A 16 de abril de 2019 comemora-se o 130º aniversário do pioneiro ator e realizador Charles Chaplin. Aproveitando a viagem ao passado que todos devemos fazer neste dia, o Espalha-Factos visita a carreira e a vida deste ícone inglês.

Vagabundo, pequeno e apoiado numa bengala curvada; expressivo, liberal e, sobretudo, engraçado. Esta descrição caberia a bastantes sujeitos ocidentais que viveram a injustiça social do virar do século, há pouco mais de cem anos. E talvez por isso, em representação das vítimas humanas, ele se tenha mascarado, transformando a sua face na palidez de qualquer um.

O mundo era decididamente cruel. O desemprego era o único sujeito a sorrir ao fundo da rua, sempre pronto a caçar nova presa. A guerra estava à espreita. A doença, a fome e a incapacidade de adaptação a um lugar revolucionado pela exponencial industrialização batiam a todas as portas. Faltava esperança, faltava conforto, faltavam sorrisos; faltava Charlot.

Charles Chaplin (Ilustração: Marta Emauz Silva)

Mas é preciso recuar um pouco mais para compreender melhor como se chegou aí.

Um nascimento incerto

Não se sabe bem onde aconteceu, até porque não há registo oficial do sucedido, mas o próprio Sir Charles Spencer Chaplin acreditava ter nascido em Walworth, no sul de Londres. A sua chegada ao mundo, em 1889, foi meio que desamparada pela pobreza, pois a sua mãe não tinha emprego e portanto ora costurava, ora vestia a bata de enfermeira, e o seu pai, Charles, não trazia trocados para casa.

Aos sete anos de idade, Charles Chaplin acaba por ser colocado numa workhouse, que funciona como uma casa para quem não tem como subsistir, por 18 meses. Findado esse tempo, regressa a casa, para os braços da mãe. Mas, neste período, Hannah Chaplin fora gradualmente perdendo a sanidade mental e o seu filho, com uns meros 14 anos, é deixado às mãos do mundo.

Antes disso, na flor dos seus cinco anos, Charles Chaplin subia aos palcos da comédia pela primeira vez, ainda que em termos amadores. E assim nascia uma estrela.

América, um novo desafio

Se aos 13 anos abandonara a educação, com 19 é descoberto por Fred Karno. Charles Chaplin entra na sua companhia de comédia ambulante e viaja para os Estados Unidos para lançar a carreira.

Dez anos na estrada levaram a que, em 1919, fosse um dos fundadores da distribuidora United Artists, para ter controlo sobre os filmes que viria a produzir. O comediante virou realizador com O Garoto de Charlot (1921), e a personagem Charlot fica finalmente documentada em filme (já tinha aparecido numa antologia de curtas-metragens e no filme Charlot nas Trincheira (1918), no qual Charles Chaplin não está oficialmente creditado como realizador).

A Quimera do Ouro (1925) e O Circo (1928) deram-lhe forte aclamação no panorama dos filmes mudos, e o realizador recusa participar da viragem para os filmes falados durante os anos 30. Resultam da teimosia o seu melhor filme, Luzes da Cidade (1931), e Tempos Modernos (1936), uma crítica à industrialização e consequente questionamento existencial sobre o papel do homem numa sociedade robotizada.

Mas do outro lado da estrada corria Buster Keaton.

O inimigo nunca sorri

Se Charlot era uma personagem engraçadíssima, cheia de carisma e com expressões memoráveis (o sorriso a morder os dedos no final de Luzes da Cidade é o expoente máximo da qualidade expressiva de Charles Chaplin), Keaton praticava o inverso.

A falta de expressão da sua personagem, o Pamplinas, face aos eventos cómicos que Buster Keaton utilizava nos seus filmes, tais como quedas, corridas e fugas, é como uma pré-conceção do Efeito Kuleshov. (Esta experiência intercala a figura de alguém apático com imagens com diferentes significados para o espectador, que, enganado e iludido, vê expressões diferentes na mesma face inexpressiva.)

Para além disso, através desta técnica, o ator e realizador deixava espaço para o espectador projetar as suas próprias aspirações psicológicas durante as suas obras. Apesar de ser reconhecido como um dos grandes comediantes do seu tempo, Buster Keaton viveu sempre à sombra da cartola mais famosa do cinema.

Mas Charles Chaplin não tinha um inimigo só.

Desistindo da sua insistência, finalmente cede aos filmes falados para satirizar o então vilão mundial, Adolf HitlerO Grande Ditador (1940) é por muitos considerada a principal obra de Charles Chaplin, que em pouco mais de um par de horas e através da representação de duas personagens opostas arrasa com a política ditatorial.

Poster personalizado pela The Criterion Collection de O Grande Ditador (1940) (Fotografia: The Criterion Collection)

Ora Charles Chaplin é um barbeiro judeu, ora vira ditador. E daqui parte uma das histórias mais bem contadas em película cinematográfica, que foi depois banida pela Alemanha Nazi. O líder do país, Adolf Hitler, foi apanhado pela curiosidade e, através de um exemplar trazido por Portugal, espreitou o filme por duas vezes, em privado. “Dava tudo para saber o que ele [Hitler] pensou dele“, assumiu Chaplin.

Uma história que tinha de ser contada

Embora seja maioritariamente reconhecido no seu fato de Iron ManRobert Downey Jr. é um ator versátil e, sobretudo, muito capaz. Muitas vezes apanhado em situações pessoais muito controversas, nomeadamente ligadas a droga, Downey Jr. representou em grandes filmes como Assassinos Natos (1994), Wonder Boys – Prodígios (2000) ou Zodiac (2007).

Mas é em 1992 que tem o papel de uma vida.

Robert Downey Jr. como Charles Spencer Chaplin, em Chaplin (1992) (Fotografia: IMDb)

Na biografia de Richard Attenborough do ator e realizador Charles Chaplin, ficamos a conhecer as vários feições que Charlot não nos deixava descobrir. Poderíamos resumir a sua vida ao título do famoso filme Quatro Casamentos E Um Funeral (1994), mas não sejamos redutores.

Neste filme há magia (nomeadamente quando Chaplin descobre o Charlot que há em si), há retratos da produção do cinema mudo, há uma Hollywood a arrancar para o sucesso. Há casamentos, há desilusões e ilusões. Há uma Oona O’Neill de 17 anos roubada por um senhor de 54 ao jovem escritor J.D. Salinger, que tinha ido para a guerra.

Mas há performance. Há principalmente um Robert Downey Jr. como nunca se tinha visto, e como nunca mais se voltou a ver.

O aceno da América

Desde a crítica social nos seus filmes à vincada posição contra Hitler, sempre se soube do pendor liberal nos ideais de Charles Chaplin. Na década de 50, o cineasta acabou mesmo por ser acusado de praticar atividades anti-americanas como um suposto comunista.

Com a estreia de Luzes da Ribalta (1952), o ator partiu para o seu país natal, a Inglaterra, para o lançamento da obra. O FBI já pressionava Charles Chaplin pelas suas alegadas convicções políticas há quase dez anos. O diretor da instituição, J. Edgar Hoover, soube dessa partida e revogou, junto do Serviço de Imigração americano, o visto do ator. Charles Chaplin passou a viver exilado dos Estados Unidos.

A sua nova casa passou a ser a Suíça, e o mesmo não voltou a pisar solo americano até à entrega do seu segundo Oscar Honorário, em 1972. O realizador recebeu uma ovação em pé recordista, que durou 12 minutos, e permanece até hoje como a personalidade mais reconhecida de sempre na história do cinema.