Rebelde, inovadora, distinta de qualquer outro conteúdo na televisão norte-americana, assim foi Crazy Ex-Girlfriend durante quatro temporadas (2015-2019). 

Terminou no passado dia 5 de abril, com um episódio duplo, que contemplou o especial Yes, It’s Really Us Singing: The Crazy Ex-Girlfriend Concert Special, uma explosão de alegria e um ponto final digno depois de um episódio que celebrou o âmago da essência da série. 

Vou disciplinar-me e não revelar mais por agora. Ao fim de contas, estou aqui para celebrar o trabalho desta equipa e para vos convencer a descobrir a viagem única da entusiasta e espontânea Rebecca Bunch (Rachel Bloom). 

A série da CW, co-criada por Aline Brosh McKenna e Rachel Bloom, ousou esticar a corda, uma e outra vez, numa emissão em canal público. Falou sobre saúde mental, sobre os meandros do corpo e sexualidade feminina, estereótipos de género, aborto, apropriação cultural e a problemática noção de “minorias étnicas”, de temáticas LGBTI e de tanto, tanto mais. 

Desmistificou e subverteu, de forma constante. Por agora, há que apresentar um pouco do trajecto que levou à criação da série. 

Aline Brosh Mckenna (esquerda) e Rachel Bloom (direita).   Fonte: Vanity Fair

Crazy Ex-Girlfriend é uma ideia original de Aline Brosh McKenna, argumentista de filmes como O Diabo Veste Prada e Vestida Para Casar. A co-criadora, produtora e argumentista principal da série avançou, em 2017, em declarações ao The Ringer: 

“As ideias ditam para onde vamos (…) e o cinema, neste momento, não é o local mais indicado para ideias originais, especialmente sobre mulheres.” 

Esta série era um “passion project” que Aline tinha pensado, mas ainda não concretizado. Há seis anos, encontrou Rachel Bloom através da sua então actividades- sketches de comédia e videoclipes musicais próprios no Youtube. O seu canal, Rachel Does Stuff, é hoje composto em grande parte por músicas da série, mas os seus vídeos com mais visualizações continuam a ser os seus velhos “clássicos”, anteriores à fama. 

 

Rachel Bloom, Licenciada em Teatro pela Tisch School of Arts da Universidade de Nova York, assentou que nem uma luva na personagem que McKenna tinha criado na sua mente.

Juntas, começaram a trabalhar no argumento da série. Aline insistiu que Rachel, alguém sem estatuto na indústria, tivesse direito ao crédito de produtora executiva.

O duo criou assim a série, na qual Bloom é protagonista, argumentista e criadora das letras das músicas. O piloto original da série foi realizado para a Showtime, que após aceitar o conteúdo, desistiu à última da hora.

A série encontrou uma nova casa na CW, onde parte do piloto acabou por ser censurado. Digamos que a série é um pouco “adulta” para a casa de Diários do Vampiro, Sobrenatural e Riverdale. Talvez por isso, as audiências da série tenham sido sempre bastante catastróficas.

Crazy Ex- Girlfriend foi, sucessivamente, e até ao seu final, a série com piores audiências da televisão norte-americana. Contudo, o contrato com a Netflix fez maravilhas, e levou a série para o campo da internacionalização.

Por outro lado, a subsidiária da CBS encontrou aqui um produto digno de nomeações e prémios. Com o Globo de Ouro e o Critic Choice Award na mão de Rachel Bloom após o final da primeira temporada, juntando dois Emmy e algumas outras nomeações,  foi assegurada a continuidade da série. 

O CONCEITO DE  “CRAZY EX-GIRLFRIEND”

Afinal, o que é Crazy Ex-Girlfriend? É uma comédia musical, que se faz parecer romântica para apenas contradizer as nossas expectativas no que diz respeito à heroína principal.

Começamos a narrativa com Rebecca Bunch, uma advogada de sucesso em Nova Iorque. Um dia, esta é interpelada por uma televenda de uma marca de manteiga – a Trully Butter. No slogan, que inundava Nova Iorque, podia ler-se “Quando foi a última vez que foste verdadeiramente feliz? 

Rebecca está desiludida, apática e cansada do seu trabalho. Eis que encontra Josh Chan ( Vincent Rodriguez III), uma antiga paixão dos campos de férias. Lembra-se assim de tempos mais simples, em que se sentia feliz.

Quando sabe que Josh pretende regressar à sua cidade-natal, na Califórnia, interpreta este sinal como uma indicação do destino. Rumo à felicidade, viaja para West Covina, na Califórnia. Quando chega vê que Josh tem uma namorada, uma vida, amigos – um conjunto de coisas nas quais Rebecca não se enquadra. 

Aqui começa a sua jornada, rumo à auto-descoberta, e a nossa jornada, uma pelo reino do absurdo e das situações inverosímeis.

West Covina, como centro da narrativa, é proposto pelas criadoras como uma celebração da mundanidade. É uma cidade pequena, aparentemente desinteressante, longe da praia e sem nada que a destaque. Ainda assim, é através das personagens e das suas histórias que este cenário ordinário se vai tornar extraordinário. 

Não se ostentam orgulhosamente as pequenas vitórias da série, mas West Covina não foi escolhida aleatoriamente. É uma cidade com “minoria branca”, um mosaico cultural diverso. Respeita-se essa essência, que não surge apenas como um exercício de casting. O principal interesse romântico é filipino, sendo um protagonista asiático algo muito raro na televisão norte-americana.

Mais importante é que esta diversidade se reflecte na construção das personagens, nas suas narrativas e nas ironias mordazes das quais se compõem as canções. Um ótimo exemplo é a música Group Hang, a qual coloca em cheque as inúmeras cadeias de comida de fusão ou de inspiração mexicana existentes nos Estados Unidos: 

UMA VIAGEM MUSICAL SEM PRECEDENTES

É fácil “esquecer” a essência de musical deste conteúdo, no meio de tantas temáticas prementes que se vêm exploradas através de um registo cómico sempre mordaz. Contudo, esta é, antes de mais, a manifestação de um grupo de theater geeks, completamente dentro do seu elemento quando a cantar e a dançar. Composto maioritariamente por actores de teatro, e até alguns bailarinos, o elenco é versado e diversificado. 

À parte da equipa central de argumentistas da série, liderada por McKenna e supervisionada por Bloom, temos a equipa “musical”. Esta tríade compôs mais de 150 músicas para o programa, e dela fazem parte a protagonista da série, o compositor Jack Dolgen e o músico Adam Schlesinger, vencedor de um Emmy, um Grammy e nomeado no passado ao Oscar, Tony e Globo de Ouro. 

Os episódios têm entre dois a quatro números musicais, no máximo. Para aqueles por aí que não gostam de musicais, estes momentos não são constantes e têm funções narrativas essenciais. Pode-se dizer que são o coração da série.

Sim, por vezes estes são momentos de suspensão narrativa, mas em primeiro lugar são manifestações do subconsciente da protagonista.  Um mecanismo criativo que nos permite compreender inteiramente a personagem central, sem recurso a voz off ou outros mecanismos mais preguiçosos. A alegre e sonhadora Rebecca “vê a sua vida como um musical”, nos dias bons e menos bons. 

As (157!!) músicas compostas para a série tocam em inúmeros géneros musicais completamente distintos. Estas expressões da interioridade das personagens são compostas por um repertório repleto de referências, com composições e vídeos com ecos de músicas conhecidas do grande público. Não são covers, não são pastiche, são re-interpretações hilariantes. 

Os innuendos astutos são uma constante. Um bom exemplo, entre tantos, será a música The First Penis I Saw, uma inesperada e hilariante “versão” de Mamma Mia, dos Abba. Somos confrontados com algo bastante raro – a afirmação da sexualidade de uma mulher de meia-idade.

Paula, uma auxiliar jurídica, interpretada pela maravilhosa e talentosa Donna Lynne Champlin, é colega e melhor amiga da protagonista e a segunda figura mais importante da série. 

Paula é uma figura que não pertence ao universo televisivo da CW, uma figura geralmente ignorada devido à sua maturidade. Donna Lynne, actriz de Broadway, brilha intensamente. Os seus números musicais são frequentemente os mais emblemáticos de toda a série. A persona de Paula procura combater a ideia de que uma mulher da sua idade já não tem sonhos. É-lhe, antes, conferida uma vitalidade ausente em muitas das personagens mais jovens da série. 

A atriz afirmou em declarações à publicação Femestella :

“Aqui, sinto que criamos um mundo que espelha o mundo real, mas que não vemos necessariamente reflectido na nossa experiência. Adoro-o.” 

Voltando às claras referências a artistas e vídeos musicais, há de tudo. Desde uma retrospectiva da carreira dos Beach Boys na 4.ª temporada, expressa numa única música, até uma versão psicótica de I Kissed a Girl na temporada de estreia.

Em Feeling Kinda Naughty, a vontade inocente de beijar é substituída pela de fechar alguém numa cave, snifar o seu suor, cometer homicídio e vestir a sua pele. Perfeitamente quotidiano, sem dúvida.

Assim é o valor de choque envolvido na comédia sempre ousada de Crazy Ex-Girlfriend. Deixo-vos o vídeo e o desafio, não ser sugado para a insanidade que é a paródia musical da série. A energia de Bloom é contagiante. 

CLICHÉS DE GÉNERO 

Um conteúdo contado a partir da experiência da mulher, Crazy Ex-Girlfriend usou o feminismo como uma armadura honrosa, sem nunca excluir a perspectiva masculina. Ao invés, procurou desmontar a imagem do macho impenetrável, o protagonista unidimensional da comédia romântica, procurando a sua verdadeira humanidade. 

Começa a dança que joga com estereótipos de forma mordaz. Exemplos exímios podem ser encontrados em músicas como Sports Analogies – uma hilariante justificação para a empatia criada em torno de partidas desportivas.

Já em Fit Hot Guys Have Problems Too, três dos protagonistas masculinos da série pedem para evitarmos a objectificação com os nossos “male and female gaze”. Isto, claro, declarado enquanto dançam no palco de um bar, de tronco nu. Uma noite típica em Crazy-Ex! 

Por outro lado, temos um dos maiores hinos da série “que consegue ser tão feminista quanto anti-feminista”, tal como descrito por Rachel Bloom na sua apresentação ao vivo, no já referido concerto especial.

Let’s Generalize About Men parece criticar os homens, generalizando acerca do seu comportamento colectivo. Por outro lado, descredibiliza o discurso de grupo devido à sua natureza simplista.

É uma música viciante, e à qual é difícil ficar indiferente. A carga irónica é simplesmente demasiado poderosa. 

Sem quaisquer tabus, Bloom e companhia compuseram até um hino bastante bizarro, intitulado Period Sex e alcançaram uma pequena conquista inesperada – ser a primeira série em canal aberto, nos Estados Unidos, a utilizar a palavra “clitóris”. Pelo meio, falou-se ainda de prazer, de orgasmos, de infecções urinárias causadas por sexo, de tudo um pouco. Sem filtros. 

SAÚDE MENTAL 

O grande trunfo de Crazy Ex-Girlfriend não é, contudo, a sua genialidade musical, humor absurdo, narrativa inclusiva ou inversão (e quebra) de estereótipos associados à comédia romântica, como o conceito rejeitado de “o tal” ou “ficaram juntos no final”.

É tudo isto, é todo este esforço de subversão, mas é também muito o seu inovador tratamento de assuntos relacionados com saúde mental. 

Rebecca muda a sua vida radicalmente, de forma irracional, em função de um ex-namorado de adolescência com o qual não manteve contacto durante anos. É a ex louca um meme da internet. O recusar desta lógica problemática fortalece a série, e torna-a marcante para a cultura pop. 

A viagem de Rebecca é uma de melhoramento pessoal constante, e por mais que erre, volta a levantar-se, sempre em busca do equilíbrio e da felicidade. Ao longo da série, observamos momentos em que está ansiosa, deprimida, agitada, irracional.

Muito trabalhamos para chegar a um momento decisivo, aquele em que Rebecca é diagnosticada com Transtorno de Personalidade Limítrofe, um transtorno de personalidade grave,  que leva frequentemente ao suicídio, associado a elevada instabilidade emocional e medo intenso de rejeição.  Um spoiler que certamente não destrói a experiência de visualização. 

A Diagnosis é uma música alegre, expansiva e que injecta esperança na personagem após um evento traumático. Algo de notável é verificar que as criadoras da série tiveram a preocupação de realizar uma pesquisa aprofundada, para tentar compreender qual a patologia que melhor se adequava aos comportamentos exibidos pela personagem. 

A série é um espaço seguro, ou pelo menos era esse o objectivo de quem a pensou. Criar um conteúdo que aceitasse todos, independentemente dos seus problemas, raça, orientação sexual ou outras condicionantes. 

Opera-se uma banalização, banalização no sentido mais positivo que a palavra alguma vez teve. Rebecca não é diferente, pelo menos não num mau sentido. É uma personagem inspiradora, repleta de vida e que contagia todos os que a rodeiam. É apenas alguém que precisa de ajuda.

Que o diga a paródia musical em honra de La La Land, Anti-Depressants Are So Not A Big Deal, que até teve direito a sapateado e à presença da bailarina original do filme protagonizado por Emma Stone. 

Os personagens de Wes Covina são diferentes, marcantes, pretendem representar pedaços de um mundo real, peças distintas, não uniformizadas. Cada um deles é caricato e faz falta, até ao mais insignificante dos não -recorrentes da série. 

A obra da dupla Bloom-Mckenna é intitulada pela crítica norte-americana com um fenómeno de culto instantâneo. Não acredito em conteúdos de culto estabelecidos sem o teste do tempo. Contudo, espero que estes entusiastas fãs tenham razão. Este trabalho merece atingir um público maior, e servir como exemplo.

Ao fim de contas, Crazy Ex-Girlfriend faz-nos rir, chorar, pensar, cantar, dançar e talvez, só talvez, tornar-nos mais tolerantes em relação ao outro, e à diferença. As suas quatro temporadas encontram-se ainda na Netflix, mais do que a tempo de serem descobertas. Garanto que vale a pena!