffrey?)

Richard de York, “Protetor do Reino” (ou Mão do Rei, como preferires), reuniu um exército contra Margaret para retomar o trono, e acabou morto, com a sua cabeça no topo de uma lança. O filho de Richard assumiu então a causa do pai e Margaret retaliou com vingança. Afinal, a rainha faria tudo para ver o seu filho coroado como rei. 

Margaret de Anjou viu o seu filho ser assassinado e perdeu o trono para os seus vis inimigos, a casa de York, tal como Cersei viu Joffrey envenenado no próprio casamento e talvez venha a perder o seu trono para os seus inúmeros inimigos. 

Assim fica patente uma analogia quase perfeita entre as histórias de Lannister contra Stark e dos Lancaster contra os York.

Jaime: De Cavaleiro Imperial Alemão a Nobre Italiano

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Jaime Lannister a liderar os exércitos. Fonte: HBO

Jaime Lannister não é inspirado na família Lancaster. Em vez disso, George R.R. Martin atravessou o império alemão e a nobreza italiana para escolher o cavaleiro imperial Götz von Berlichingen e o nobre italiano Cesare Borgia como inspiração para Jaime.

No século XIV Berlichingen era um verdadeiro cavaleiro com uma mão de metal – embora a sua mão fosse de ferro e não de ouro. Era famoso por conseguir com essa mesma mão não só conseguir segurar um escudo, as rédeas de um cavalo ou uma pena de escrever, como lutar de igual para igual com todos os cavaleiros europeus.

Cesare Borgia, por outro lado foi o nobre cobarde que serviu de inspiração para a obra O Príncipe, de Nicolau Maquiavel. Cesare começou como um homem da igreja, estando como Jaime, sob juramento de celibato, mas eventualmente cansou-se, conheceu uma carreira militar de grande sucesso, assassinou o seu irmão e suspeita-se que tenha tido um filho bastardo com a sua cunhada. Foi então este o esqueleto que George R.R. Martin usou para construir Jaime Lannister, levando-nos depois ao âmago da personagem para nos mostrar o seu lado bom por detrás de todas as mentiras, assassinatos e incesto.

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Tyrion: Um dos Vilões Mais Infames de Toda a História Inglesa

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Tyrion Lannister em Game Of Thrones. Fonte: HBO

Tyrion Lannister. O bebé diabólico que rasgou o ventre da sua mãe e que a roubou aos seus irmãos Cersei e Jaime, matando-a. Um favorito dos fãs e um dos poucos Lannister que nos é apresentado por George R.R. Martin como tendo um (bom) coração.

E em quem é baseado o aclamado anão? Num dos vilões mais infames de toda a história inglesa – Ricardo III, vilão shakespeariano que assassinou os seus próprios sobrinhos para roubar a coroa.

Como é bem sabido, a História é escrita pelos vencedores. É muito provável que Ricardo III não tenha sido maquiavélico como nos contam os livros de História. Um político feroz, inteligente e astuto. Um excelente soldado, que mesmo que não tivesse uma boa relação com os seus irmãos nunca se provou ter sido ele realmente o assassino dos seus sobrinhos. Um governante bem sucedido, com um reinado justo e que foi comummente descrito como tendo um “bom coração”, sendo um defensor dos pobres até ser morto pelos seus sucessores que destruíram todas as marcas do seu reinado… Imagina se a História de Inglaterra tivesse sido escrita por Cersei, o que diria ela de Tyrion?

Um homem baixo com escoliose, deformado, o que lhe conferiu uma imagem fácil de demonizar. As suas deformações tornavam-no mal visto e foi facilmente acusado como traidor e assassino.

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Tyrion Lannister em Game of Thrones

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