Passado um ano desde que fez história ao tornar-se a primeira mulher afro-americana a ser cabeça de cartaz no festival Coachella, Beyoncé junta-se à Netflix numa produção que nos trás à memória dois dias de espetáculo, vozes como a de Maya Angelou e mais de um ano intensivo de trabalho. Homecoming, a film by Beyoncé, chegou dia 17 de abril à Netflix.

Este documentário transporta-nos para o ano passado, para o momento em que se ergueu uma pirâmide e subiram ao palco mais de 200 pessoas. Um cenário pintado de amarelo e cor-de-rosa, com bailarinos, percussionistas, cantores e músicos. Foi o grande regresso a casa de Beyoncé e cada pormenor não esteve ali em vão.

Fonte: Netflix

Se queria apenas ver os filhos de Beyoncé, Rumi, Sir ou Blue Ivy, não se deixe enganar porque é muito mais que isso. Entre a exaltação da raça negra, a voz feminista, a política e a defesa dos direitos, fez-se arte. Com a presença de Maya Angelou e o seu  relato de uma vida de luta pelas mulheres afro-americanas, em cada detalhe, em cada passo, em cada malabarismo e em cada som se encontrou uma história de luta, sofrimento, trabalho e superação que está agora documentada em mais de duas horas de filme, em que a responsável é ela mesmo: Beyoncé.

Beychella

Como sempre nos habituou desde cedo, a cantora norte-americana só mostra o que quer e quando quer, e cada frase, vídeo e detalhe é pensado pela própria. Homecoming não é exceção.

Um documentário que vem no seguimento da atuação de Beyoncé durante o festival Coachella em 2018 e que permite ver, mais do que os bastidores da preparação do festival, o espírito e a ideologia que trouxe consigo e que a fez levar mais de 200 bailarinos e músicos, a grande maioria afro-americanos, a subir ao palco consigo. Com o objetivo de marcar o mundo ao elevar a sua voz e cultura, a verdade é que ninguém ficou indiferente ao espetáculo que está agora documentado.

Uma história que retrata a própria cantora e que explica um passado cultural, uma realidade política, 22 anos de carreira e um espírito universitário criado em torno de todo o trabalho para o festival. O espírito das universidades afro-americanas, que vai além de qualquer espírito académico português. Este faz todo o sentido quando se pensa na realidade norte-americana, e no significado que este espetáculo tem para estas comunidades . É algo que transporta qualquer pessoa para uma universidade afro-americana, com o cunho pessoal da própria cantora que relata cada episódio da pré-produção, durante todo o filme.

Uma exibição de quatro meses de ensaios musicais, a par de outros quatro meses exclusivamente para as coreografias. Um universo planeado ao detalhe por Beyoncé, que prova que não há uma única vírgula colocada de forma aleatória.

Um espetáculo que fica na memória de todos os que tiveram a oportunidade de ver o que Beyoncé sempre nos habituou. Com êxitos como Crazy in Love, Say My Name e Formation, numa pirâmide com diversos andares, uma grua e a sua irmã Solange, as Destiny’s Child e o seu marido Jay-Z em palco. Um espetáculo musical cheio de luzes, energia e muita dança, nomeado por muitos como o “Beychella”.

Gravidez inesperada

Apontada como cabeça de cartaz do Festival, em 2017, Beyoncé abdicou do grande palco após uma gravidez inesperada de gémeos, durante a qual sofreu de pré-eclâmpsia, um distúrbio de pressão arterial que no final culminou numa cesariana de emergência, como relata no documentário:  “No útero, o coração de um dos meus bebés parou algumas vezes e, por isso, fui submetida a uma cesariana de emergência.”

Mais do que um filme que deixa documentado um dos maiores espetáculos que o festival já recebeu, Homecoming mostra ainda todo o trajecto de Beyoncé desde o nascimento de Rumi e Sir.  Uma dieta vegan rigorosa, várias horas seguidas de ensaio com pausas para a amamentação dos gémeos, e uma transformação corporal de alguém que no dia em que deu à luz pesava 99kg, e não teve mede de o mostrar ao mundo.

Tomou medidas extremas para a concretização de um espetáculo icónico que a levou além dos seus limites. “Eu sinto que sou uma nova mulher, num novo capítulo da minha vida, e nem sequer estou a tentar ser quem era antes. É tão bonito o efeito que as crianças têm em nós”, explica a cantora.

É difícil ficar indiferente a tanta história que é contada, em grande parte só através da música. Ver  Homecoming é voltar de novo à madrugada do dia 14 de abril de 2018, em Palm Springs, sentir a poder do Lift every voice and sing e acreditar que nada é impossível até acontecer.

Conta-se a história do regresso a casa de todos os que têm de ser ouvidos. Sejam eles afro-americanos, plus size, homens ou mulheres. E foi isso que Beyoncé fez.