A Semana Santa é marcada da pior maneira para o património material, com o incêndio na Catedral de Notre Dame, em Paris. O fogo, que lavra desde o final da tarde desta segunda-feira, deixará o edifício – datado do século XII -, com marcas permanentes e deixará uma marca permanente na História cultural e artística francesa.

Neste incêndio, não se perderam apenas obras de arte, pedaços de História ou, em último caso, o cenário de O Corcunda de Notre-Dame, senão um símbolo da História de Paris e da própria História francesa. Até ao momento podemos contabilizar a destruição do pináculo, momento que impacta todos os que o assistem e cuja autoria é assinada por Viollet-le-Duc, no século XIX.

A par deste pináculo, também não resistiram os vitrais, pelos quais este edifício é notoriamente conhecido. Até ao momento, grande parte do edifício foi consumido pelas chamas, assim como as memórias de mais de 800 anos. De recordar que esta catedral sobreviveu a acontecimentos como a Revolução Francesa ou a Segunda Guerra Mundial.

NOTRE DAME: UMA MARCA DA HUMANIDADE

Para Silvana Sousa, doutoranda em História da Arte pela Universidade de Évora, com o projeto “Da Casa ao Lar: Arquitecturas de habitação na cidade de Évora entre a Baixa Idade Média e o início da Modernidade”, uma catedral e mais ainda se for da dimensão de Notre Dame, não só é um símbolo material, como também um aspecto visível e palpável da memória histórica, cultural, social e como tal, importante de ser preservado.

A historiadora da arte defende que “devemos, enquanto comunidade, providenciar os meios para que o património seja auto-suficiente, quando possível, mas o Estado não pode demitir-se de uma das suas muitas funções, que é preservar, valorizar e promover este património”. Ao Espalha-Factos, acrescenta que a ideia que se deverá contrariar, é a de que o património deve gerar lucro.

Foto: Elsa Espin

O QUE SE PODERÁ PASSAR A PARTIR DE AGORA?

Os danos ainda não foram contabilizados. Segundo avança a imprensa, grande parte do recheio da igreja conseguiu salvar-se. Isto deve-se à retirada deste mesmo espólio durante a campanha de obras de requalificação da catedral parisiense. A UNESCO já demonstrou o seu total apoio no que diz respeito à salvaguarda e restauro do património. Contudo, em que condições e de que maneira se dará uma campanha de restauro num edifício com esta monumentalidade? Qual será o papel do Ministério da Cultura neste caso? A quem serão imputadas as responsabilidades? Todas estas questões estão pendentes e merecem atenção.

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Por outro lado, compreender a fragilidade no que toca às intervenções em monumentos ou obras com o peso e a antiguidade, como é o caso da Catedral de Notre Dame. Entender que procedimentos como a utilização da electricidade podem ser causadores de incêndios e que tem que ser respeitada a memória do próprio edifício, de forma a, por um lado, não modificar a sua génese e por outro, a não submeter o mesmo a procedimentos que possam comprometer a sua estrutura.

Foto: Elsa Espin

E SE ESTE INCÊNDIO ACONTECESSE EM PORTUGAL?

Longe desta discussão está a possibilidade deste incidente acontecer numa das distintas igrejas ou catedrais medievais, espalhadas por Portugal. Mas o que aconteceria se, por exemplo, a Sé de Lisboa ou a Sé de Évora ardessem? Estaria Portugal preparado? Haveria um plano de contingência para este tipo de situação?

Sé_Catedral_de_Évora_-_Parte_Norte

A resposta é, ao que tudo indica, não. Não só este tipo de edifícios não estão preparados para as situações de emergência como um incêndio, como geralmente, a sua localização tampouco facilita o trabalho dos bombeiros. Estas costumam ser edificações construídas numa malha urbana muito fechada, quase sempre em centros históricos e com condições de difícil acesso, como ruas apertadas, onde não poderia passar um qualquer carro de bombeiros. Em declaração ao EF, a Direcção Geral do Património Cultural destaca que “na atualidade, todos os Museus, Palácios e Monumentos tutelados pela DGPC estão dotados de meios de combate a incêndio, plano de evacuação e saídas de emergência.”

Apesar destes meios e planos, apenas a cidade de Lisboa tem um sistema de contacto em directo com o Regimento Sapadores de Bombeiros em caso de incêndio, o Sadiconnect. Em todas as demais localidades e segundo o texto enviado “existem ligações telefónicas normais e automáticas aos Serviços de Bombeiros ou a empresas de segurança.” Os espaços tutelados pela DGPC, contam ainda com inspecções periódicas ao abrigo da lei, assim como medidas de autoproteção.

Quando solicitada a clarificar o que eram “ligações telefónicas normais”, no caso dos espaços tutelados pela DGPC fora de Lisboa e se não existiria o perigo de danos por não haver um dispositivo capaz de alertar sem que alguém tivesse que acorrer ao local, a quando de uma situação como um incêndio, o organismo tutelado pelo Ministério da Cultura respondeu:

“Normais” são normais, ou seja, sem ser através do sistema Sadiconnect, que funciona na área de Lisboa, como está escrito.

Fonte: Pixabay

No entanto, lembramos, a dotação anual do Orçamento de Estado para a Cultura ainda não é sequer de 1% e como tal, este tipo de questões são impensáveis para um país como Portugal. Até lá, multiplicam-se as opiniões, os comentários e os “treinadores de bancada”, que sem qualquer experiência na área do património, emitem opiniões tecnocratas sobre o que se perdeu e sobre o que deverá ser feito.

O RESCALDO: COMO DESPERTOU PARIS DEPOIS DO INCÊNDIO?

Paris acordou com dor, uma dor que se alastrou a toda a França e consequentemente a toda a Europa. Quem nos conta é Elsa Espin, doutoranda em História da Arte Medieval pela Université Paris-Sorbonne e Universitat Autònoma de Barcelona. A historiadora da arte lamenta ter visto tudo o que aconteceu e sobretudo o ângulo escolhido pela imprensa francesa dizendo “que é uma dor imensa para os cristãos”.

Para esta medievalista parisiense, este era muito mais que um lugar de culto. Funcionava como o coração de Paris, como o centro da cidade, sendo parte da sua identidade. Recorda que todos haverão entrado pelo uma vez dentro da catedral, subido às suas torres, visto a árvore de Natal na praça ou contemplado o edifício a partir das margens do rio Siena. Explica-nos que é isso que afeta mais os parisienses neste momento, a sensação de partida de uma pessoa com a qual estão habituados a conviver.

Sobre o ponto de vista técnico, conta-nos que tudo indica que tenha sido pelas obras e pelos cortes orçamentais nas mesmas. A queda do pináculo de Viollet-de-Duc – datado do século XIX -, assim como a estrutura de madeira feita com árvores do século XII, são igualmente perdas consideráveis. Contudo, acrescenta que uma catedral é algo vivo e que como tal, já havia sido alterada diferentes vezes na Idade Média, no século XVIII com as obras de Sufflot e que com a Revolução Francesa, também houve bastante degradação.

Remata que tudo isso era parte da beleza de Notre Dame e que com o novo restauro, seguirá sendo um edifício extraordinário que sobreviveu ao seu primeiro incêndio em 850 anos. Desta forma, termina com o ponto de vista de que nunca mais se poderá dizer que a Idade Média era uma época obscura, na qual não se sabia o que se fazia.

(Ultima atualização dia 16 de abril, às 18h02)