Diamantino (2018) é, e permitam-me roubar algumas palavras ao poeta José Régio, “um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou…” no panorama cinematográfico do nosso país. E talvez para isso tenha ido buscar a Cristiano Ronaldo inspiração para a sua personagem central.

Este trabalho da dupla Gabriel AbrantesDaniel Schmidt, uma coprodução luso-brasileira, pega no maior astro futebolístico do mundo, o ingénuo Diamantino Matamouros (Carloto Cotta), e lança-o aos relvados do Campeonato Mundial de 2018. Pelo caminho, mistura a estrela de sotaque açoriano com assuntos como o dos refugiados, da clonagem, dos paraísos fiscais ou do Brexit. E ainda nos faz rir.

Curiosamente, é nos momentos mais dramáticos de Diamantino que a comédia reinará. E a culpa disso tem de ser atribuída totalmente ao seu astro, Carloto Cotta, que faz do filme um belo retrato da atualidade, ainda que estilizado pela falta de sentido lógico.

O Portugal deste 2018, fantasiado pelo génio dos realizadores, cheira à monarquia azul e branca de um país que em tempos fora “grande“. Diamantino Matamouros carrega o “zarenta e zero” na camisola da seleção nacional e vê-se apanhado num emaranhado de propaganda política eurocética e um grupo de refugiados à deriva no mar.

Desde Tubarão (1975) que não assistia a uma hidrofobia tão arrepiante. O estádio em que joga, que outrora se enchia de cachorrinhos gigantes que remavam com Diamantino Matamouros até ao golo, virou piscina sem fundo. E o medo é tanto que, ao longe, a estrela da bola não consegue evitar a sua imaginação de pintar as ondas roubando os seus queridos refugiados, de quem fica com uma pena tremenda quando avistados do seu luxuoso iate.

Antes deste medo, a pena virara tristeza, a qualidade desvanecera, e Diamantino lá desaprende a arte do futebol, esse “ópio do povo” num tempo em que já não há mais “Miguéis Ângelos” para pintar, como lhe explicava sempre o seu pai (Chico Chapas).

Esta inocência, transportada por narrações do próprio até ao nosso tímido ouvido, relembra-nos da ideia de infância. Tudo ali é fantasia: de repente estamos tristes e felizes e tristes de novo. Mas Diamantino Matamouros não deixa de ser um alien da espécie humana (a personagem é virgem e não pretende ter relações sexuais, embora possa admitir que sexo parece “fixe“).

Por tudo isto, é preciso colonizá-lo.

Para além de ser manipulado pelo tal partido político eurocético para protagonizar o regresso do rei D. Sebastião numa propaganda, o melhor jogador do mundo começa a ser testado, física e psicologicamente. O objetivo? Uma experiência genética secreta capaz de mostrar a todo o restante mundo que Portugal é superior.

Os cachorrinhos que o acompanham são como que o escudo que impede as forças negativas de penetrarem na sua forte personalidade. Nestas brilhantes imaginações animais se nota que o filme, vencedor do Grande Prémio da Semana da Crítica em Cannes, surge de uma produção bem modesta, com efeitos visuais limitados.

Os cenários do estádio também estão tremidos, mas nem por isso Cotto protagoniza mal ou o filme sai derrotado. A edição, que é calma e dá o mesmo espaço a um bom diálogo como a uma boa pausa, bem como os humildes 96 minutos de filme, é outro ponto a favor de Diamantino, e é uma ajuda para carregar todo o simbolismo da obra.

O pai de Diamantino Matamouros, durante a derradeira final do Mundial de Futebol contra a Suécia, em que o jogador falhou uma grande penalidade, não resistiu à pressão e faleceu, e o jogador não mais tem em quem confiar. E não é só a sua fortuna que precisa de uma forte gestão.

A personagem está alienada de uma realidade demasiado real por ser assim tão parva (embora emita pistas de ficção científica por todos os planos), e portanto vive alheia aos problemas sociais e políticos que a rodeiam. O seu apoio basilar desapareceu e o astro encontra-se sozinho, deixado às mãos das suas malévolas irmãs gémeas (Anabela e Margarida Moreira). Distraídas do egoísmo que transpiram, elas apenas o querem roubar, aproveitando a deixa para o maltratar.

Tudo parece perdido até que o jogador decide adotar um refugiado (Cleo Tavares). A sua vida ganha novo rumo, os cachorrinhos gigantes parecem agora mais vivos do que nunca e Diamantino, depois de muita aventura, amor e as suas consequentes desilusões, lá reencontra a felicidade.

Para o provar ao mundo, imita um peixe, sorrindo, e fotografa o lindo retrato de uma nação.

Título original: Diamantino

Realização: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt

Argumento: Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt

Elenco: Carloto Cotta, Cleo Tavares, Anabela e Margarida Moreira

Género: Comédia, Drama, Fantasia

Duração: 96 minutos

'Diamantino': Cachorrinhos gigantes e esse tipo de coisas assim
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